Coragem é não saber onde está, não saber com quem está, não saber pra onde vai, não saber o que pode acontecer e mesmo assim tomar a decisão certa.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
228
Há quem diga, porém, que de frente pra um cano de arma,
Se vê a vida toda.
Não, não se vê nada.
A pessoa vira bicho
A respiração aumenta, a adrenalina sobe e os sentidos se afloram.
Tudo que se pensa é correr.
domingo, 18 de dezembro de 2011
227
A bailarina escorregou.
Não porque talvez ela fosse necessariamente ruim
Ou estivesse despreparada.
Com certeza ela ensaiou bastante pra esse momento.
Horas e horas
Meses até.
Na verdade, a mãe dela a matriculou no balé aos cinco anos de idade
E desde então vem praticando.
Se esforçando
Se privando de várias coisas só pra isso, pra esse momento.
Todas as luzes sobre ela
Como em tantas outras vezes tinha sonhado
Em alguns momentos temido
Outros desejado.
Vários olhos, só pra ela.
O silêncio que invadia o momento a fez lembrar das entre-notas
Nas quais flutuava de uma posição à outra
E que sempre lhe pareceram tão naturais
Leves.
Como se tivesse sido moldada para fazer isso.
Ela sabia que com o tempo,
Apesar de manter suas outras atividades de adolescente,
A dança se tornaria sua vida
Seu mundo
Seu motivo de levantar da cama todos os dias
E Deus sabe que cada um de nós precisa de um motivo.
Nos movemos por nossas convicções.
Nos equilibramos sobre elas.
Assim como fazia a bailarina.
Mas ela escorregou.
E quem de nós nunca cometeu um deslize apesar dos próprios dogmas?
Se fôssemos tão constantes e racionais
Se não existisse nenhuma passionalidade
Nenhuma viceralidade
Seríamos máquinas.
Não erraríamos.
E perderíamos metade da beleza de se viver.
A vida só é boa porque existem momentos ruins
Com os quais podemos comparar os bons.
O amor é bom porque conhecemos a solidão
O remédio é bom porque conhecemos a dor
Mas a bailarina escorregou.
Quem já foi ao chão sabe como dói
E só realmente saboreia a vitória
Aquele que já sofreu com a derrota.
"Então ela tem duas formas de encarar a sua atual realidade."
Eu rezei pra que se reequilibrasse
Tudo bem que foi uma prece de fração de segundo
Nada muito religioso
Mas eu sei que comigo veio o coração de toda a plateia
Deu pra sentir a respiração presa
A tensão no ar
Até a pena de alguns.
A bailarina se estatelou de cabeça no chão.
E por saber de tudo isso.
Aplaudi.
sábado, 10 de dezembro de 2011
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
225 - nove de dezembro.
Sabe, eu gosto do meu aniversário.
Apesar de ficar mais velho e que sempre chove nos dias 9 de dezembro
Eu ainda assim gosto do meu aniversário.
Aí você pensa "ai... Gabriel é tão egocêntrico...."
Não, não sou.... eu acho.
- Tava gostoso, né?
- É, tava sim.
Pararam o carro na garagem de casa. Subiram. Tem dias que são esperados uma vida toda, por duas pessoas e esses dias geralmente chegam com algum prenúncio, mas jamais sob aviso.
A porta do banheiro se abre.
- Carlos, corre aqui... eu acho que estourou...
A calma com que ela falou não foi normal, foi uma calma que não era dela, não, não era. Era minha. Mas não do meu pai.
Ele saiu correndo como uma bala, um raio, um torpedo. Em questão de segundos já tinha reunido todos os ítens do kit-parto e disparado pelos corredores do prédio, pelas escadas e em menos de um minuto (récorde mundial), já estava na garagem dentro do carro. Havia, entretanto, um pequeno, ínfimo problema... minha mãe estava no apartamento ainda.
Dez minutos e muita gritaria e reclamação depois (agora sim o normal deles), estavam à caminho do hospital, enquanto eu dava umas viradinhas e uns chutinhos só pra todo mundo saber que eu já tava ligado na minha parte e, no que dependesse de mim, tava tudo tranquilo pra nascer.
Às 20 horas, do dia 9 de dezembro de 1990, nasceu Gabriel. Filho de arquiteto, mas que não sabia desenhar, filho de professora e com o português não se entendia. Preferiu os números às letras. Foi feliz, é feliz, planeja continuar sendo.
Parabéns pra mim,
E pra você também se você nasceu hoje.
Sejamos muito felizes ainda.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
222
A respiração de quem perdeu o ar
As pernas de quem não pode andar
A cabeça do mau humorado
O coração do mau amado
Coragem do medroso
Orgulho do humilado
A beleza em seu mais puro estado
Para feiura escancarada logo ao lado
Alento para o corpo
Cura da alma
Não pode ser visto
Não pode ser tocado
Carinho ao desesperado
A vontade do desanimado
As cores do cego
O timbre do mudo
As notas ao surdo
O primeiro e o último surto
Do louco em sua camisa de força
As flores são para a moça
O gel no cabelo é do rapaz
O sorriso de quem perdeu tudo
A alegria de quem nunca teve nada
O sono perdido no meio da madrugada
E o soluço que começa sem razão
O fim para o "então..."
Na frase que começa de pertinho
Para quem reclama de ser sozinho
Seria a melhor solução
Para quem se perde no chuveiro
Para quem dança na chuva
Para quem não se concentra um dia inteiro
Para quem viaja na lua
Para todo mundo ouvir na rua
É sempre bom cantar...
Lá lá laiá....
domingo, 30 de outubro de 2011
221
Amigo,
não se perca nos olhos dela
Porque toda mulher para esconder sua natureza
Se faz de donzela.
219
Eu gosto de flutuar entre o aproximadamente imbecil
E o sóbrio dentro de mim mesmo.
Em minha cabeça fico revendo meus momentos de fraqueza
De constrangimento
Fazendo auto-correções de tempos em tempos
Revivendo involuntariamente meus embaraços.
No Lá menor, lembrei do teu carinho.
Me pego deitado, de barriga para cima
Cantando alto em meu ukulele.
As cordas soam novas
Um som lindo
Quem dera todos os sons da minha vida
Fossem como o desse momento.
Entre o Dó escutei teu choro
Sorri um sorriso vazio
Daqueles de quem lembra de longe as coisas que já passaram
É difícil a gente se lembrar do quanto já foi feliz
E que felicidade não é um sentimento
Fá e já me perdi nos teus abraços
Felicidade é um contexto, uma realidade.
A felicidade instantânea se chama alegria
E de alegria ninguém vive.
Vivemos porque temos a condição de sermos felizes
De experimentar a felicidade no nosso cotidiano
Mesmo que ela se resuma só a abrir o guarda roupas
E não saber o que escolher.
Proque ter opções também é uma forma de felicidade.
Sol e de longe vejo teus passos.
Sabe,
Ainda há muito o que viver
Muito sobre o que pensar
Muita coisa para acontecer
Meu passado ainda é pouco
E inocentemente espero que meu futuro o supere de longe
Independente disso, gosto de flutuar dentro de mim mesmo
Talvez assim eu aprenda alguma coisa a mais sobre o imbecil
E o sóbrio
Que eu sou.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
218
A imposição da opinião é arma que os ignorantes usam para se fazer ouvir.
Opinião não se joga na cara dos outros, primeiro pergunte se eles querem a sua.
Não existe só um ponto de vista e o seu, por acaso, nem sempre vai ser o certo
Ou o errado
Aliás quem é quem pra dizer o que é o certo e o errado?
Deveríamos viver em paz, não nos julgar por cada passo e atitude.
As ruas são infestadas de olhares críticos
E nós apenas os fomentamos, participamos, concordamos.
A sua vontade não se sobrepõe à necessidade da maioria
Tão pouco a sua comodidade.
Não é à toa que existe o "se beber não dirija" e o " não jogue lixo na rua"
Que ouvimos desde a barriga de nossas mães.
Eu sei que você vai falhar com isso, vai ignorar meus avisos
Confesso que eu também os ignoro às vezes
Mas não podemos fazer do deslize a constância.
O mal social é deixar com que a preguiça se sobreponha à urgência
Fazendo com que deixemos crianças morrerem de fome por trás de nossos óculos escuros.
Não adianta estudar e ter a cabeça no lugar
Ser uma pessoa feliz
E ter amigos.
A vida é bem maior que isso
Muito mais que seus amigos,
Precisam de você
Os desconhecidos.
Queremos viver filmes de amor, ação, comédia
Quando na verdade a realidade nos conduz à tragédia
Que é o amanhã dos que sentem medo.
Se imagine por um instante sem esse computador à sua frente
Sem esses sapatos nos pés
Sem esse almoço quentinho que te aguarda todo dia meio dia.
Sem sua televisão
Sem sua educação.
Grande parte das pessoas do mundo vivem assim
Desprovidos de esperança e teto
Vivendo somente da piedade dos outros e de sorte.
Por favor Deus, que eu não precise da minha sorte para viver.
Enquanto você cruza os braços para as desgraças da televisão
Bombas caem sobre o Iraque
Doenças se espalham na África
E somos saqueados por piratas nos mares de Brasília.
"Nossa, que trágico." - revolta verbal não é revolta.
Precisamos de uma solução
Precisamos sair às ruas
Precisamos exigir
Mas muito mais que isso
Precisamos fazer.
Porque hoje eu acordei um revolucionário
E o meu amanhã depende muito dele.
domingo, 11 de setembro de 2011
217
Todo mundo quer escrever sua própria história.
Ser o herói que mata o bandido no final
A mocinha no alto da torre esperando pelo príncipe
Viver de finais felizes.
Sabe minha querida, ninguém quer sair perdendo na vida
E a felicidade está cada vez mais escondida
Nos braços cruzados de quem recusa se mover.
Quem sente dor chora e reza baixinho
Torcendo para que o coração em desalinho
Não seja atropelado pelo não ter.
Ainda me assusto com a velocidade das coisas
Que vão acontecendo sem que possamos realmente vê-las
Ou perceber a poesia que carregam.
Queria que vivêssemos em uma época muito melhor que essa
Em que somos dominados pela pressa
E nossos olhos aos fracos e impossibilitados, sujos e surrados, renegam.
Ontem minha nêga, fui deitar impaciente
E me perdoe se te deixei carente
Mas só queria dormir
Acontece que socorri um acidentado
Com o corpo todo quebrado
E o atropelador do atropelado
Conseguiu fugir.
Mais tarde a polícia pegou o camarada
E o encheu de pancada
Tanta violência por nada
Parece que estava drogado, alcoolizado e só queria sair dalí.
Acontece todo dia em todo lugar toda hora
Queremos sair e chegar sem demora
Não temos paciência de viver.
Hoje eu acordei outro homem, neguinha
Vamos parar de historinha
E somente (definitivamente) nunca mais sofrer.
domingo, 24 de julho de 2011
216
Noite escura e um copo d'água
Quem talvez visse não diria que estou nos meus melhores momentos
Não acho que faça diferença à essa altura
Tão somente divago em pensamentos.
Várias cores flutuam na minha frente
Enquanto custuro por momentos de longe e de perto
No meio disso tudo está parado, pulsante, inerte
Meu peito aberto.
Os cheiros das várias noites que vivi por aí
A solidão que por vezes senti
A alegria de apenas sorrir
O remorso das vezes em que fugi
Pelas horas de minha vida passo em saltos
Choro baixo, rio alto
Minha vida em telas de cinema
Minha vida embaixo do colchão da minha cama.
Tudo que eu quero que todos saibam
E as coisas que só guardo pra mim
Girando em uma grande roda, bailam
Despertando o que tenho de bom e de ruim
Vai ver nem vivi tanto pra lembrar de tanta coisa
Vai ver eu exagero nas palavras só pra deixar tudo um pouco mais dramático
Faço de minhas invenções a minha casa
E das minhas hiperbólicas mágoas, um palco.
Eu enceno, canto, danço
E até digo que não
Mas sim
Eu quero também os aplausos.
terça-feira, 19 de julho de 2011
215
Eu sei
É um pouco cedo pra fazer meus últimos desejos
Mas andei escutando uns boatos
E pelo visto o mundo vai acabar em poucos dias.
Não guardei comida nenhuma.
Deixei tudo que está aí pro que vier depois
Seja lá o que o depois for
Se é que vai existir um depois.
Tomei provavelmente meu último banho
Vesti minha última cueca
E me pareceu extremamente ridículo escovar os dentes ou pentear o cabelo.
Já que o mundo ia acabar mesmo
Por que motivos me preocuparia com coisas tão pequenas?
Me peguei pensando o quão pouco eu amei.
Não, não é isso, você entendeu errado
O amor não se encerra somente entre duas pessoas
Mas entre todas as coisas
É triste perceber isso agora, somente no fim
Quando já não dá mais tempo de amar nada.
O calor do sol já não é o mesmo,
Não existem mais as brisas que batiam no meu rosto no início de cada verão
Quente.
Pra dizer a verdade, quentes mesmo eram os beijos que ganhei ao longo do caminho.
Talvez eu pudesse ter ganhado,( ou ganho, nunca entendi a diferença nem é agora que eu vou entender)
Um pouco mais deles.
Um pouco mais de abraços
Não ter sido só durante tanto tempo.
Aliás, perto do fim, nos encontramos todos solitários
Vejo alguns vagarem na rua sem ter pra onde ir
Outros desesperados correndo sem saber se vai dar tempo de chegar
É rapaz, foi-se o tempo em que a correria se devia ao dia-a-dia
E uma rotina que foi cada vez nos isolando mais, ao ponto de não conversarmos
Nunca conheci meus vizinhos.
Me sento à beira da praia fria e deserta, lembrando o quanto já fui feliz naquele lugar.
Se tivesse mais tempo com certeza iria mais à praia.
As mulheres desfilando seus corpos lindos à beira do mar que ia e voltava
Do mesmo modo como faz agora, explêndido, forte, imprevisível....
Imprevisível.
Sabe, tem certas coisas que agora não fazem mais sentido nenhum.
Todas as guerras que já aconteceram agora não são coisa alguma
Toda a fome que o mundo já passou será esquecida
A dor, a perda, o sentimento de quem sofreu com tudo isso
Já não valem mais nada.
Chegou o fim.
Agora acaba.
Queria ter dito as coisas que sempre quis dizer
Mas a falta de perspectiva me tornou mudo.
214
Eu não sou como você.
Não gosto da França
Mal falo inglês
Tenho completa certeza de que o meu lugar é aqui.
Prefiro o dia
Não tenho dinheiro pra fazer o que eu quiser na hora que eu quiser.
Sou um classe média assumido
Não preciso das grifes que estampam os outdoors pra ser feliz
Na verdade
Não preciso de quase nada
Só de uma meia dúzia de cordas
Que vai tudo bem.
Não menosprezo da capacidade das outras pessoas
Julgo-as completamente iguais a mim
Não acho que eu seja a pessoa mais importante da vida dos outros
E talvez nem gostaria que fosse
Porque eu sei que o mundo não gira à minha volta
O mundo gira apesar de mim
E de você.
Apesar de nós o mundo vai girar
As coisas vão acontecer
E se você continuar nessa sua saga até o topo sem olhar pros lados
Pode ser que falte
Alguém pra te segurar a mão quando você tropeçar.
Nem sempre podemos confiar nos cabos de segurança
Nem sempre as nossas habilidades, por melhores que elas sejam,
Nos levaram aaté onde queremos chegar sozinhos.
Não.
Existe um motivo para o mundo ter mais de seis bilhões de pessoas
Porque se fosse pra você viver sozinha, minha querida amiguinha,
No mundo só existiria você.
Ah, desculpe,
Você e a sua capacidade superior de compreender todas as coisas e ser muito melhor em tudo
Do que todo mundo.
Não tropece.
Porque se tropeçar, não estarei mais lá como antes estava
Não dessa vez.
Mude, ou outros me acompanharam
Aliás
Não sou o primeiro.
Só dá uma olhada pros lados pra conferir....
sábado, 9 de julho de 2011
213
Somos todos imortais.
Todos que nos cercam são imortais
Todos que queremos que sejam imortais, o são.
Ninguém vai morrer, não enquanto gostarmos deles
Só morrerão quando nos chatearem
E reviverão ao menor remorso.
Ninguém nunca vai sorrir pela última vez
Sempre teremos mais um novo motivo para gargalhar,
Para desfrutar do charme de uma moça bonita meio envergonhada,
Para beber aquele vinho daquela boa safra,
Para brindar com os amigos em mais uma madrugada.
Ninguém nunca vai dar o último boa noite
Porque depois da noite sempre se seguirão os dias
E as noites
E os boa-noites que se dão àqueles que se julgam queridos
Preciosos
Importantes.
Não há de acontecer um último encontro
Porque sempre nos veremos em todos os logo mais que se seguem na vida
Porque essa seguirá com ou sem destino
Dependendo da vontade de quem guia
Só pelo prazer de guiar.
Sempre se farão eternos
Os nossos castelos de areia
E nunca virão as marés para derrubá-los.
Definitivamente não existirão fins definitivos
Apenas soluções momentâneas
E as coisas naturalmente se acertarão.
Quem sabe existirá um contra-ponto
Uma régua para medir o torto
E as pessoas não discordarão sobre pontos de vista
Que agora não mais divergem
Mas se completam.
E sobre que fim se dobrariam nossas lembranças mais remotas?
Para que lado apontariam nossos destinos?
Não sei
Bem como
Você também não sabe
E não caberá a ninguém saber.
Esse fim não existe, não existirá
Não existiu.
Não aqui, não agora.
Porque quem nós escolhemos que viva pra sempre
Simplesmente o faz.
Porque essas pessoas,
Assim como nós,
São imortais.
terça-feira, 31 de maio de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 12)
Apesar de todo o sol que fazia lá fora, apesar da brisa que batia no pasto baixo dos longos campos daquela fazenda, um pequeno garoto cerrava os punhos em ódio. Uma lágrima caía. Do outro lado da casa, por detrás de uma porta trancada, ele já estava acostumado a ouvir os gemidos de dor de sua irmã. "Assim que eu puder..." - pensava - "...tudo isso terá um fim." E novamente saía de lá a menina com 0s olhos esbugalhados e a garganta seca de tanto gritar. Corria para os braços do irmão e somente lá ficava em paz. Tinha sido assim desde que sua mãe morrera de tuberculose fazia dois invernos. Seu pai havia ficado maluco ou simplesmente tinha acabado a última barreira para que pudesse expor suas perversões mais doentias.
O garoto observava os lindos olhos azuis da sua irmã e simplesmente não aceitava a realidade. Eles eram tão felizes a pouco tempo atrás... Sua irmã tinha o sorriso mais belo do mundo. Tudo que ele ouvia agora eram gritos e risadas histéricas. Todos na casa haviam perdido o prumo e ele resolveria isso.
Em uma noite escura, acordou silenciosamente a menina rescém-açoitada. Ela sem muito entender o que acontecia só pode obedecer quando seu irmão mais velho lhe pediu para que arrumasse as coisas dos dois. "Logo faremos uma viagem para nunca mais voltar aqui...". o garoto sabia onde o pai guardava a pistola. O garoto sabia como usar a arma. O garoto colocaria um fim naquilo tudo.
Sua irmã apenas acompanhou com os olhos arregalados o movimento felino do irmão por dentro do quarto do pai. Ela já havia posto os sacos de pano com as roupas e um pouco de comida em lata da cozinha à porta quando avistou a arma reluzindo a luz da lua na mão do irmão. A menina arregalou os olhos e deu um grito que foi abafado pelo disparo certeiro da pistola.
Ela jurou nunca encostar em armas.
Em estado de choque foi carregada casa à fora pelo irmão que a segurava por um braço e no outro levava os mantimentos.
Para se manterem vivos naqueles tempos difíceis, o garoto praticava pequenos delitos nas estradas pouco policiadas da região. O tempo todo observado pela irmã que cada vez se aprofundava mais em sua própria loucura. Até que em um desses delitos, seu destino mudou...
- Parem a carruagem se não atiro! - tentou gritar com a voz mais grossa que seus 18 anos permitiam...
- Em nome de que eu deveria parar? - retrucou o cocheiro.
- Em nome da bala que mora em meu revólver.
Nesse momento uma gargalhada pode ser ouvida de dentro da carruagem. A porta se abriu e de lá saltou um homem gordo, bonachão, cheio de si, com roupas um tanto espalhafatosas e ostentava bastante ouro. O garoto arregalou os olhos. Nunca tinha visto tamanha riquesa.
- Eu acho que gostei de você garoto, você tem fibra, pode me ser bastante útil... Qual é o seu nome?
- Jo..Jo...José, senhor...
- Ahá! Que belo nome para um magricela morto de fome. Eu me chamo Signore Migiorinni. - e abriu um largo sorriso...
quinta-feira, 19 de maio de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 11)
Suzana disse que tinha se desesperado ao ficar uma semana sem notícias após minha partida. Então, vivia a espreitar as conversas do pai a procura de qualquer informação que indicasse o que havia acontecido comigo. Confessou que chorava temendo pelo pior. Até que um senhor com um tapa olho lhe chamou a atenção. Rapidamente se lembou das histórias que eu lhe contara sobre a minha vida e as pessoas que eu havia conhecido. Ela abriu a porta da casa da família Migiorinni para o estranho com a permissão de seu pai e o levou até o escritório onde Signore estava esperando.
Ela sabia que finalmente ouviria alguma coisa. Caballero também estava na sala e os dois aparentavam um certo orgulho. Se abaixou junto ao batente da porta fechada, procurando uma melhor posição para escutar a conversa por detrás da porta...
- Então senhor Dick Moneiur, sei que nos deve e que está aqui para chorar misericóridia, não é mesmo? Veio aqui para que perdoássemos suas dívidas e o deixássemos viver em paz . Veio para rastejar, implorar, chorar... Pois bem, me convença. Eu tenho certo apreço por seres que se humilham...
- Senhor Migiorini... O senhor bem sabe que sou um trabalhador honesto e que me esforço todos os dias para conseguir o pão de meus filhos...
- Vamos acabar logo com isso, chefe.... - interpelou Caballero.
E Suzana ouviu o som de uma pistola sendo engatilhada.
- NÃO! NÃO FAÇA ISSO COM ELA, NÃO AGORA, EU FAÇO QUALQUER COISA.
Eu não sabia mas, com essa frase, Dick mudaria novamente meu destino.
Botidas muito fortes foram dadas na porta da casa de Migiorinni. Suzana pensou consigo mesma se seria mais um convidado para mais uma das "reuniões a negócios" de seu pai. Entretando, quando correu para atender a porta, viu um rosto familiar.
Sarah, completamente machucada, com as roupas rasgadas e não tão bela assim, bufava à entrada. Com um pequeno passo para o lado, Suzana se sentiu ignorar ao ver Sarah disparar casa à dentro rumo ao escritório onde seu irmão, Migiorinni e Dick se encontravam. Agora sim ela sabia, o assunto era eu. Juan Gonzales, o novo cherifinho que achava que mandava na região.
Novamente abaixada à porta Suzana escutou os gritos tresloucados de Sarah.
- IMBECIL! COMO FOI DEIXAR AQUELES EXPLOSIVOS NA CAVERNA?!
- Primeiro cale a boca, Sarah. Agora me diga, você completou seu objetivo? A julgar pelo seu estado eu diria que não...
Seguiram-se muitos gritos após isso e Suzana só pode identificar a voz de seu pai algum tempo depois quando as coisas se acalmaram um pouco...
- Então temos uma serventia para você Dick... Não quer ter sua mulher de volta? Não quer ter suas dívidas perdoadas? Dê-me Juan Gonzales.
terça-feira, 10 de maio de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 10)
Água. Muita água. Getúlio veio ao mundo assim, acho que já disse isso. Como chovia naquele dia e, a despeito de tudo aquilo que caía do céu, eu estava lá, soluçando de ansiosidade. Meu pai permanecia agachado junto à égua, Polaca, mãe de Getúlio, de braços estendidos e pronto para acudir o potro que estava para nascer. Era verão, a chuva quase evaporava ao tocar o chão. Ventava forte e eu desconfiava que o celeiro aguentasse. Nossa, como poderíamos ser mais felizes em um mundo diferente. Em um cenário no qual meus pais ainda estivessem vivos. Em um cenário no qual meu pai não fosse um viciado em jogo e apostasse a fazenda à troco de nada. Nada era tudo que eu tinha até o momento que Getúlio saltou por entre as chamas e afugentou aquele que viria a ser Caballero. E só então percebi. Meu pai havia perdido a fazenda para Migiorinni. Migiorinni mandara Caballero e então minha vida foi desgraçada. Após tanto tempo, Caballero conseguiu completar sua missão. Eu estava caindo de olhos fechados. Era um fim trágico. Queria que acabasse logo. Ou não...
Água. Muita água. Água por todos os lados...
Mal sentia minhas pernas ou braços, mas sabia que não havia acabado alí. Senti alguma coisa puxar minhas costas, rocei um pouco o rosto no barro e desmaiei novamente.
Acordei deitado em uma cama fitando o teto que era bastante parecido com o da cabana de Dick no que dizia respeito à sujeira. Eu provavelmente estava nu e enfaixado. Antes que pudesse perceber qualquer coisa, a dor me fez dormir.
Dessa vez, um sol intenso invadiu uma pequena janela que ficava do lado do meu leito me obrigando a abrir os olhos. Ainda sentia dores, mas já acumulava energias para me sentar na cama e perceber tudo à minha volta. Eu estava em uma cabana pequena, de apenas um cômodo e toda feita de madeira. Estava surpreendentemente aconxegante, bem arrumada e eu diria até cheirosa. Tinha uma pequena cabeceira do lado da minha cama onde se encontravam minhas roupas que vesti com certa dificuldade. Claramente alguém estava cuidando de mim todo esse tempo mas quem seria? Eu precisava de respostas e precisava saber também onde estava Getúlio.
Eu terminava de afivelar minha bota quando uma doce e familiar voz me acalentou os ouvidos:
- Graças a Deus você acordou !!!
Suzana se atirou aos meus braços (talvez cutucando uma costela quebrada e provocando dor intensa) e começou a chorar. Eu também (pelas duas razões).
- Pensei que nunca mais o veria...
Trocamos beijos, carícias e eu me sentia renovado. Suzana tinha esse poder sobre mim. Sempre fui um troglodita para as coisas do Amor e não sabia direito como interpretar o que sentia, mas naquele momento eu era feliz, não fosse por uma coisa:
- Por favor, me diga que você sabe onde está Getúlio.
- Aquele seu cavalo fedorento é um teimoso, não sai da porta da casa desde quando te coloquei na cama.
Sorri. Fui correndo na medida do possível para a porta da cabana e lá estava ele. Evidentemente tão baleado quanto eu, mas lá estava. Estávamos. E de pé. Trocamos um olhar confidente como quem diz ao outro "eu sabia que íamos sair dessa juntos". Com Getúlio nada era impossível. Suzana me contou mais tarde que Getúlio, depois de me puxar para fora da água do rio que corria no meio do desfiladeiro e me trazer para a beira, também desmaiou. Entretanto, diferente de mim, ele acordou no dia seguinte e seguiu os rastros de comida que Suzana deixara para ele. Ela também sabia que Getúlio era um cavalo inteligente. Ela me dissera também que eu estava dormindo por uma semana inteira e que ela vinha regularmente à cabana para cuidar de mim e de Getúlio.
- Mas como você sabia que estaríamos aqui?
Nessa hora ela fechou o semblante, abaixou a cabeça e começou a falar...
-Eu estava lá escondida quando meu pai conversava com Caballero e um homem que usava um tapa olho...
quarta-feira, 4 de maio de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 9)
Sonhei com o sorriso da minha mãe. A algum tempo isso já vinha acontecendo, na verdade, começaram na noite seguinte à minha fuga da caverna. Talvez a minha última experiência de quase morte tenha feito com que eu pensasse um pouco mais na vida, na minha infância, na parte nobre do meu passado. Sonhei também com Suzana. A filha de Migiorinni me causava saudades e eu gostava disso. Queria que tudo acabasse logo para que pudéssemos ficar juntos. Com certeza ficar com Suzana seria o prêmio final da minha jornada, seria o meu final feliz. Eu a tomaria nos braços e a daria aquele beijo dos mocinhos do qual já te falei antes. Ah...como eu queria...
BLAM!
Arregalei os olhos com o barulho. Um subto que invadiu toda cabana como se fosse um trovão balançando as paredes e fazendo cair pedaços do teto no meu quarto. Senti um ódio infinito por ter meu sonho interrompido logo antes que eu pudesse deitar com Suzana. É sempre assim, sempre acaba na melhor parte. Reparei que ainda era madrugada e, um pouco assustado, corri para a porta da entrada da cabana esperando encontrar um motivo.
Apenas a porta aberta. Ventava bastante do lado de fora, logo, julguei que fosse o vento que tivesse aberto a porta com aquela força, apesar do que tinham umas marcas estranhas na porta que antes eu achei não ter visto. Enfim, talvez loucura minha. Então, fui ver Dick em seu quarto, para quem sabe tranquilizá-lo se também tivesse ouvido o barulho. Sempre soube que ele era um cara meio assustado e, ao menor ruído, puxava sua arma. Dick odiava ser acordado de noite. Ri em minha cabeça imaginando a situação. A porta batendo e Dick puxando automaticamente a pistola de baixo do travesseiro e se encolhendo todo em um canto do quarto. Sorri, Dick era um cara engraçado.
Mas não estava em seu quarto.
Eu olhava do lado de fora a sua cama vazia. Só a lua entrando pela janela iluminava o quarto e eu achei muito estranha também a arrumação de sua cama. Parecia que ninguém jamais havia deitado alí, não pelo menos nos últimos trinta anos. Desconfiei.
- Bom, talvez esteja dormindo no chão do quarto mesmo, tenho que entrar pra ver.
E então caí na armadilha.
Ao entrar pela porta, uma garrafa desceu rapidamente na tentativa de me golpear as costas. Percebi e girei o corpo assustado para me esquivar. Tropecei por dentro do quarto e caí na cama esfarelando seus restos. Agora eu estava caído no chão olhando para meu agressor, que eu não conhecia.
- Ninguém assaltaria essa casa - pensei - só existe um motivo para esse homem estar aqui. Migiorinni.
Sim, eles sabiam que eu estava vivo e mais, sabiam onde eu estava escondido. De algum modo, meu plano falhara antes que eu pudesse começar a realiza-lo. Que sorte a minha.
O homem golpeou novamente, só que ele era muito grande e desajeitado, de modos que eu era mais ágil e esquivava com certa facilidade. Ele se desequilibrou novamente e eu pude desviar em direção a janela que pulei com destreza felina. Então um outro pensamento me povoou a mente, onde estava Dick? Claramente ele nunca havia estado em seu quarto e, se estivesse na casa, ouviria o barulho da briga e correria em meu auxílio... eu acho.
Aterrizei atrás da cabana e desesperado fui ao encontro de Getúlio, Dick tinha que estar por perto, não era possível. Entretanto, minha onda de sorte continuou quando dei a volta na cabana e cheguei a frente. O homem já estava lá me esperando e não estava só. Tinham pelo menos mais uns cinco homens com ele e liderando todos estava Caballero.
Ao lado de Getúlio, avistei todos puxarem suas armas. Seria um fuzilamento e mais uma vez vislumbrei meu fim. Getúlio não. Com um coice rápido meu fiel cavalo chutou o balde com água no qual bebia para cima do bando que perdeu a mira e recuou por tempo o suficiente para eu conseguir montá-lo e sair em disparada tomando apenas dois tiros de raspão no braço e na perna.
Getúlio fechou o semblante e correu como o vento. Na verdade, corria muito mais do que o vento, corria como um cavalo com quatro patas esquerdas. Corríamos por nossas vidas, com as armas de Caballero e seus homens a nos mirar.
Bom, acho que finalmente chegamos naquele ponto que não é o início, mas também não é o fim eu acho, é o agora. E agora, eu estou caindo da ponte, agora Caballero me observa da beira do abismo que a ponte destruída atravessava, agora penso em Suzana, agora queria saber porque Dick me abandonara, agora já não importa mais. Fechei os olhos. Deixa cair. Tomara que Getúlio não sofra muito.
terça-feira, 3 de maio de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 8)
Quando pequeno, eu gostava das historinhas sem reviravoltas. Aquelas que seguem lineares até o fim com o vilão sendo mau e depois morrendo, a mocinha sempre bonzinha e o herói que a tomava nos braços em um beijo arrebatador no final. Era disso que eu gostava, nada de surpresas trágicas, nada de novo, nada de real. Entretanto, as constantes em toda minha vida foram exatamente as variáveis. É engraçado como tudo é tão irônico, não é mesmo?
Só faltava Dick Sem Olho babar. Ele tagarelava bastante sobre o quanto aquelas terras de Seu Valdim tinham ficado sem graça após minha partida, que eu era seu único amigo e da saudade que eu deixara em todos, inclusive no velho dono daquelas bandas. Eu de alguma forma me sentia em casa e, quanto mais papeávamos sobre aqueles tempos, mais a hora avançava e a tarde caía. Finalmente chegamos à Marluce:
- E como anda a filha do velho fazendeiro?
- Depois que ele descobriu que o verdadeiro pai da criança não era você, tive que me casar com ela.
- AHUHUAHUAHUAHUAHU - caí em uma gargalhada como a muito tempo não fazia, era bom poder conversar com um amigo. - Então, onde está sua esposa Dick?
- A me esperar Juan...a me esperar...
Os últimos galhos secos da fogueira crepitaram e dormimos à luz das estrelas. Sempre é bom ter amigos por perto.
Na manhã seguinte acordamos e Dick me fez uma proposta. Passaria o resto dos meus dias de preparação em uma cabana perto da cidade que ele acabara de adquirir. Na verdade, era esse o principal motivo de sua ida à região. Eu, que nunca fui de recusar um bom pedaço de teto, aceitei na hora, aquela cabana poderia servir de base para que eu pudesse completar meu plano. Sim, com a ajuda de Dick Sem Olho (provavelmente o gatilho mais rápido que eu já vi na minha vida) eu conseguiria derrubar Migiorinni e seu bando. Levantamos acampamento e partimos.
Demoramos quase um dia inteiro para chegar na cabana. O cavalo de Dick era um peso morto e mais rápido seria se o próprio caolho carregasse seu cavalo nas costas. Como tinha passado o dia inteiro andando, decidi trocar as ferraduras de Getúlio quando enfim, chegamos à cabana. Era um tanto assustadora se vista da fachada, fastasmagórica até, eu diria. Parecia que não era varrida à séculos, que ratos habitavam os assoalhos e que o telhado poderia desabar a qualquer sopro mais forte do vento. No entanto, não reclamei. Tinha passado dias sob o sol e noites inteiras com muito frio, pelo menos aquelas paredes me ajudariam.
Qual não foi a minha surpresa quando cheguei ao interior. Havíamos deixado os cavalos à porta e entramos para ver o estado daquilo que nem mais podíamos chamar de cabana.
- Suponho que não tenha pagado muito por isso aqui. - impliquei.
- Já me arrependi do negócio faz tempo... - lamentou Dick.
Demos mais algumas risadas. Apesar do estado deplorável de tudo alí, ainda haviam nos dois quartos uns restos de camas nos quais podíamos deitar. Dei boa noite a Dick, verifiquei Getúlio do lado de fora decidindo que só colocaria ferraduras novas quando fossemos à cidade, somente um ferreiro muito experiente poderia confeccionar ferraduras para Getúlio devido a sua... particularidade. Deitei para dormir e alguns momentos depois acordei com a parte da história que talvez lhe seja mais familiar...
quinta-feira, 28 de abril de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 7)
Eu sempre fui bastante observador, e, apesar de Sarah estar me distraindo muito, vi a lâmpada que pendia no teto sendo a única fonte de iluminação da sala. Era alí que morava minha chance. Tateei. Encontrei minha arma e antes que eles pudessem fazer qualquer coisa, os assustei me dobrando ao meio e atirando de costas na lâmpada. Você pode até achar que eu sou mentiroso, na verdade, nem eu mesmo acreditei muito no sucesso do meu plano estapafúrdeo, mas deu certo. O vidro se estilhaçou e a sala submergiu em um escuro assustador. Me joguei ao chão quando ouvi tiros. As balas da arma do homem ricocheteavam na parede da caverna enquanto eu me arrastava pra onde meus sentidos indicavam a saída. Sarah gritava. Aliás, gritava estranhamente, como se a estivessem matando. Como devia ter problemas aquela mulher.
Vi um ponto mais claro que julguei ser a saída. Eu provavelmente já tinha passado deles que a essa hora achei estarem me procurando como loucos naquela sala escura. Me senti mais tranquilo. Alí tinha que ser a saída, eu tinha me safado vivo... Ou não.
Uma explosão ocorreu nos fundos da caverna e rapidamente uma onda gigante de água foi inundando tudo enquanto as paredes ruíam. Corri desesperadamente para a luz. As pedras que caíam do teto começaram a fechar a minha saída. Se eu demorasse muito estaria perdido, seria o fim.
Não consigo descrever a minha alegria em sentir o sol beijar meu rosto enquanto estava estirado ao chão do lado de fora da caverna. Eu havia me jogado como em um mergulho cego pra salvar a mim mesmo. Estava vivo. Estava rindo. Eu sobrevivi. Rapidamente pensei no que podia ter causado a explosão na caverna. A água era evidentemente da infiltração que eu tinha visto no teto, mas quem fez aquilo? E Sarah? Será que a problemática Sarah havia morrido alí?
Senti uma bufada em meu rosto. Uma sombra tapava o sol da manhã e uma gota de baba caiu em minha testa. Sorri.
Eu sempre soube que não adiantava amarrar Getúlio. Aquele cavalo tinha a incrível habilidade de se safar dos mais tensos laços do mundo. Ele com certeza se utilizou disso e, quando viu que eu era carregado para longe daquela situação, me seguiu. Foi me buscar. Porque é isso que um bom cavalo com quatro patas esquerdas faz. Nunca abandona seu dono.
Vi um ponto mais claro que julguei ser a saída. Eu provavelmente já tinha passado deles que a essa hora achei estarem me procurando como loucos naquela sala escura. Me senti mais tranquilo. Alí tinha que ser a saída, eu tinha me safado vivo... Ou não.
Uma explosão ocorreu nos fundos da caverna e rapidamente uma onda gigante de água foi inundando tudo enquanto as paredes ruíam. Corri desesperadamente para a luz. As pedras que caíam do teto começaram a fechar a minha saída. Se eu demorasse muito estaria perdido, seria o fim.
Não consigo descrever a minha alegria em sentir o sol beijar meu rosto enquanto estava estirado ao chão do lado de fora da caverna. Eu havia me jogado como em um mergulho cego pra salvar a mim mesmo. Estava vivo. Estava rindo. Eu sobrevivi. Rapidamente pensei no que podia ter causado a explosão na caverna. A água era evidentemente da infiltração que eu tinha visto no teto, mas quem fez aquilo? E Sarah? Será que a problemática Sarah havia morrido alí?
Senti uma bufada em meu rosto. Uma sombra tapava o sol da manhã e uma gota de baba caiu em minha testa. Sorri.
Eu sempre soube que não adiantava amarrar Getúlio. Aquele cavalo tinha a incrível habilidade de se safar dos mais tensos laços do mundo. Ele com certeza se utilizou disso e, quando viu que eu era carregado para longe daquela situação, me seguiu. Foi me buscar. Porque é isso que um bom cavalo com quatro patas esquerdas faz. Nunca abandona seu dono.
Agora eu seria perseguido infinitamente. Se Migiorinni e Caballero soubessem que eu estava vivo, mandariam simplesmente todo seu bando atrás de mim e me esmagariam como a uma mosca. Mas eles realmente saberiam que eu estava vivo? Só se eu aparecesse. Caso contrário, considerariam que morri juntamente com Sarah no incidente da caverna quando fossem voltar para averiguar a situação e me riscariam da sua lista de problemas. Eu seria um fantasma. Eu os perseguiria sem que soubessem.
Cutuquei o lado de Getúlio com as esporas ainda molhadas. Viramos para a relva da montanha e eu decidi elaborar um plano.
Fiquei duas semanas escondido na relva. De vez em quando negociava alguma comida com um viajante qualquer sem me indentificar. Como nunca fui bom administrador, meu dinheiro acabou nos primeiros três dias, então tive que negociar minha pistola. E foi com muita dor no coração que o fiz. Na verdade, você mataria se soubesse a pouca quantidade de dinheiro pela qual vendi minha querida arma. Eu poderia pegar outra mais tarde, naquela hora eu apenas precisava permanecer incógnito.
Até que em uma tarde, enquanto já terminava os últimos detalhes do meu plano, uma carroça veio se aproximando ao longe. Enxerguei a possibilidade de negócio e pedi gentilmente para que parassem e ajudassem um viajante com necessidades. A carroça parou, o dirigente arreganhou os dentes e meu destino mudou pela terceira vez.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 6)
Eu devia ser mais inteligente, de verdade. Entretanto, esperei a noite ir caindo porque pensei que no escuro teria mais chances. Eles acenderam uma fogueira e, pelo visto, iriam passar a noite alí para só na manhã seguinte ir prestar contas a seu chefe. Eles bebiam, gargalhavam e exibiam dentes meio podres que se juntavam a gordura do porco que haviam assado. A mulher continuava amarrada à carroça um pouco afastada deles e quando os primeiros começaram a cair no sono, resolvi me aproximar...
Fui me arrastando pela relva baixa tentando fazer o mínimo de barulho possível e rezando para que o barulho do fogo que queimava os poucos galhos de madeira da fogueira fosse mais alto que o meu. Aos poucos, e com muita paciência, me aproximei da carroça sem chamar nenhuma atenção. A mulher estava sonolenta e não tinha nenhum sinal claro de maus tratos, ela estava muito bem cuidada na verdade. Aliás, ela era bem mais nova do que aparentava de longe e o cabelo branco era uma peruca. Olhando agora ela nem presa est...
Com um movimento muito rápido e inesperado ela algemou meu pulso na roda da carroça e fez um sinal. Os outros homens acordaram e sorriram. Eu tinha caído numa armadilha, parabéns para mim e para minha estúpida coragem. Eu devia ter desconfiado que após prender José Caballero eu havia virado o inimigo número um de Migiorinni. Nenhum dos outros cherifes tinha ido tão longe contra ele. Talvez estivesse furioso. Talvez eu nem fosse sobreviver. Pensei em Suzana e lembrei de Getúlio.
Achei que Getúlio ainda estava amarrado àquela árvore enquanto nesse momento eu estava sendo levado para alguma espécie de esconderijo ou algo assim. Os sete capangas e a mulher me levavam vendado, logo, eu não sabia exatamente onde estava até que me tirassem o capuz.
Eu estava sentado e amarrado por uma corda à cadeira dentro de uma caverna em algum lugar nas montanhas. É meio que um clichê isso por aqui, os caras maus sempre tem esconderijos nas montanhas. Tinha uma goteira no teto caverna que era denunciada pelo barulho das gotas que caíam no chão. Um murro na boca do estômago e então pude ver novamente.
Caballero estava a minha frente, junto com a mulher que agora revelava longas curvas e cabelos negros. Se apresentou como Sarah Caballero e disse que seria a última mulher que eu veria na minha vida. José sorriu.
- Então eu deixarei que a minha irmã cuide desse assunto. Um cherifezinho mequetrefe como você não merecia tanto da minha atenção. Já gastei tempo de mais da minha vida preso lá e depois planejando sua morte. Adeus.
Deu as costas e saiu do lugar deixando apenas dois capangas e Sarah que agora exibia o mais sádico dos olhares. Acho que ela estava sentindo prazer nas torturas que agora imaginava. Senti um certo temor dos capangas também. Meu revólver estava em cima de uma mesa à minha direita e eu só pensava nele.
Sarah se aproximou de vagar. Meu Deus, o que ela tinha de louca ela tinha de bela. Talvez seja até a mulher mais bonita dessa história mas naquela hora era minha sentença de morte que caminhava e agora tinha uma risada medonha e incontida enquanto apontava uma faca para o meu peito. Eu estava tenso, suado e amedrontado mas é justamente aqui que eu viro um herói.
Eu era um rato acuado em um canto. Não era o mais forte, estava preso, em disvantagem numérica e assustado. Mesmo que eu não quisesse eu faria alguma coisa.
No momento em que ela esticou o braço em minha direção para a punhalada final, tombei minha cadeira bamba. Fiquei até impressionado com a minha sorte quando a cadeira caiu com o encosto em cima de uma pedra partindo-o em pedaços. Sarah, com o impulso que dera, se desequilibrou e caiu por cima de um dos homens que vigiava a situação. O outro se assustou e antes que sacasse a sua arma eu rolei em direção aos seus pé e o derrubei. me levantei antes dele e, porque estava de punhos atados às costas, chutei sua cabeça desejando muito que desmaiasse. Sarah e o outro homem já haviam se levantado quando eu fiquei de costas à mesa do meu revólver.
- Parado aí, seu filho de uma...
E então o homem engatilhou a arma dele. Estranhamente Sarah não tinha uma arma e por isso só brandia sua faca. Estava toda descabelada e suada. Exuberante e nervosa. Nossa... Deus realmente se empenha em fazer mulheres assim, mas nessa não tinha gastado muito tempo em sua fisionomia e aparentemente nada em seu caráter. Confesso que por alguns minutos esqueci Suzana.
Minha garganta arranhava seca e então vagarosamente fui tentando tatear a coronha de meu revolver que deveria estar em cima daquela mesa...
- Tomara que não percebam...- pensei.
Fui me arrastando pela relva baixa tentando fazer o mínimo de barulho possível e rezando para que o barulho do fogo que queimava os poucos galhos de madeira da fogueira fosse mais alto que o meu. Aos poucos, e com muita paciência, me aproximei da carroça sem chamar nenhuma atenção. A mulher estava sonolenta e não tinha nenhum sinal claro de maus tratos, ela estava muito bem cuidada na verdade. Aliás, ela era bem mais nova do que aparentava de longe e o cabelo branco era uma peruca. Olhando agora ela nem presa est...
Com um movimento muito rápido e inesperado ela algemou meu pulso na roda da carroça e fez um sinal. Os outros homens acordaram e sorriram. Eu tinha caído numa armadilha, parabéns para mim e para minha estúpida coragem. Eu devia ter desconfiado que após prender José Caballero eu havia virado o inimigo número um de Migiorinni. Nenhum dos outros cherifes tinha ido tão longe contra ele. Talvez estivesse furioso. Talvez eu nem fosse sobreviver. Pensei em Suzana e lembrei de Getúlio.
Achei que Getúlio ainda estava amarrado àquela árvore enquanto nesse momento eu estava sendo levado para alguma espécie de esconderijo ou algo assim. Os sete capangas e a mulher me levavam vendado, logo, eu não sabia exatamente onde estava até que me tirassem o capuz.
Eu estava sentado e amarrado por uma corda à cadeira dentro de uma caverna em algum lugar nas montanhas. É meio que um clichê isso por aqui, os caras maus sempre tem esconderijos nas montanhas. Tinha uma goteira no teto caverna que era denunciada pelo barulho das gotas que caíam no chão. Um murro na boca do estômago e então pude ver novamente.
Caballero estava a minha frente, junto com a mulher que agora revelava longas curvas e cabelos negros. Se apresentou como Sarah Caballero e disse que seria a última mulher que eu veria na minha vida. José sorriu.
- Então eu deixarei que a minha irmã cuide desse assunto. Um cherifezinho mequetrefe como você não merecia tanto da minha atenção. Já gastei tempo de mais da minha vida preso lá e depois planejando sua morte. Adeus.
Deu as costas e saiu do lugar deixando apenas dois capangas e Sarah que agora exibia o mais sádico dos olhares. Acho que ela estava sentindo prazer nas torturas que agora imaginava. Senti um certo temor dos capangas também. Meu revólver estava em cima de uma mesa à minha direita e eu só pensava nele.
Sarah se aproximou de vagar. Meu Deus, o que ela tinha de louca ela tinha de bela. Talvez seja até a mulher mais bonita dessa história mas naquela hora era minha sentença de morte que caminhava e agora tinha uma risada medonha e incontida enquanto apontava uma faca para o meu peito. Eu estava tenso, suado e amedrontado mas é justamente aqui que eu viro um herói.
Eu era um rato acuado em um canto. Não era o mais forte, estava preso, em disvantagem numérica e assustado. Mesmo que eu não quisesse eu faria alguma coisa.
No momento em que ela esticou o braço em minha direção para a punhalada final, tombei minha cadeira bamba. Fiquei até impressionado com a minha sorte quando a cadeira caiu com o encosto em cima de uma pedra partindo-o em pedaços. Sarah, com o impulso que dera, se desequilibrou e caiu por cima de um dos homens que vigiava a situação. O outro se assustou e antes que sacasse a sua arma eu rolei em direção aos seus pé e o derrubei. me levantei antes dele e, porque estava de punhos atados às costas, chutei sua cabeça desejando muito que desmaiasse. Sarah e o outro homem já haviam se levantado quando eu fiquei de costas à mesa do meu revólver.
- Parado aí, seu filho de uma...
E então o homem engatilhou a arma dele. Estranhamente Sarah não tinha uma arma e por isso só brandia sua faca. Estava toda descabelada e suada. Exuberante e nervosa. Nossa... Deus realmente se empenha em fazer mulheres assim, mas nessa não tinha gastado muito tempo em sua fisionomia e aparentemente nada em seu caráter. Confesso que por alguns minutos esqueci Suzana.
Minha garganta arranhava seca e então vagarosamente fui tentando tatear a coronha de meu revolver que deveria estar em cima daquela mesa...
- Tomara que não percebam...- pensei.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 5)
É engraçada a velocidade com que as coisas se espalham por aqui. Todos os poucos habitantes do lugar já comentavam sobre a possível vingança de José e a maioria deles não me dava mais duas semanas de vida. Confesso que eu não ligava muito para o que eles diziam e me coloquei a investigar a situação.
Assim que entrei na delegacia pela manhã, o cenário me lembrou com quem eu estava lidando. Três dos meus homens estavam mortos com facadas no pescoço e no peito. O quarto homem sob meu comando estava de folga na noite mas quando soube da notícia juntou suas coisas e saiu correndo. Com certeza o bando de Migiorinni tinha feito o trabalho para libertar Caballero e agora viriam atrás de mim. Talvez eu ainda fosse a única coisa que tentasse impedir o seu domínio na região. Naquela madrugada José foi solto de novo e a população estava em pânico. Eu? Bem, eu estava sozinho. Quer dizer, sozinho não, eu tinha uma boa pistola, um gatilho rápido e Getúlio ao meu lado.
Fui ver Suzana. Era ela que me mantia fora da insanidade. Nos últimos tempos havíamos ficado bem próximos e com ela já podia dividir minhas intimidades. Eu disse que sentia medo, que não sabia se voltaria e que se voltasse a queria comigo. Em troca ela me fez arregalar os olhos, soluçar e saltar da cadeira. Eu sabia que seu nome era Suzana mas ela me revelou um terrível verdade. Seu sobrenome era Migiorinni.
Eu devia ter percebido. Naquela tarde em que Caballero invadiu o bar todos ficaram espantados mas Suzana ficou diferente. O seu olhar denunciava familiaridade com o mais importante capanga de seu pai. Durante nossas conversas ela sempre desviava certos assuntos como sua família ou omitia nomes. Eu julgava que tal atitude era pra se proteger, não lembrar um passado deixado pra trás, não reviver situações constrangedoras e esse fato eu entendia, me identificava até. Não, não era isso. Suzana havia escondido porque sabia que eu me afastaria instintivamente.
- Desculpe. - e abaixou a cabeça - Por favor, fique longe disso Juan. Eu te amo.
Olhei profundamente para Suzana ainda atordoado.
- Já não posso fazer mais nada. Antes de te conhecer já havia tomado uma decisão e feito um juramento. Não existe mais volta.
Levantei e saí sem olhar para ela. Sem que eu percebesse chorávamos uma única lágrima.
Getúlio me esperava à porta da casa dela. Montei rápido e disparei em direção às pessoas que pudessem me dizer onde Caballero e Migiorinni estavam.
Era só tocar nesses nomes que todo mundo se assustava. Não tinha como. Era muito difícil encontrar alguém que não tivesse sofrido qualquer tipo de opressão de Migiorinni e seus lacaios. Eu tinha recebido vários olhares tortos e conselhos para abandonar essa jornada quando se aproximou de mim um senhor mais velho. Não se apresentou, vestia roupas maltrapilhas e apenas balbuciou o suficiente pra eu entender que o bando se localizavam em um vale alí perto contando os lucros do último assalto que fizeram. Pelo que consegui entender, a vítima desse assalto tinha sido o próprio velho que perdera todas as economias que tinha. Acontece que ele estava se mundando com a sua família quando os ladrões atacaram. Ele implorou pra que eu salvasse também sua esposa, senhora velhinha como ele, daqueles bandidos. Engoli seco e aceitei a missão.
Eu estava nervoso mas Getúlio não. Ele decididamente era muito mais corajoso que eu e, se está lendo atentamente até aqui, já pode perceber que se tem um herói nessa história esse herói é Getúlio. Meus méritos até aqui foram ínfimos e era isso que me incomodava tanto naquela hora.
Galopávamos naquela velocidade que só ele conseguia chegar. Eu suava frio e já não fazia mais reflexões. Sentia que a hora do meu gatilho chegava e eu temia essa hora. Não que não soubesse estivesse negando tudo aquilo que Dick sem olho me ensinara mas é que àquela altura eu ainda não havia matado nenhum homem. No máximo uns animais e alguns furos em latas mas homens são diferentes. Todo mundo mundo tem uma mãe, um pai, uma história e pelo menos um motivo para estar do outro lado do revólver. Matar um homem é distruir tudo isso, é estabelecer um fim que não necessariamente deveria ser alí. Todos merecem uma segunda chance e as balas negam isso aos homens.
Avistei de longe o bando. Eram sete. Me escondia atrás de algumas árvores onde deixei Getúlio. A mulher estava presa à carroça que eles haviam roubado. Não vi Caballero, não vi Migiorinni mas eu tinha uma missão e podia conseguir mais pistas.
Assim que entrei na delegacia pela manhã, o cenário me lembrou com quem eu estava lidando. Três dos meus homens estavam mortos com facadas no pescoço e no peito. O quarto homem sob meu comando estava de folga na noite mas quando soube da notícia juntou suas coisas e saiu correndo. Com certeza o bando de Migiorinni tinha feito o trabalho para libertar Caballero e agora viriam atrás de mim. Talvez eu ainda fosse a única coisa que tentasse impedir o seu domínio na região. Naquela madrugada José foi solto de novo e a população estava em pânico. Eu? Bem, eu estava sozinho. Quer dizer, sozinho não, eu tinha uma boa pistola, um gatilho rápido e Getúlio ao meu lado.
Fui ver Suzana. Era ela que me mantia fora da insanidade. Nos últimos tempos havíamos ficado bem próximos e com ela já podia dividir minhas intimidades. Eu disse que sentia medo, que não sabia se voltaria e que se voltasse a queria comigo. Em troca ela me fez arregalar os olhos, soluçar e saltar da cadeira. Eu sabia que seu nome era Suzana mas ela me revelou um terrível verdade. Seu sobrenome era Migiorinni.
Eu devia ter percebido. Naquela tarde em que Caballero invadiu o bar todos ficaram espantados mas Suzana ficou diferente. O seu olhar denunciava familiaridade com o mais importante capanga de seu pai. Durante nossas conversas ela sempre desviava certos assuntos como sua família ou omitia nomes. Eu julgava que tal atitude era pra se proteger, não lembrar um passado deixado pra trás, não reviver situações constrangedoras e esse fato eu entendia, me identificava até. Não, não era isso. Suzana havia escondido porque sabia que eu me afastaria instintivamente.
- Desculpe. - e abaixou a cabeça - Por favor, fique longe disso Juan. Eu te amo.
Olhei profundamente para Suzana ainda atordoado.
- Já não posso fazer mais nada. Antes de te conhecer já havia tomado uma decisão e feito um juramento. Não existe mais volta.
Levantei e saí sem olhar para ela. Sem que eu percebesse chorávamos uma única lágrima.
Getúlio me esperava à porta da casa dela. Montei rápido e disparei em direção às pessoas que pudessem me dizer onde Caballero e Migiorinni estavam.
Era só tocar nesses nomes que todo mundo se assustava. Não tinha como. Era muito difícil encontrar alguém que não tivesse sofrido qualquer tipo de opressão de Migiorinni e seus lacaios. Eu tinha recebido vários olhares tortos e conselhos para abandonar essa jornada quando se aproximou de mim um senhor mais velho. Não se apresentou, vestia roupas maltrapilhas e apenas balbuciou o suficiente pra eu entender que o bando se localizavam em um vale alí perto contando os lucros do último assalto que fizeram. Pelo que consegui entender, a vítima desse assalto tinha sido o próprio velho que perdera todas as economias que tinha. Acontece que ele estava se mundando com a sua família quando os ladrões atacaram. Ele implorou pra que eu salvasse também sua esposa, senhora velhinha como ele, daqueles bandidos. Engoli seco e aceitei a missão.
Eu estava nervoso mas Getúlio não. Ele decididamente era muito mais corajoso que eu e, se está lendo atentamente até aqui, já pode perceber que se tem um herói nessa história esse herói é Getúlio. Meus méritos até aqui foram ínfimos e era isso que me incomodava tanto naquela hora.
Galopávamos naquela velocidade que só ele conseguia chegar. Eu suava frio e já não fazia mais reflexões. Sentia que a hora do meu gatilho chegava e eu temia essa hora. Não que não soubesse estivesse negando tudo aquilo que Dick sem olho me ensinara mas é que àquela altura eu ainda não havia matado nenhum homem. No máximo uns animais e alguns furos em latas mas homens são diferentes. Todo mundo mundo tem uma mãe, um pai, uma história e pelo menos um motivo para estar do outro lado do revólver. Matar um homem é distruir tudo isso, é estabelecer um fim que não necessariamente deveria ser alí. Todos merecem uma segunda chance e as balas negam isso aos homens.
Avistei de longe o bando. Eram sete. Me escondia atrás de algumas árvores onde deixei Getúlio. A mulher estava presa à carroça que eles haviam roubado. Não vi Caballero, não vi Migiorinni mas eu tinha uma missão e podia conseguir mais pistas.
terça-feira, 29 de março de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 4)
O xerife me olhava perplexo. Não sei se abismado com a prisão que eu acabara de fazer ou pelo fato de ter saído vivo. Seja lá qual foi o motivo, ele estava perplexo. No momento em que apontei minha pistola para o rosto do bandido ouvi suspiros aliviados, comemorações contidas e juro que vi uma velha senhora dando um pequeno murro de comemoração no ar mas nada mais que isso. A alegria que eu achava trazer não era um consenso geral, pelo visto.
- Você sabe que as grades não o irão manter preso.
E só nessa hora eu pensei nisso. Obviamente a decisão mais sensata seria meter logo uma bala na cabeça do mequetrefe e resolver a situação, é duro ter um coração bondoso. Enfim, a prisão já estava feita. Não mataria o bandido sem nenhuma chance de defesa ou risco de real perigo. Não atiraria em um homem desarmado sem motivo aparente... Eu deveria ter feito uma excessão...
Alegando não mais aguentar as pressões do cargo, o xerife me entregou seu distintivo alí mesmo fazendo uma última ressalva:
- Este que você prendeu é José Caballero, braço direito do maior fora-da-lei que essas terras já viram.
Nem precisava perguntar quem era o tal vilão da história, eu já sabia seu nome. Era Signore Migiorinni.
Eu estava trabalhando de vaqueiro em um rancho ainda me recuperando dos ferimentos de raspão que eu ganhei fugindo da loucura e dos tiros do pai de Marluce quando ouvi pela primeira vez esse nome. Ele era o mandatário de uma série de assassinatos que andavam acontecendo na região. Basicamente todos por conta de dívidas e disputas por terras. Se Migiorinni queria, Migiorinni tinha. Todos que não cumpriam suas severas leis eram punidos exemplarmente. Corpos dilacerados, cabeças arrancadas, escalpos à moda indígena. De vez em quando aparecia esse tipo de aviso pelos lugarejos que circundavam suas zonas de atuação como se fossem um lembrete do que acontecia com quem desafiava sua autoridade.
Meu empregador tinha uma política diferente da de Valdim. Willie era pacifista convicto, odiava armas e fazia de tudo para que seus empregados ficassem longe de confusão. Nós ficávamos quietos e ele assegurava a paz. Passei dois anos em silêncio. Passei dois anos aperfeiçoando minha pontaria. Passei dois anos treinando minhas técnicas de cavalgada. Na noite, ensaiava com as minhas sombras e ninguém desconfiava.
Um belo dia acordei, selei Getúlio, pedi minhas contas à Willie e decidi voltar pra casa.
O prefeito em pessoa veio à delegacia. Procurou pelo antigo xerife e vendo o distintivo em minha mão, suspirou cabisbaixo:
- Já é o décimo em cinco anos. Ou fogem ou morrem. Pobres homens, espero que você tenha mais sorte.
Agradeceu pela prisão de Caballero com um ar cansado e desiludido se retirando logo após. Tudo estava acontecendo muito rápido. Eu tinha chegado na cidade, me apaixonado pela garçonete do bar, apanhado, prendido um homem altamente perigoso e virado xerife. Tudo em menos de 4 horas. A vida é mesmo uma coisa engraçada. Eu, que tinha saído fugido do lugar, agora era o responsável máximo pela sua segurança. Ironias da vida.
Respirei, pendurei a estrela com o dourado bem desgastado no peito e fui dar uma olhada no lado de fora da delegacia. Getúlio fazia o maior sucesso.
As crianças o cercavam querendo olhar suas patas, a marca em sua lateral, sua pelagem e ele, que não gostava nada de se mostrar, se empenava todo, estufava o peito, cavalo bobo que só ele. Nada mais engraçado que um pangaré metido à alasão orgulhoso. Sorri. Todos finalmente estavam reconhecendo aquilo que eu já sabia desde o seu nascimento, Getúlio era especial.
Alguma criança gritou:
- Ele só tem patas esquerdas!
Daí em diante já era. Getúlio Pé Esquerdo virou seu nome. Pegou fácil.
Enquanto olhava toda a situação, ela apareceu de novo. A moça do bar, de cabelos ruivos e agora com um sorriso de apagar o sol:
- Você foi muito corajoso lá no bar. Há tempos não via homens assim por aqui.
- Então hoje é seu dia de sorte madame, porque esse homem quer convidá-la a um passeio.
Ela se enrubeceu. Adoro quando as mulheres enrubecem, ficam parecidas com um botão de rosa. Envergonhadas e belas...Ah, eu amo as mulheres...
- A propósito, posso saber sua graça madame?
- Suzana.
- Prazer, xerife Gonzalez. Mas pode me chamar de Juan.
Assobiei para Getúlio que veio imediatamente, montamos e fomos passear.
Obviamente a delegacia não estava desguarnecida. Juntamente com o distintivo eu herdara o comando sobre quatro bons homens que trabalhavam com o antigo xerife e viram em mim um motivo para não abandonar o barco como o outro fizera. Enquanto eu estava fora três deles montavam guarda na delegacia tomando conta do preso esperando que o quarto enviasse a notícia para o destrito maior que possuía uma cadeia de porte suficiente para a periculosidade daquele prisioneiro. Demoraria mais ou menos uma semana para que ele pudesse ser transferido de maneira adequada.
Suzana tomou conta das minhas cinco tardes seguidas. Eu era quase uma celebridade local. Alguns diziam até que nunca houvera um xerife igual.Sem precedentes nos mais heróicos atos. Quando na verdade foi Getúlio o grande salvador do dia, se alguém devia usar o distintivo esse alguém era o meu cavalo. O povo às vezes fala de mais. Talvez fosse esse um dos meus maiores problemas.
Eu dormia em uma hospedaria em frente à delegacia sem muito conforto. Na verdade, era o lugar mais confortável que eu havia dormido nos últimos cinco anos. As coisas estavam relativamente tranquilas e já estava me acostumando à vida de xerife vida mansa.
Uma semana e dois dias já haviam passado da prisão de José Caballero quando a carroça para transpostá-lo chegou à cidade. Só tinha um problema: Não havia prisioneiro para ser transportado.
- Você sabe que as grades não o irão manter preso.
E só nessa hora eu pensei nisso. Obviamente a decisão mais sensata seria meter logo uma bala na cabeça do mequetrefe e resolver a situação, é duro ter um coração bondoso. Enfim, a prisão já estava feita. Não mataria o bandido sem nenhuma chance de defesa ou risco de real perigo. Não atiraria em um homem desarmado sem motivo aparente... Eu deveria ter feito uma excessão...
Alegando não mais aguentar as pressões do cargo, o xerife me entregou seu distintivo alí mesmo fazendo uma última ressalva:
- Este que você prendeu é José Caballero, braço direito do maior fora-da-lei que essas terras já viram.
Nem precisava perguntar quem era o tal vilão da história, eu já sabia seu nome. Era Signore Migiorinni.
Eu estava trabalhando de vaqueiro em um rancho ainda me recuperando dos ferimentos de raspão que eu ganhei fugindo da loucura e dos tiros do pai de Marluce quando ouvi pela primeira vez esse nome. Ele era o mandatário de uma série de assassinatos que andavam acontecendo na região. Basicamente todos por conta de dívidas e disputas por terras. Se Migiorinni queria, Migiorinni tinha. Todos que não cumpriam suas severas leis eram punidos exemplarmente. Corpos dilacerados, cabeças arrancadas, escalpos à moda indígena. De vez em quando aparecia esse tipo de aviso pelos lugarejos que circundavam suas zonas de atuação como se fossem um lembrete do que acontecia com quem desafiava sua autoridade.
Meu empregador tinha uma política diferente da de Valdim. Willie era pacifista convicto, odiava armas e fazia de tudo para que seus empregados ficassem longe de confusão. Nós ficávamos quietos e ele assegurava a paz. Passei dois anos em silêncio. Passei dois anos aperfeiçoando minha pontaria. Passei dois anos treinando minhas técnicas de cavalgada. Na noite, ensaiava com as minhas sombras e ninguém desconfiava.
Um belo dia acordei, selei Getúlio, pedi minhas contas à Willie e decidi voltar pra casa.
O prefeito em pessoa veio à delegacia. Procurou pelo antigo xerife e vendo o distintivo em minha mão, suspirou cabisbaixo:
- Já é o décimo em cinco anos. Ou fogem ou morrem. Pobres homens, espero que você tenha mais sorte.
Agradeceu pela prisão de Caballero com um ar cansado e desiludido se retirando logo após. Tudo estava acontecendo muito rápido. Eu tinha chegado na cidade, me apaixonado pela garçonete do bar, apanhado, prendido um homem altamente perigoso e virado xerife. Tudo em menos de 4 horas. A vida é mesmo uma coisa engraçada. Eu, que tinha saído fugido do lugar, agora era o responsável máximo pela sua segurança. Ironias da vida.
Respirei, pendurei a estrela com o dourado bem desgastado no peito e fui dar uma olhada no lado de fora da delegacia. Getúlio fazia o maior sucesso.
As crianças o cercavam querendo olhar suas patas, a marca em sua lateral, sua pelagem e ele, que não gostava nada de se mostrar, se empenava todo, estufava o peito, cavalo bobo que só ele. Nada mais engraçado que um pangaré metido à alasão orgulhoso. Sorri. Todos finalmente estavam reconhecendo aquilo que eu já sabia desde o seu nascimento, Getúlio era especial.
Alguma criança gritou:
- Ele só tem patas esquerdas!
Daí em diante já era. Getúlio Pé Esquerdo virou seu nome. Pegou fácil.
Enquanto olhava toda a situação, ela apareceu de novo. A moça do bar, de cabelos ruivos e agora com um sorriso de apagar o sol:
- Você foi muito corajoso lá no bar. Há tempos não via homens assim por aqui.
- Então hoje é seu dia de sorte madame, porque esse homem quer convidá-la a um passeio.
Ela se enrubeceu. Adoro quando as mulheres enrubecem, ficam parecidas com um botão de rosa. Envergonhadas e belas...Ah, eu amo as mulheres...
- A propósito, posso saber sua graça madame?
- Suzana.
- Prazer, xerife Gonzalez. Mas pode me chamar de Juan.
Assobiei para Getúlio que veio imediatamente, montamos e fomos passear.
Obviamente a delegacia não estava desguarnecida. Juntamente com o distintivo eu herdara o comando sobre quatro bons homens que trabalhavam com o antigo xerife e viram em mim um motivo para não abandonar o barco como o outro fizera. Enquanto eu estava fora três deles montavam guarda na delegacia tomando conta do preso esperando que o quarto enviasse a notícia para o destrito maior que possuía uma cadeia de porte suficiente para a periculosidade daquele prisioneiro. Demoraria mais ou menos uma semana para que ele pudesse ser transferido de maneira adequada.
Suzana tomou conta das minhas cinco tardes seguidas. Eu era quase uma celebridade local. Alguns diziam até que nunca houvera um xerife igual.Sem precedentes nos mais heróicos atos. Quando na verdade foi Getúlio o grande salvador do dia, se alguém devia usar o distintivo esse alguém era o meu cavalo. O povo às vezes fala de mais. Talvez fosse esse um dos meus maiores problemas.
Eu dormia em uma hospedaria em frente à delegacia sem muito conforto. Na verdade, era o lugar mais confortável que eu havia dormido nos últimos cinco anos. As coisas estavam relativamente tranquilas e já estava me acostumando à vida de xerife vida mansa.
Uma semana e dois dias já haviam passado da prisão de José Caballero quando a carroça para transpostá-lo chegou à cidade. Só tinha um problema: Não havia prisioneiro para ser transportado.
domingo, 27 de março de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo(Parte 3)
Já era quase de manhã e eu desvencilhava dos galhos secos. Não mais era levado por Getúlio, agora caminhava ao seu lado. Ambos calados e fitando o chão, dividíamos a mesma dor e o mesmo destino. Não nos restava nada no mundo a não ser o outro. É duro perder seus pais.
Minha mãe era um exemplo de candura. Talvez a minha lembrança mais marcante fosse o cheiro dos doces que ela fazia no finalzinho da tarde ou então as broncas que me dava quando eu subia na árvore mais alta da fazenda. Eu a amava.
Meu pai era mais sério, menos risonho, mas nem por isso carrancudo. Era até possível o encontrar contando piadas aos peões lá de casa. Apaixonado por animais, queria ter sido veterinário, mas acabou se tornando advogado. Comprou a fazenda quando eu nasci. Aliás, ele dizia que aquele foi o melhor dia da vida dele. Isso me fazia sentir especial.
Era filho único no entanto a casa estava sempre cheia. Criados e vizinhos entravam e saiam da casa com frequencia. Sábados à noite tinham jantares, bebidas e muita música. Alegria era o lema. Os dois tinham decidido que o bom da vida era viver.
Não. Agora não. Não era chuva que eu via molhar o chão em baixo dos meus pés. Lembrando disso tudo eu chorava. Um choro silencioso. Um choro revoltado.
Três meses e muita fome depois, consegui um emprego numa pequena fazenda cujo dono era a pessoa mais amável do mundo. Grande sujeito, grande coração mas um inegável pão duro. Nunca em toda minha vida trabalhei tanto por tão pouco. Eu tinha direito à água e pasto para Getúlio e tudo mais que fosse minimamente suficiente para me manter de pé trabalhando. Fazia de tudo, arava, plantava, colhia, cortava a (rala) grama do lugar, cuidava do galhinheiro, limpava latrinas enfim, tudo que fosse trabalho pesado e sujo de se fazer.
Podia dormir junto à Getúlio em um velho celeiro que já não era usado a quase duas décadas. Contava Valdim que depois que sua esposa morreu a dois anos, perdera a vontade de viver mas a única coisa que o mantinha vivo era sua filha Marluce e o amor pelas armas de fogo.
Então Valdim era um senhor de cinquenta anos de idade que aparentava ter setenta, tinha aproximadamente trinta armas só em sua sala e uma filha feia. Feia não, horrenda. Se os poetas conhecessem Marluce talvez tivessem que inventar novas palavras para descrevê-la. Me dá náuseas só de lembrar da verruga que predominava na sua bochecha esquerda e atraía toda a atenção de modos que eu nunca nem soube a cor de seus olhos.
E Marluce me amava com todas as forças que ela tinha.
Até porque tinha poucas forças. Vivia doente do pulmão e quase nunca podia sair de casa. Quando saia, era pra me vigiar...
- Fazeno u quê?
Eu odiava o sotaque dela. E a minha resposta era sempre a mesma. Trabalho. Baixava a cabeça, continuava o que estava fazendo. Getúlio tinha até tremedeiras todas as vezes que ela se aproximava. Ele me entendia perfeitamente.
Comecei também a ter aulas de tiro com um dos meus companheiros de labuta. Dick Sem Olho. Na verdade, Valdim encorajava todos nós a ter aulas de tiro. Costumava dizer que "por essas banda os meu ôme mode sabê atirá". Engraçado, nele o sotaque não parecia estranho, parecia... Justo. Voltando ao Dick, ele ganhara esse apelido porque uma vez, ainda pequeno foi brincar com a faca do pai que era açougueiro e acabou furando o olho direito. Pobre Dick. Em compensação, ganhou uma mira afiadíssima e um gatilho mais ainda. Aquele era um homem que sabia o que fazer com uma arma na mão.
Passei três anos nesse lugar, até Marluce ter uma ideia genial: me conquistar pra sempre.
Acordei ainda meio baleado de sono. O galo já cantava e o dia convidava à mais uma jornada de calor infernal. Nada podia ser pior. Mentira, podia sim. Valdim entrou chutando com toda a força o porta do meu (já mais arrumadinho) celeiro velho. Bufava, estava vermelho, como se alguém tivesse roubado algo dele, ou melhor, da filha dele.
- Agoooora vai tê qui casá disgraça dum demonio véio!
É incrível como as mulheres podem ter ideias idiotas. Ela havia contado para o pai que na noite anterior, eu a tinha seduzido e roubado sua virtude de maneira cruel. Confesso que ri por dentro. Todo mundo sabia que ela vivia pelos cantos com Dick Sem Olho mas nessa hora eu percebi que talvez fosse um jeito dela fazer ciúmes em mim, não sei. Nunca entendi as mulheres. Satisfazia seus desejos carnais com o caolho, mas suspirava pelo órfão. Que bela vida essa ein, feinha.
Me recusei e fui expulso à balas. Só deu tempo de pegar a pistola que eu havia ganhado de presente do próprio Valdim ao vencê-lo numa competição de tiros em lata à 40 pés (descobri um grande talento) e montar em Getúlio para disparar de novo pela vida. Esse era o meu destino.
O homem da capa acizentada sorriu ao ver minha tentativa de movimento disfarçado. O problema de quando você está ferido é que nada que você faça vai parecer natural. Eu estava muito mal, não comia bem a semanas e tinha acabado de levar uma surra. Nunca iria conseguir fazer um movimento leve de mão.
- Você cresceu bastante mas continua um fraco.
Levantei um pouco mais a cabeça e só então pude ver seu rosto. Me pareceu assustadoramente familiar. Um fantasma que vem assombrar depois de muito tempo. Aquele homem iria me matar cinco anos atrás, não fosse por Getúlio. Congelei. Ele certamente tinha reconhecido o cavalo e entrado no bar na esperança de poder terminar o serviço. Até agora seu plano corria bem.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, já estava voando pela janela do bar e aterrizando na estrada de terra que dividia a cidade ao meio. Rapidamente todas as pessoas que estavam dentro de todas construções dalí sairam para ver o espetáculo.
Ele saiu do bar e me encontrou no chão ainda. Sadicamente se aproximou, falou uns palavrões, blasfemou e cuspiu pro lado esperando me levantar. À duras penas me ergui. Cerrei um pouco os olhos e comecei a ver melhor. Ele segurava sua pistola apontada pra mim.
- É agora garoto, chegou a sua hora.
Não era. Saquei minha pistola com a velocidade que só se consegue após anos de prática. Deus salve Dick Sem Olho. Ele não esperava isso. Eu estava entregue, estava sujo, estava ferido mas eu vi Getúlio e Getúlio tinha me visto. Meu cavalo ensinou àquele homem o que os franceses chamariam de deja vú. A multidão abriu espaço no mesmo milésimo de segundo em que ele lançou meu carrasco frustrado ao chão novamente.
Apenas sorri.
- Parece que é a sua hora dessa vez.
Minha mãe era um exemplo de candura. Talvez a minha lembrança mais marcante fosse o cheiro dos doces que ela fazia no finalzinho da tarde ou então as broncas que me dava quando eu subia na árvore mais alta da fazenda. Eu a amava.
Meu pai era mais sério, menos risonho, mas nem por isso carrancudo. Era até possível o encontrar contando piadas aos peões lá de casa. Apaixonado por animais, queria ter sido veterinário, mas acabou se tornando advogado. Comprou a fazenda quando eu nasci. Aliás, ele dizia que aquele foi o melhor dia da vida dele. Isso me fazia sentir especial.
Era filho único no entanto a casa estava sempre cheia. Criados e vizinhos entravam e saiam da casa com frequencia. Sábados à noite tinham jantares, bebidas e muita música. Alegria era o lema. Os dois tinham decidido que o bom da vida era viver.
Não. Agora não. Não era chuva que eu via molhar o chão em baixo dos meus pés. Lembrando disso tudo eu chorava. Um choro silencioso. Um choro revoltado.
Três meses e muita fome depois, consegui um emprego numa pequena fazenda cujo dono era a pessoa mais amável do mundo. Grande sujeito, grande coração mas um inegável pão duro. Nunca em toda minha vida trabalhei tanto por tão pouco. Eu tinha direito à água e pasto para Getúlio e tudo mais que fosse minimamente suficiente para me manter de pé trabalhando. Fazia de tudo, arava, plantava, colhia, cortava a (rala) grama do lugar, cuidava do galhinheiro, limpava latrinas enfim, tudo que fosse trabalho pesado e sujo de se fazer.
Podia dormir junto à Getúlio em um velho celeiro que já não era usado a quase duas décadas. Contava Valdim que depois que sua esposa morreu a dois anos, perdera a vontade de viver mas a única coisa que o mantinha vivo era sua filha Marluce e o amor pelas armas de fogo.
Então Valdim era um senhor de cinquenta anos de idade que aparentava ter setenta, tinha aproximadamente trinta armas só em sua sala e uma filha feia. Feia não, horrenda. Se os poetas conhecessem Marluce talvez tivessem que inventar novas palavras para descrevê-la. Me dá náuseas só de lembrar da verruga que predominava na sua bochecha esquerda e atraía toda a atenção de modos que eu nunca nem soube a cor de seus olhos.
E Marluce me amava com todas as forças que ela tinha.
Até porque tinha poucas forças. Vivia doente do pulmão e quase nunca podia sair de casa. Quando saia, era pra me vigiar...
- Fazeno u quê?
Eu odiava o sotaque dela. E a minha resposta era sempre a mesma. Trabalho. Baixava a cabeça, continuava o que estava fazendo. Getúlio tinha até tremedeiras todas as vezes que ela se aproximava. Ele me entendia perfeitamente.
Comecei também a ter aulas de tiro com um dos meus companheiros de labuta. Dick Sem Olho. Na verdade, Valdim encorajava todos nós a ter aulas de tiro. Costumava dizer que "por essas banda os meu ôme mode sabê atirá". Engraçado, nele o sotaque não parecia estranho, parecia... Justo. Voltando ao Dick, ele ganhara esse apelido porque uma vez, ainda pequeno foi brincar com a faca do pai que era açougueiro e acabou furando o olho direito. Pobre Dick. Em compensação, ganhou uma mira afiadíssima e um gatilho mais ainda. Aquele era um homem que sabia o que fazer com uma arma na mão.
Passei três anos nesse lugar, até Marluce ter uma ideia genial: me conquistar pra sempre.
Acordei ainda meio baleado de sono. O galo já cantava e o dia convidava à mais uma jornada de calor infernal. Nada podia ser pior. Mentira, podia sim. Valdim entrou chutando com toda a força o porta do meu (já mais arrumadinho) celeiro velho. Bufava, estava vermelho, como se alguém tivesse roubado algo dele, ou melhor, da filha dele.
- Agoooora vai tê qui casá disgraça dum demonio véio!
É incrível como as mulheres podem ter ideias idiotas. Ela havia contado para o pai que na noite anterior, eu a tinha seduzido e roubado sua virtude de maneira cruel. Confesso que ri por dentro. Todo mundo sabia que ela vivia pelos cantos com Dick Sem Olho mas nessa hora eu percebi que talvez fosse um jeito dela fazer ciúmes em mim, não sei. Nunca entendi as mulheres. Satisfazia seus desejos carnais com o caolho, mas suspirava pelo órfão. Que bela vida essa ein, feinha.
Me recusei e fui expulso à balas. Só deu tempo de pegar a pistola que eu havia ganhado de presente do próprio Valdim ao vencê-lo numa competição de tiros em lata à 40 pés (descobri um grande talento) e montar em Getúlio para disparar de novo pela vida. Esse era o meu destino.
O homem da capa acizentada sorriu ao ver minha tentativa de movimento disfarçado. O problema de quando você está ferido é que nada que você faça vai parecer natural. Eu estava muito mal, não comia bem a semanas e tinha acabado de levar uma surra. Nunca iria conseguir fazer um movimento leve de mão.
- Você cresceu bastante mas continua um fraco.
Levantei um pouco mais a cabeça e só então pude ver seu rosto. Me pareceu assustadoramente familiar. Um fantasma que vem assombrar depois de muito tempo. Aquele homem iria me matar cinco anos atrás, não fosse por Getúlio. Congelei. Ele certamente tinha reconhecido o cavalo e entrado no bar na esperança de poder terminar o serviço. Até agora seu plano corria bem.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, já estava voando pela janela do bar e aterrizando na estrada de terra que dividia a cidade ao meio. Rapidamente todas as pessoas que estavam dentro de todas construções dalí sairam para ver o espetáculo.
Ele saiu do bar e me encontrou no chão ainda. Sadicamente se aproximou, falou uns palavrões, blasfemou e cuspiu pro lado esperando me levantar. À duras penas me ergui. Cerrei um pouco os olhos e comecei a ver melhor. Ele segurava sua pistola apontada pra mim.
- É agora garoto, chegou a sua hora.
Não era. Saquei minha pistola com a velocidade que só se consegue após anos de prática. Deus salve Dick Sem Olho. Ele não esperava isso. Eu estava entregue, estava sujo, estava ferido mas eu vi Getúlio e Getúlio tinha me visto. Meu cavalo ensinou àquele homem o que os franceses chamariam de deja vú. A multidão abriu espaço no mesmo milésimo de segundo em que ele lançou meu carrasco frustrado ao chão novamente.
Apenas sorri.
- Parece que é a sua hora dessa vez.
sexta-feira, 25 de março de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo(Parte 2)
Eu sempre tive uma síndrome de paixão imediata por ruivas. Quando eu tinha lá meus doze anos e ainda estava naquela fase de descobrir os mistérios do relacionamento humano, eu tinha uma vizinha ruiva. Ela era linda e dois anos mais velha que eu. Não que isso fosse um problema. Ela se desenvolvera rápido de modos que eu me pegava a sonhar com suas (agora me recordando) leves curvas e cabelos vermelhos. Não cheguei a dizer como me sentia, ela se mudou no dia em que eu tinha decidido fazê-lo e eu nunca mais a vi. Acontece.
Do outro lado da bancada do bar encontrava-se a criatura mais bela do mundo. Tão bonita que eu me envergonhava de estar maltrapilho e fedorento. Somente nesse momento percebi que não tomava banho fazia um tempo e talvez essa fosse minha maior necessidade, ao contrário do drinque que eu acabara de preferir. Tinha olhos verdes e decididos. Me encarava esperando um pedido com os cabelos ruivos em trança enrolados até a cintura. No que meus olhos se desviavam suavemente para seu decote, ela, com sua voz angelical de rachar qualquer taça de cristal à dez metros, sussurrou:
- Mais pra baixo e eu uso a minha carabina na sua fuça, palhaço.
Nunca uma ameaça me soou tão lisonjeira. Só pude oferecer meu melhor sorriso amarelo em detrimento do meu bafo que também já estava a impestiar o ar. Meu Deus... O que aconteceu com a minha higiene? Pedi um copo de uísque e ela o trouxe com uma destreza sem igual. Acho que me serviu de uns cinco copos seguidos. Eu os pedia somente como pretexto para tê-la por perto por alguns segundos, infelizmente disputava sua atenção com todos os outors bêbados do lugar. Por falar em bêbados...
- Quem é o dono do cavalo da meia lua?!
Eu sabia que já estava demorando de mais. A vida nunca é tão boazinha.
Entrou arrombando as portas do lugar um homem de capa negra acizentada e no instante em que isso aconteceu, todos prenderam a respiração. Confesso que dei graças a Deus porque não tinham feito semelhante coisa quando entrei no lugar, se fizessem eu estaria muito mais envergonhado da minha higiene pessoal do que estava na hora. Enfim, ele entrou no bar cheio de pompa. A música parou, as pequenas brigas pararam, olhos somente nele... e em mim. Afinal de contas, era eu o dono do cavalo da meia lua.
Quando se chamuscou no incêndio, eu sabia que o pêlo de Getúlio ia ficar marcado de algum jeito. Só não sabia que a chamusca na sua pelagem negra ia ficar branca. Como se fosse uma lembrança de tudo que passamos naquela noite. Do mesmo jeito que eu tinha as minhas marcas, Getúlio tinha as dele.
Permaneci de costas e virado para o bar. A menina, que ainda estava linda, agora tentava esconder seu temor nos olhos enquanto o homem se aproximava cada vez mais.
- Eu perguntei quem é o dono do cavalo da meia lua!
Dessa vez ao lado do meu ouvido. Ele sabia que era eu mas eu gosto de fazer charme de durão, percebi que ele também. Pegou meu ombro e tentou me girar. Mantive minha promessa, ninguém nunca mais faria aquilo comigo, então durante o giro fechei o punho e rezei para o meu soco sem mira acertar seu destino.
Não acertou.
O desgraçado era muito rápido e antes que eu pudesse terminar de socar o vento, me acertou a boca do estômago com uma joelhada. Quase vomitei. Uma cotovelada na minha nuca, quase desmaiei. Um chute nas costelas e eu desviei.
Consegui rolar para o lado e nessa hora ele perdeu um pouco o equilíbrio. Claramente ele não estava preparado para uma briga de bar. Ninguém deve se dispor a lutar de mãos nuas com tantas armas penduradas ao corpo. Consegui reparar isso quando levantei. Ele carregava duas pistolas cruzadas no peito, mais uma na cintura, um sobretudo cinza (como já havia dito antes) e balas penduradas em todos os lugares do corpo. Foi um tremendo golpe de sorte ele ter desviado do meu primeiro soco...ou não.
Todos alí o respeitavam. Dava pra ver. Normalmente os bêbados e curiosos se ajuntariam em volta e torceriam, escolheriam lados, gritariam. Não, nada disso. Estranhamente o silêncio só era quebrado pelos meus gemidos de dor. Eu estava gemendo? Percebi que uma dor imensa começava a tomar conta de mim mas o que eu podia fazer? Se desmaiasse o que aconteceria comigo? E Getúlio? O que será que aquele cavalo tinha feito?
Finquei o pé, levantei o queixo e comecei a levar a mão levemente à cintura...
Do outro lado da bancada do bar encontrava-se a criatura mais bela do mundo. Tão bonita que eu me envergonhava de estar maltrapilho e fedorento. Somente nesse momento percebi que não tomava banho fazia um tempo e talvez essa fosse minha maior necessidade, ao contrário do drinque que eu acabara de preferir. Tinha olhos verdes e decididos. Me encarava esperando um pedido com os cabelos ruivos em trança enrolados até a cintura. No que meus olhos se desviavam suavemente para seu decote, ela, com sua voz angelical de rachar qualquer taça de cristal à dez metros, sussurrou:
- Mais pra baixo e eu uso a minha carabina na sua fuça, palhaço.
Nunca uma ameaça me soou tão lisonjeira. Só pude oferecer meu melhor sorriso amarelo em detrimento do meu bafo que também já estava a impestiar o ar. Meu Deus... O que aconteceu com a minha higiene? Pedi um copo de uísque e ela o trouxe com uma destreza sem igual. Acho que me serviu de uns cinco copos seguidos. Eu os pedia somente como pretexto para tê-la por perto por alguns segundos, infelizmente disputava sua atenção com todos os outors bêbados do lugar. Por falar em bêbados...
- Quem é o dono do cavalo da meia lua?!
Eu sabia que já estava demorando de mais. A vida nunca é tão boazinha.
Entrou arrombando as portas do lugar um homem de capa negra acizentada e no instante em que isso aconteceu, todos prenderam a respiração. Confesso que dei graças a Deus porque não tinham feito semelhante coisa quando entrei no lugar, se fizessem eu estaria muito mais envergonhado da minha higiene pessoal do que estava na hora. Enfim, ele entrou no bar cheio de pompa. A música parou, as pequenas brigas pararam, olhos somente nele... e em mim. Afinal de contas, era eu o dono do cavalo da meia lua.
Quando se chamuscou no incêndio, eu sabia que o pêlo de Getúlio ia ficar marcado de algum jeito. Só não sabia que a chamusca na sua pelagem negra ia ficar branca. Como se fosse uma lembrança de tudo que passamos naquela noite. Do mesmo jeito que eu tinha as minhas marcas, Getúlio tinha as dele.
Permaneci de costas e virado para o bar. A menina, que ainda estava linda, agora tentava esconder seu temor nos olhos enquanto o homem se aproximava cada vez mais.
- Eu perguntei quem é o dono do cavalo da meia lua!
Dessa vez ao lado do meu ouvido. Ele sabia que era eu mas eu gosto de fazer charme de durão, percebi que ele também. Pegou meu ombro e tentou me girar. Mantive minha promessa, ninguém nunca mais faria aquilo comigo, então durante o giro fechei o punho e rezei para o meu soco sem mira acertar seu destino.
Não acertou.
O desgraçado era muito rápido e antes que eu pudesse terminar de socar o vento, me acertou a boca do estômago com uma joelhada. Quase vomitei. Uma cotovelada na minha nuca, quase desmaiei. Um chute nas costelas e eu desviei.
Consegui rolar para o lado e nessa hora ele perdeu um pouco o equilíbrio. Claramente ele não estava preparado para uma briga de bar. Ninguém deve se dispor a lutar de mãos nuas com tantas armas penduradas ao corpo. Consegui reparar isso quando levantei. Ele carregava duas pistolas cruzadas no peito, mais uma na cintura, um sobretudo cinza (como já havia dito antes) e balas penduradas em todos os lugares do corpo. Foi um tremendo golpe de sorte ele ter desviado do meu primeiro soco...ou não.
Todos alí o respeitavam. Dava pra ver. Normalmente os bêbados e curiosos se ajuntariam em volta e torceriam, escolheriam lados, gritariam. Não, nada disso. Estranhamente o silêncio só era quebrado pelos meus gemidos de dor. Eu estava gemendo? Percebi que uma dor imensa começava a tomar conta de mim mas o que eu podia fazer? Se desmaiasse o que aconteceria comigo? E Getúlio? O que será que aquele cavalo tinha feito?
Finquei o pé, levantei o queixo e comecei a levar a mão levemente à cintura...
quinta-feira, 24 de março de 2011
211 - Getúlio Pé Esquerdo(Parte 1)
Talvez esse não seja o começo da história mas como a história é minha, eu a começo por onde bem entender. Eu montava Getúlio enquanto corríamos com toda velocidade que alguém pode conseguir de um cavalo com quatro patas esquerdas. É. Getúlio tinha quatro patas esquerdas, todas em seus devidos lugares, mas todas esquerdas.E nessa hora corriam como vento. Eu preferia tê-lo chamado de Getúlio Pé de Vento, no entanto, Pé Esquerdo foi o apelido que pegou assim que a garotada ficou sabendo da peculiaridade do cavalo do novo mocinho da cidade. Título que eu ganhara merecidamente caso de três semanas atrás.
Nada disso importava agora, só os tiros que ricocheteavam atrás de mim e nas pedras que serpenteavam nosso caminho. Getúlio as ignorava. Passava por cima de cada uma como se nada fosse, machucando cada vez mais seus cascos nus, que só estavam assim pela pressa na qual partimos quando invadiram meu quartinho. Tive sorte de encontrar Getúlio ainda pastando do lado de fora da hospedaria, se eles fossem mais espertos, saberiam que a minha única chance de escapar era o cavalo.
Eles se aproximam.
E uma ponte também.
Nunca em toda minha vida Getúlio recuou de um obstáculo que fosse, cavalo sensacional, não o trocaria por nada.
A ponte é bamba, Getúlio pisa em falso e o mundo desaba do penhasco.
Lembro do dia em que eu ainda era pequeno, e o meu pai me deu um par de botas com esporas. Acho que foi o segundo melhor dia da minha vida. Era cedinho e o sol ainda sentia certa preguiça tardando assim em aparecer por trás da paisagem verde. Foram bons os meus dias naquela fazenda. Corria-se muito, aprendia-se as maravilhas do trabalho pesado e do esforço recompensado. O suor na testa era o fardo e o galardão.
Tudo ia bem.
Foi em um dia chuvoso, pra depois das dez da noite, que conheci Getúlio. A melhor égua do meu pai entrara em trabalho de parto e todos correram para ver o que aconteceria. Trovejava bastante e talvez pudéssemos perder alguma parte da plantação que já se encontrava em estado de calamidade. Água, muita água. Foi assim que ele veio ao mundo. Com muita água.
Mais tarde, reparando no andar do potro, percebemos que ele cambaleava para a esquerda e obviamente achamos tal fato muito esquisito - O que andamos pondo na bebida dele? - nos perguntávamos. Nessa hora papai tomou o potro nos seus braços e olhou para suas patas. Eram levemente deslocadas para a esquerda. Todas elas. Eu sorri.
Simpatizei com ele desde o início.
Sempre gostei de cavalos, principalmente dos velozes, então sempre os montava para ver qual era o mais rápido. Um dia, ao ver que a musculatura de Getúlio já se desenvolvera suficientemente, resolvi montá-lo.
Ele não simpatizou comigo.
Caí umas cinquenta vezes da sela que arduamente botei em suas costas. Ele era jovem, forte e teimoso. Qualidades das quais, modéstia parte, eu compartilhava com ele. Permanecemos nessa luta por horas até nos cansarmos e eu cair no sono em campo aberto.
Acontece que meu pai tinha vícios e, em uma partida de poker, decidiu mudar o rumo das nossas vidas. Apostou a fazenda em um par de ases. Perdeu tudo para um full house. Ironias da vida. Ele tinha se recusado a cumprir a aposta uma semana depois alegando que estava bêbado e que nada do que tinha feito podia ser considerado. Mas com esse tipo de gente não se brinca. Eu tinha dezessete anos e acordei com fumaça em minhas narinas.
Estava deitado a quinhentos passos da casa e tudo que pude fazer foi sair correndo desesperadamente de encontro ao inferno que se formara logo alí. É esquisito ver sua casa queimar. Sua história, seus laços, suas raízes, tudo em chamas. Chorei. Ao me aproximar, alguns dos homens mandados àquele trabalho ainda estavam do lado de fora e me seguranram. Pegaram meus braços enquanto me debatia e me forçaram a assistir tudo. Impotente, fraco. Ainda ouço os gritos do meu pai e da minha mãe ecoando na cabeça. Ainda cerro o punho ao pensar nos rostos daqueles homens, ainda posso sentir o cheiro de carne queimando.
Então chegou a minha vez. De frente para o cenário vermelho, forçaram meus ombros e eu não tive nenhum motivo para me manter de pé. De joelhos observei o cano frio da pistola e tive meus primeiros últimos pensamentos. Seria alí meu fim.
Não se dependesse de Getúlio.
Como que nos filmes de ação, meu pangaré canhoto, bem nascido e bem cuidado surgiu detrás da confusão furioso. Ele tinha chamuscado o pêlo no lado da costela direita em um formato de meia lua. Era negro como meus pensamentos, era rápido como a bala que evitou me acertarem. Antes que eu pudesse ver, meu carrasco estava no chão e Getúlio se inclinou levemente como quem oferece carona a um velho amigo, como quem sabia estender a mão na hora certa, como se ele soubesse o que eu estava sentindo. E eu acho que ele sabia. Montei, fugi.
Cinco anos se passaram de modos que ninguém me reconheceu quando voltei. À essa altura já tinha vivido muitas coisas mas a constante na minha vida era o fiel Getúlio. Passei noites com frio, dias com fome, fui vaqueiro, fui trabalhador na terra dos outros e Getúlio se mantinha firme. Aprendi a me defender da vida, nunca mais ninguém me colocaria de joelhos nem deixaria que isso acontecesse às pessoas que não fizeram nada. Não enquanto tivesse o meu par de botas e meu cavalo ao lado. Nunca mais.
Era bom estar em casa. A velha cidade, o velho barbeiro, as mesmas pessoas. Me perguntava como estaria o bar. Não que me preocupasse com sua aparência em si, mas depois dos vinte, todas as horas me pareciam uma boa hora para um drinque. Deixei Getúlio à porta.
Lá dentro alguém tocava um piano nervoso, muitas pessoas bebiam e aparentemente uma pequena briga ia se formando mas nada que não fosse justificado pela bebedeira do local. Me sentei na bancada do bar e ao levantar os olhos mudei o rumo da minha vida pela segunda vez.
Nada disso importava agora, só os tiros que ricocheteavam atrás de mim e nas pedras que serpenteavam nosso caminho. Getúlio as ignorava. Passava por cima de cada uma como se nada fosse, machucando cada vez mais seus cascos nus, que só estavam assim pela pressa na qual partimos quando invadiram meu quartinho. Tive sorte de encontrar Getúlio ainda pastando do lado de fora da hospedaria, se eles fossem mais espertos, saberiam que a minha única chance de escapar era o cavalo.
Eles se aproximam.
E uma ponte também.
Nunca em toda minha vida Getúlio recuou de um obstáculo que fosse, cavalo sensacional, não o trocaria por nada.
A ponte é bamba, Getúlio pisa em falso e o mundo desaba do penhasco.
Lembro do dia em que eu ainda era pequeno, e o meu pai me deu um par de botas com esporas. Acho que foi o segundo melhor dia da minha vida. Era cedinho e o sol ainda sentia certa preguiça tardando assim em aparecer por trás da paisagem verde. Foram bons os meus dias naquela fazenda. Corria-se muito, aprendia-se as maravilhas do trabalho pesado e do esforço recompensado. O suor na testa era o fardo e o galardão.
Tudo ia bem.
Foi em um dia chuvoso, pra depois das dez da noite, que conheci Getúlio. A melhor égua do meu pai entrara em trabalho de parto e todos correram para ver o que aconteceria. Trovejava bastante e talvez pudéssemos perder alguma parte da plantação que já se encontrava em estado de calamidade. Água, muita água. Foi assim que ele veio ao mundo. Com muita água.
Mais tarde, reparando no andar do potro, percebemos que ele cambaleava para a esquerda e obviamente achamos tal fato muito esquisito - O que andamos pondo na bebida dele? - nos perguntávamos. Nessa hora papai tomou o potro nos seus braços e olhou para suas patas. Eram levemente deslocadas para a esquerda. Todas elas. Eu sorri.
Simpatizei com ele desde o início.
Sempre gostei de cavalos, principalmente dos velozes, então sempre os montava para ver qual era o mais rápido. Um dia, ao ver que a musculatura de Getúlio já se desenvolvera suficientemente, resolvi montá-lo.
Ele não simpatizou comigo.
Caí umas cinquenta vezes da sela que arduamente botei em suas costas. Ele era jovem, forte e teimoso. Qualidades das quais, modéstia parte, eu compartilhava com ele. Permanecemos nessa luta por horas até nos cansarmos e eu cair no sono em campo aberto.
Acontece que meu pai tinha vícios e, em uma partida de poker, decidiu mudar o rumo das nossas vidas. Apostou a fazenda em um par de ases. Perdeu tudo para um full house. Ironias da vida. Ele tinha se recusado a cumprir a aposta uma semana depois alegando que estava bêbado e que nada do que tinha feito podia ser considerado. Mas com esse tipo de gente não se brinca. Eu tinha dezessete anos e acordei com fumaça em minhas narinas.
Estava deitado a quinhentos passos da casa e tudo que pude fazer foi sair correndo desesperadamente de encontro ao inferno que se formara logo alí. É esquisito ver sua casa queimar. Sua história, seus laços, suas raízes, tudo em chamas. Chorei. Ao me aproximar, alguns dos homens mandados àquele trabalho ainda estavam do lado de fora e me seguranram. Pegaram meus braços enquanto me debatia e me forçaram a assistir tudo. Impotente, fraco. Ainda ouço os gritos do meu pai e da minha mãe ecoando na cabeça. Ainda cerro o punho ao pensar nos rostos daqueles homens, ainda posso sentir o cheiro de carne queimando.
Então chegou a minha vez. De frente para o cenário vermelho, forçaram meus ombros e eu não tive nenhum motivo para me manter de pé. De joelhos observei o cano frio da pistola e tive meus primeiros últimos pensamentos. Seria alí meu fim.
Não se dependesse de Getúlio.
Como que nos filmes de ação, meu pangaré canhoto, bem nascido e bem cuidado surgiu detrás da confusão furioso. Ele tinha chamuscado o pêlo no lado da costela direita em um formato de meia lua. Era negro como meus pensamentos, era rápido como a bala que evitou me acertarem. Antes que eu pudesse ver, meu carrasco estava no chão e Getúlio se inclinou levemente como quem oferece carona a um velho amigo, como quem sabia estender a mão na hora certa, como se ele soubesse o que eu estava sentindo. E eu acho que ele sabia. Montei, fugi.
Cinco anos se passaram de modos que ninguém me reconheceu quando voltei. À essa altura já tinha vivido muitas coisas mas a constante na minha vida era o fiel Getúlio. Passei noites com frio, dias com fome, fui vaqueiro, fui trabalhador na terra dos outros e Getúlio se mantinha firme. Aprendi a me defender da vida, nunca mais ninguém me colocaria de joelhos nem deixaria que isso acontecesse às pessoas que não fizeram nada. Não enquanto tivesse o meu par de botas e meu cavalo ao lado. Nunca mais.
Era bom estar em casa. A velha cidade, o velho barbeiro, as mesmas pessoas. Me perguntava como estaria o bar. Não que me preocupasse com sua aparência em si, mas depois dos vinte, todas as horas me pareciam uma boa hora para um drinque. Deixei Getúlio à porta.
Lá dentro alguém tocava um piano nervoso, muitas pessoas bebiam e aparentemente uma pequena briga ia se formando mas nada que não fosse justificado pela bebedeira do local. Me sentei na bancada do bar e ao levantar os olhos mudei o rumo da minha vida pela segunda vez.
domingo, 20 de março de 2011
quinta-feira, 17 de março de 2011
209
Se você pudesse não acordar um dia
Qual escolheria?
Se pudesse voltar no tempo
Qual seria o momento?
Se pudesse mudar seu nome
Seria ele mais bonito
Ou seria só você a mesma pessoa
Com um nome esquisito?
Se cantasse como um tenor
Escrevesse como um poeta
Voasse por entre as nuvens
Soubesse todos os valores presentes numa linha reta
Seria, dentre os homens, o maior?
Se nem homem fosse
Almoçasse com Deus aos domingos
E conversasse com estrelas
Não te chamariam os outros
De louco?
E se aos quarenta
Descobrisse que era mais feliz aos vinte
Mas largou tudo nos trinta
Por medo dos cinquenta?
Se fosse O Primeiro Pintor
Qual tinta usaria
Para colorir os céus
E estampar gaivotas
No horizonte daquela praia que você tanto gosta?
Se pudesse definir o amor
Que palavras usaria?
Se pudesse definir o ódio
Pra que serviria?
Se pudesse ser feliz pra vida toda
Por que esperaria?
Sorria.
Qual escolheria?
Se pudesse voltar no tempo
Qual seria o momento?
Se pudesse mudar seu nome
Seria ele mais bonito
Ou seria só você a mesma pessoa
Com um nome esquisito?
Se cantasse como um tenor
Escrevesse como um poeta
Voasse por entre as nuvens
Soubesse todos os valores presentes numa linha reta
Seria, dentre os homens, o maior?
Se nem homem fosse
Almoçasse com Deus aos domingos
E conversasse com estrelas
Não te chamariam os outros
De louco?
E se aos quarenta
Descobrisse que era mais feliz aos vinte
Mas largou tudo nos trinta
Por medo dos cinquenta?
Se fosse O Primeiro Pintor
Qual tinta usaria
Para colorir os céus
E estampar gaivotas
No horizonte daquela praia que você tanto gosta?
Se pudesse definir o amor
Que palavras usaria?
Se pudesse definir o ódio
Pra que serviria?
Se pudesse ser feliz pra vida toda
Por que esperaria?
Sorria.
terça-feira, 15 de março de 2011
208
Todo mundo sabe que só se deve escrever sobre as outras coisas.
Escrever sobre o que acontece consigo mesmo é se expor sem necessidade,
É recurso de quem não tem mais talento sobrando, e já se rasgou em todas as formas
Antes de vir aqui e escrever, aliás
Admitir, isso.
Me entregando a minha falta de talento
Digo:
Outrora, noutra família nascesse
Talvez não fosse tão amado.
Ainda em projeto de existência já era esperado
E querido, por assim dizer.
Não posso reclamar.
Dizem as boas línguas que falei e andei cedo
Continuam a dizer as mesmas coisas com o passar dos anos
E, apesar de repetitivo nas festas de família,
Meu ego agradece.
Veja bem, não que meu ego seja tão inflado assim
Você vai ver ainda que eu não tenho muitos motivos pra tê-lo assim
Mas é sempre bom uma massagenzinha.
Fiz um ano e meio
E uma premonição.
Seria feliz dalí uns dezenove anos
E acho que serei feliz daqui a uns tempos de novo.
Me disseram que daqui a quarenta anos estarei comemorando
O aniversário de quinze anos da minha segunda filha.
Ia, ou vai, ser engraçado.
Eu gostaria, pelo menos.
Acredito eu que o desempenho escolar nunca foi realmente um problema.
Na verdade foi sim,
Não passei de primeira na faculdade.
E durante as festas e o calor que separam dezembro de fevereiro
Me atormentaram uns fantasmas que não quero mais encontrar na minha vida.
Ter visto meu avô chorar já foi traumático o suficiente.
De todas as pessoas no mundo
Ele é o último que eu gostaria de desapontar
E por pura imprudência e jovialidade fútil, desapontei.
Mas veja
O fim de fevereiro e o início de março daquele ano traziam novos ventos.
Forçado a voltar a escola, encontrei alguns amigos na mesma situação
É sempre bom estar com amigos.
É sempre bom encontrar o amor sem esperar.
Eu lembro perfeitamente da hora que ela entrou na sala.
Era a segunda semana de aula
E eu já sabia quem ela era
Já a tinha visto antes
Mas não daquele jeito.
Sabe aquela coisa brega de anjos cantando no adorno rosa?
Então
Foi assim.
Ela usava aquela calça clara que eu gostava tanto
E a camisa verde listrada em branco
Os cabelos pretos molhados como que tomara banho e tinha vindo correndo
Com medo de se atrasar...
Sempre tão atrapalhada.
Tomei a decisão de me jogar de verdade pela primeira vez
E durante seis meses foi maravilhoso.
Mas acontece também que se você é um homem
Você vai tomar uma decisão idiota.
E eu tomei.
O que diferencia os homens na verdade é a capacidade de aprender com isso.
É o que eu acho, pelo menos.
Perdi a primeira menina que eu gostei de verdade.
Chorei.
Me machuquei.
Paciência.
Sei que a machuquei também e me dói bastante só de pensar.
Pois bem
Vida que segue.
Em um desses encontros musicais da vida
Reencontrei a segunda pessoa que me fez pensar que o mundo
Nem é tão ruim assim.
Vivi pela primeira vez uma situação que se repetiria ao inverso
Coisa de um ano depois.
Já havíamos frequentado aulas de inglês juntos
Eu sabia que ela cantava.
Ela sabia que eu tocava baixo.
Já tínhamos tentado uma banda antes,que não deu certo.
E do nada resolvemos nos juntar pra tocar de novo.
Mas para tanto, nos encontramos em um barzinho para conversar sobre os destinos
Que tomaríamos dalí por diante.
E ela se atrasou.
Vendo agora, percebo que devo ter feitiche por meninas que se atrasam...
Enfim,
Ela chegou coisa de uns trinta minutos depois do combinado
E todos estávamos à mesa.
Eu lembrava de ter conhecido uma menina
Mas o que eu vi sentar junto a nós na mesa daquele bar na Lopes Trovão
Foi uma mulher.
Uma maquiagem clara por cima dos olhos castanhos
E o vestido verde tomara que caia.
O mesmo que ela usou na noite que nos despedimos pela última vez
No carro dela.
Noite essa na qual percebi que tipo de homem eu era.
Um homem que não aprendeu com a decisão idiota que tomara uns tempos antes
E acabou tomando o mesmo tipo de decisão.
Parabéns a mim mesmo
E para minha natureza estúpida.
Mudaria tanta coisa...
Imploraria a mim mesmo para não ser tão idiota
E não perceber
Que eu deixei a minha felicidade com os olhos cheios d'água
Olhando minhas costas
E depois dirigindo tristemente até a sua casa.
Sei que ela está melhor agora sem mim.
Entrei para a faculdade.
Engenheiro eu seria, ou serei daqui a uns três anos e meio ainda.
Abraços
Palmas
Alegria
No meio daquele ano eu ganhei um carro.
Me chamaram de materialista
Mas que mal há em gozar das coisas que se consegue na vida?
Tudo vem com tanta dificuldade
Eu seria um robô se não comemorasse.
Continuei meu caminho.
E confesso que já tinha desistido
Quando dezembro chegou.
Final de dezembro pra ser preciso.
E pra ser mais preciso ainda
Dia 28.
Um dia que pra mim começou sem nenhuma espectativa
E que proporcionalmente à falta de espectativa
Ficou bastante interessante
Quando após algumas mensagens, eu começaria a viver pela segunda vez
O inverso.
Ela usava uma camisa que flutuava preta.
E calça jeans.
Pouca maquiagem.
E não precisava de mais nada.
Era, e é, linda.
Aliás, fiz questão de dizer isso a ela por todo o tempo e todos os dias
Que passamos juntos.
Saímos
Nos divertimos
E na virada de fim de ano
Quando todos fazem seus desejos,
Eu desejei um mês.
Só um mês
Pra mostrar a ela como tudo podia ser maravilhoso
E quão perfeito nós dois
Poderia soar.
Ganhei dois meses.
Ganhei super poderes
Fiquei mais bonito
Mais inteligente
E tudo isso por causa dela.
Sentia que podia fazer qualquer coisa, queria levá-la para o mundo.
Mostrar que se pode enxergar tão longe do alto
Que você pode até ver a Terra fazendo a curva.
Ou que existem músicas que te fazem se sentir sozinho
Mas que eu sempre estaria alí pra um abraço ocasional.
Eu quis dar meu mundo.
Eu a tratei como uma rainha
E ela me disse não.
Não era a hora.
Acontece.
Decidi viver por viver.
Ser mais focado nas minhas coisas.
Deixar meu coração escondido em algum canto
Embaixo do tapete talvez.
Mas hoje,
Nesse exato momento até,
O Jamie me diz
Love ain't gonna let you down
E eu acredito.
O pior é que eu acredito.
Eu ainda acredito nele, por assim dizer.
Escrever sobre o que acontece consigo mesmo é se expor sem necessidade,
É recurso de quem não tem mais talento sobrando, e já se rasgou em todas as formas
Antes de vir aqui e escrever, aliás
Admitir, isso.
Me entregando a minha falta de talento
Digo:
Outrora, noutra família nascesse
Talvez não fosse tão amado.
Ainda em projeto de existência já era esperado
E querido, por assim dizer.
Não posso reclamar.
Dizem as boas línguas que falei e andei cedo
Continuam a dizer as mesmas coisas com o passar dos anos
E, apesar de repetitivo nas festas de família,
Meu ego agradece.
Veja bem, não que meu ego seja tão inflado assim
Você vai ver ainda que eu não tenho muitos motivos pra tê-lo assim
Mas é sempre bom uma massagenzinha.
Fiz um ano e meio
E uma premonição.
Seria feliz dalí uns dezenove anos
E acho que serei feliz daqui a uns tempos de novo.
Me disseram que daqui a quarenta anos estarei comemorando
O aniversário de quinze anos da minha segunda filha.
Ia, ou vai, ser engraçado.
Eu gostaria, pelo menos.
Acredito eu que o desempenho escolar nunca foi realmente um problema.
Na verdade foi sim,
Não passei de primeira na faculdade.
E durante as festas e o calor que separam dezembro de fevereiro
Me atormentaram uns fantasmas que não quero mais encontrar na minha vida.
Ter visto meu avô chorar já foi traumático o suficiente.
De todas as pessoas no mundo
Ele é o último que eu gostaria de desapontar
E por pura imprudência e jovialidade fútil, desapontei.
Mas veja
O fim de fevereiro e o início de março daquele ano traziam novos ventos.
Forçado a voltar a escola, encontrei alguns amigos na mesma situação
É sempre bom estar com amigos.
É sempre bom encontrar o amor sem esperar.
Eu lembro perfeitamente da hora que ela entrou na sala.
Era a segunda semana de aula
E eu já sabia quem ela era
Já a tinha visto antes
Mas não daquele jeito.
Sabe aquela coisa brega de anjos cantando no adorno rosa?
Então
Foi assim.
Ela usava aquela calça clara que eu gostava tanto
E a camisa verde listrada em branco
Os cabelos pretos molhados como que tomara banho e tinha vindo correndo
Com medo de se atrasar...
Sempre tão atrapalhada.
Tomei a decisão de me jogar de verdade pela primeira vez
E durante seis meses foi maravilhoso.
Mas acontece também que se você é um homem
Você vai tomar uma decisão idiota.
E eu tomei.
O que diferencia os homens na verdade é a capacidade de aprender com isso.
É o que eu acho, pelo menos.
Perdi a primeira menina que eu gostei de verdade.
Chorei.
Me machuquei.
Paciência.
Sei que a machuquei também e me dói bastante só de pensar.
Pois bem
Vida que segue.
Em um desses encontros musicais da vida
Reencontrei a segunda pessoa que me fez pensar que o mundo
Nem é tão ruim assim.
Vivi pela primeira vez uma situação que se repetiria ao inverso
Coisa de um ano depois.
Já havíamos frequentado aulas de inglês juntos
Eu sabia que ela cantava.
Ela sabia que eu tocava baixo.
Já tínhamos tentado uma banda antes,que não deu certo.
E do nada resolvemos nos juntar pra tocar de novo.
Mas para tanto, nos encontramos em um barzinho para conversar sobre os destinos
Que tomaríamos dalí por diante.
E ela se atrasou.
Vendo agora, percebo que devo ter feitiche por meninas que se atrasam...
Enfim,
Ela chegou coisa de uns trinta minutos depois do combinado
E todos estávamos à mesa.
Eu lembrava de ter conhecido uma menina
Mas o que eu vi sentar junto a nós na mesa daquele bar na Lopes Trovão
Foi uma mulher.
Uma maquiagem clara por cima dos olhos castanhos
E o vestido verde tomara que caia.
O mesmo que ela usou na noite que nos despedimos pela última vez
No carro dela.
Noite essa na qual percebi que tipo de homem eu era.
Um homem que não aprendeu com a decisão idiota que tomara uns tempos antes
E acabou tomando o mesmo tipo de decisão.
Parabéns a mim mesmo
E para minha natureza estúpida.
Mudaria tanta coisa...
Imploraria a mim mesmo para não ser tão idiota
E não perceber
Que eu deixei a minha felicidade com os olhos cheios d'água
Olhando minhas costas
E depois dirigindo tristemente até a sua casa.
Sei que ela está melhor agora sem mim.
Entrei para a faculdade.
Engenheiro eu seria, ou serei daqui a uns três anos e meio ainda.
Abraços
Palmas
Alegria
No meio daquele ano eu ganhei um carro.
Me chamaram de materialista
Mas que mal há em gozar das coisas que se consegue na vida?
Tudo vem com tanta dificuldade
Eu seria um robô se não comemorasse.
Continuei meu caminho.
E confesso que já tinha desistido
Quando dezembro chegou.
Final de dezembro pra ser preciso.
E pra ser mais preciso ainda
Dia 28.
Um dia que pra mim começou sem nenhuma espectativa
E que proporcionalmente à falta de espectativa
Ficou bastante interessante
Quando após algumas mensagens, eu começaria a viver pela segunda vez
O inverso.
Ela usava uma camisa que flutuava preta.
E calça jeans.
Pouca maquiagem.
E não precisava de mais nada.
Era, e é, linda.
Aliás, fiz questão de dizer isso a ela por todo o tempo e todos os dias
Que passamos juntos.
Saímos
Nos divertimos
E na virada de fim de ano
Quando todos fazem seus desejos,
Eu desejei um mês.
Só um mês
Pra mostrar a ela como tudo podia ser maravilhoso
E quão perfeito nós dois
Poderia soar.
Ganhei dois meses.
Ganhei super poderes
Fiquei mais bonito
Mais inteligente
E tudo isso por causa dela.
Sentia que podia fazer qualquer coisa, queria levá-la para o mundo.
Mostrar que se pode enxergar tão longe do alto
Que você pode até ver a Terra fazendo a curva.
Ou que existem músicas que te fazem se sentir sozinho
Mas que eu sempre estaria alí pra um abraço ocasional.
Eu quis dar meu mundo.
Eu a tratei como uma rainha
E ela me disse não.
Não era a hora.
Acontece.
Decidi viver por viver.
Ser mais focado nas minhas coisas.
Deixar meu coração escondido em algum canto
Embaixo do tapete talvez.
Mas hoje,
Nesse exato momento até,
O Jamie me diz
Love ain't gonna let you down
E eu acredito.
O pior é que eu acredito.
Eu ainda acredito nele, por assim dizer.
domingo, 13 de março de 2011
sábado, 12 de março de 2011
206
Eu voltei pra você
Quantas saudades eu senti
Me sinto infinitamente melhor agora
Não sei como consegui ficar tanto tempo longe
Minha cama.
Quantas saudades eu senti
Me sinto infinitamente melhor agora
Não sei como consegui ficar tanto tempo longe
Minha cama.
quarta-feira, 2 de março de 2011
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
domingo, 27 de fevereiro de 2011
203
Chuva sob a qual sorrio,
Daqui sou o maior folião.
E te grito em desafio
Hoje não me trará solidão.
Porque nos blocos de Carnaval do Rio
O povo se abraça e comemora
Apesar de suas mazelas, ninguém chora
Só de lembrar me dá arrepio.
As baterias esquentam os tamborins
Surdos, cavacos e porta-bandeiras
Comissão de frente e abre-alas
Todos posicionados, para seus devidos fins.
E eu to aqui.
Escutando a tudo isso
Coração na garganta, vibrando um soluço
Que só agradece por existir.
Sou Flamengo de berço
Papa-goiaba de nascença
Irremediavelmente amante do samba
E brasileiro por excelência.
Onde mais me encaixaria
Se não fosse
Nessa multidão?
Esse amor que me serpenteia o corpo todo
Vem de fevereiro em fevereiro
E fica às vezes caso de um ano inteiro
Na lembrança do povo.
As mesmas marchinhas, sempre com um ar novo
Que, não posso negar, continuam me arrebatando
E digo mais, me ressuscitando
De problemas profundos, dos quais não mais sofro.
"Canta forte minha gente, deixa a tristeza pra lá"
Vamos dar os nossos braços e pular.
Pelo menos não irei sozinho
Sabe Chuva, hoje eu quero me alegrar.
Daqui sou o maior folião.
E te grito em desafio
Hoje não me trará solidão.
Porque nos blocos de Carnaval do Rio
O povo se abraça e comemora
Apesar de suas mazelas, ninguém chora
Só de lembrar me dá arrepio.
As baterias esquentam os tamborins
Surdos, cavacos e porta-bandeiras
Comissão de frente e abre-alas
Todos posicionados, para seus devidos fins.
E eu to aqui.
Escutando a tudo isso
Coração na garganta, vibrando um soluço
Que só agradece por existir.
Sou Flamengo de berço
Papa-goiaba de nascença
Irremediavelmente amante do samba
E brasileiro por excelência.
Onde mais me encaixaria
Se não fosse
Nessa multidão?
Esse amor que me serpenteia o corpo todo
Vem de fevereiro em fevereiro
E fica às vezes caso de um ano inteiro
Na lembrança do povo.
As mesmas marchinhas, sempre com um ar novo
Que, não posso negar, continuam me arrebatando
E digo mais, me ressuscitando
De problemas profundos, dos quais não mais sofro.
"Canta forte minha gente, deixa a tristeza pra lá"
Vamos dar os nossos braços e pular.
Pelo menos não irei sozinho
Sabe Chuva, hoje eu quero me alegrar.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
200 - Sobre os Sonhos
Sonhei que um dia seria maior
E tudo ficou mais claro.
Porque se eu continuasse a ter o tamanho que penso ter
Jamais alcançaria meus sonhos.
Um homem deve sonhar além de sua capacidade.
E tudo que estiver dentro desse alcance,
Do possível, provável,
dever ser considerado
Fato.
Os sonhos servem para expandirmos a fronteira que nos limita
Até porque, meu amigo
Nos sonhos não existem limites.
Lembro de ter escutado uma vez um homem falando
Que só devemos compartilhar nossos sonhos
Com pessoas que sonham mais alto que nós.
E é verdade.
Quem sonha mais baixo que você
Vai confundir seu sonho com loucura.
E eu e você sabemos que você não é louco.
Ou pelo menos é tão louco quanto eu.
Eu já quis conquistar o mundo
Já quis ser astronauta
Pensei em ser um grande escritor( não consegui, por assim dizer)
Quero infinitamente ser feliz
E não parar de sonhar nunca.
Porque o sonho é o combustível do homem.
Da Vinci sonhou com o helicóptero
Newton com o movimento dos corpos e sua matemática aplicada
Einstein com um mundo melhor.
Se falharam ou não, é outra história
Mas o importante é que tentaram.
Eles e tantos outros gênios da história de nada seriam
Se não sonhassem.
Não pare de sonhar.
Não pare.
Não se deixe abater com pequenas frutrações e problemas que
Eventualmente
Podem acontecer a qualquer um.
Somos todos idiotas em alguma coisa e isso confere
Até certa graça
Ao mundo.
Você pode realizar algo
Pode ser alguém
Pode ter seu nome marcado na história
Basta, meu amigo
Que sonhe.
Agora
Vamos viver.
Porque sonhar acordado é bom de mais.
E tudo ficou mais claro.
Porque se eu continuasse a ter o tamanho que penso ter
Jamais alcançaria meus sonhos.
Um homem deve sonhar além de sua capacidade.
E tudo que estiver dentro desse alcance,
Do possível, provável,
dever ser considerado
Fato.
Os sonhos servem para expandirmos a fronteira que nos limita
Até porque, meu amigo
Nos sonhos não existem limites.
Lembro de ter escutado uma vez um homem falando
Que só devemos compartilhar nossos sonhos
Com pessoas que sonham mais alto que nós.
E é verdade.
Quem sonha mais baixo que você
Vai confundir seu sonho com loucura.
E eu e você sabemos que você não é louco.
Ou pelo menos é tão louco quanto eu.
Eu já quis conquistar o mundo
Já quis ser astronauta
Pensei em ser um grande escritor( não consegui, por assim dizer)
Quero infinitamente ser feliz
E não parar de sonhar nunca.
Porque o sonho é o combustível do homem.
Da Vinci sonhou com o helicóptero
Newton com o movimento dos corpos e sua matemática aplicada
Einstein com um mundo melhor.
Se falharam ou não, é outra história
Mas o importante é que tentaram.
Eles e tantos outros gênios da história de nada seriam
Se não sonhassem.
Não pare de sonhar.
Não pare.
Não se deixe abater com pequenas frutrações e problemas que
Eventualmente
Podem acontecer a qualquer um.
Somos todos idiotas em alguma coisa e isso confere
Até certa graça
Ao mundo.
Você pode realizar algo
Pode ser alguém
Pode ter seu nome marcado na história
Basta, meu amigo
Que sonhe.
Agora
Vamos viver.
Porque sonhar acordado é bom de mais.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
199
Pra você que acha que o choro é premissa de quem perde
Que um dia de sol prevê chuva
Vai sempre com o pé atrás
E só toca na vida de luva
Pra você que já morreu e nem sabe
Fica alí meio que de banda
Esteve a um passo da vitória
E preferiu se encolher na cama.
Pra você que não gosta de viver a festa que a vida é
Se apequena na hora das decisões
Que acha que perdeu muito só em ter levantado hoje
E sente falta de uma época que nem realmente passou ainda
Pra você que gostaria de saber cantar
Pra você que queria estar viajando agora
Pra você que amaria se pudesse
Pra você que se permitiria se pudesse
Pra você que ainda não sorriu hoje
Pra você que não sorriu de verdade nunca
Eu digo que você pode.
Na verdade,
Podemos.
Me incluo em boas partes disso
Quem disse que não?
Vivamos do jeito certo
Nossa juventude e intrepidez à toda prova.
Brindemos ao espetáculo que é poder acordar
E ter remelas.
Sorrir e gargalhar
Com os dentes reluzindo ao mais puro amarelo.
Seja quem você for
Do jeito que for
Mas seja
Grite
Comemore
Fique com raiva
Xingue
Mas seja.
Queira ser você.
Porque ninguém vai te impedir de ser aquilo que você não é.
Que um dia de sol prevê chuva
Vai sempre com o pé atrás
E só toca na vida de luva
Pra você que já morreu e nem sabe
Fica alí meio que de banda
Esteve a um passo da vitória
E preferiu se encolher na cama.
Pra você que não gosta de viver a festa que a vida é
Se apequena na hora das decisões
Que acha que perdeu muito só em ter levantado hoje
E sente falta de uma época que nem realmente passou ainda
Pra você que gostaria de saber cantar
Pra você que queria estar viajando agora
Pra você que amaria se pudesse
Pra você que se permitiria se pudesse
Pra você que ainda não sorriu hoje
Pra você que não sorriu de verdade nunca
Eu digo que você pode.
Na verdade,
Podemos.
Me incluo em boas partes disso
Quem disse que não?
Vivamos do jeito certo
Nossa juventude e intrepidez à toda prova.
Brindemos ao espetáculo que é poder acordar
E ter remelas.
Sorrir e gargalhar
Com os dentes reluzindo ao mais puro amarelo.
Seja quem você for
Do jeito que for
Mas seja
Grite
Comemore
Fique com raiva
Xingue
Mas seja.
Queira ser você.
Porque ninguém vai te impedir de ser aquilo que você não é.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
195
Segui o rio que dava ladeira à baixo na minha vida.
Segui de olhos abertos pra qualquer coisa que viria.
Tinha juntado numa mochila pesada milhões de coisas inúteis
Dos vários momentos únicos que passei.
Acho que a inutilidade desses objetos era o que os faziam tão belos
A ponto de não me preocupar com o peso que tudo aquilo me custava.
Eventualmente eu parava para beber um pouco daquela água corrente
Que me tangenciava.
Um pouco de refresco para o calor que fazia.
Na verdade, eu me sentia meio perdido só seguindo o curso do rio.
Nem me lembrava mais o porque de estar alí, fazendo aquilo
Mas sentia a necessidade, sabe?
Como se eu acordasse todos os dias
Com a única finalidade de saber onde dava o rio.
De vez em quando eu tenho desses sentimentos
De querer saber de tudo como se fosse criança descobrindo o mundo
Pela primeira vez.
Ultrapassei troncos caídos,
Nadava um pouco
E de noite acendia fogueiras, pra não me sentir só.
Pra te falar a verdade
Ainda não cheguei no fim do rio.
Até hoje sigo por ele
Até hoje vejo o mundo nesse rio.
De vez em quando nado contra a corrente
E de vez em quando deixo me levar.
Vai que esse rio me leva
Pro exato lugar
No exato momento
Que eu deveria estar?
E se não levar?
Só tem um jeito de descobrir.
Continuo a caminhar.
Segui de olhos abertos pra qualquer coisa que viria.
Tinha juntado numa mochila pesada milhões de coisas inúteis
Dos vários momentos únicos que passei.
Acho que a inutilidade desses objetos era o que os faziam tão belos
A ponto de não me preocupar com o peso que tudo aquilo me custava.
Eventualmente eu parava para beber um pouco daquela água corrente
Que me tangenciava.
Um pouco de refresco para o calor que fazia.
Na verdade, eu me sentia meio perdido só seguindo o curso do rio.
Nem me lembrava mais o porque de estar alí, fazendo aquilo
Mas sentia a necessidade, sabe?
Como se eu acordasse todos os dias
Com a única finalidade de saber onde dava o rio.
De vez em quando eu tenho desses sentimentos
De querer saber de tudo como se fosse criança descobrindo o mundo
Pela primeira vez.
Ultrapassei troncos caídos,
Nadava um pouco
E de noite acendia fogueiras, pra não me sentir só.
Pra te falar a verdade
Ainda não cheguei no fim do rio.
Até hoje sigo por ele
Até hoje vejo o mundo nesse rio.
De vez em quando nado contra a corrente
E de vez em quando deixo me levar.
Vai que esse rio me leva
Pro exato lugar
No exato momento
Que eu deveria estar?
E se não levar?
Só tem um jeito de descobrir.
Continuo a caminhar.
194
Eu te...
Acho linda.
Entra aí no carro
Ainda estou com meio tanque
E pra qualquer coisa
Tenho dez reais na carteira.
Vamos embora daqui.
Vamos fugir.
Vamos agora.
Entra aí.
Acho linda.
Entra aí no carro
Ainda estou com meio tanque
E pra qualquer coisa
Tenho dez reais na carteira.
Vamos embora daqui.
Vamos fugir.
Vamos agora.
Entra aí.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
192
Vai que sua vida é avenida
E você só tem que desfilar?
Vai que o samba já está armado
E o que você quer é sambar?
Já pensou em como seria tudo tão bom
Se a gente se entregasse de vez
E ouvisse o som
Da nossa própria surdez?
Quem te disse que a gente não dança conforme a música?
Quem te disse que a gente dança?
Então Maricota,
Convida o seu mulato pra roda
Deixa o futuro batucar.
Deixa o gingado correr solto
Até o dia clarear.
E se o pessoal todo da rua reclamar
Eu digo que eles não só estão tristes com o destino
Como também
Não sabem sambar.
E você só tem que desfilar?
Vai que o samba já está armado
E o que você quer é sambar?
Já pensou em como seria tudo tão bom
Se a gente se entregasse de vez
E ouvisse o som
Da nossa própria surdez?
Quem te disse que a gente não dança conforme a música?
Quem te disse que a gente dança?
Então Maricota,
Convida o seu mulato pra roda
Deixa o futuro batucar.
Deixa o gingado correr solto
Até o dia clarear.
E se o pessoal todo da rua reclamar
Eu digo que eles não só estão tristes com o destino
Como também
Não sabem sambar.
190
Que de tempos em tempos o vento sopra
É meio óbvio.
E é mais óbvio ainda dizer que ventos carregam algumas coisas
Seja pra que lado for.
Se trazem pra perto devemos aceitar, conviver, concordar
E da mesma forma deve ser com as coisas que ele carrega pra longe.
O vento na sua eterna e sábia insensatez
Nos mostra outros caminhos
Outros lugares
Muda nosso pensamento.
E em todas essas linhas até agora
Eu me debulhei em clichês.
Porém, ainda existe um não-clichê sobre o vento
Que eu descobri ontem
E gostaria de te falar:
O vento só sopra aquilo que se deixa levar.
É meio óbvio.
E é mais óbvio ainda dizer que ventos carregam algumas coisas
Seja pra que lado for.
Se trazem pra perto devemos aceitar, conviver, concordar
E da mesma forma deve ser com as coisas que ele carrega pra longe.
O vento na sua eterna e sábia insensatez
Nos mostra outros caminhos
Outros lugares
Muda nosso pensamento.
E em todas essas linhas até agora
Eu me debulhei em clichês.
Porém, ainda existe um não-clichê sobre o vento
Que eu descobri ontem
E gostaria de te falar:
O vento só sopra aquilo que se deixa levar.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
189
Acho que não tenho mais o que dizer.
Nem dormi direito.
Preferi ficar deitado olhando o céu.
Porque de 2010 a gente podia ter pulado pra 2012.
Nem dormi direito.
Preferi ficar deitado olhando o céu.
Porque de 2010 a gente podia ter pulado pra 2012.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
188
Só cuida dessa sua tosse
E dá uma descansada
Porque eu te quero inteira
Para os amanhãs da minha vida.
E dá uma descansada
Porque eu te quero inteira
Para os amanhãs da minha vida.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
187
Então
Você tá vendo lá no alto?
Sou eu.
Eu sou o cara do foguete
Sou eu que agora furo as nuvens
E comparo as pessoas a formiguinhas.
Sou eu que descubro novos mundos
E o que pensaria de mim Colombo
Se me encontrasse por acaso aqui em entre as estrelas?
Essa viagem já demora meses.
Talvez nem volte.
Tenho saudades.
E digo no plural porque são muitas
Mas esse é o meu trabalho.
É meio frio e vazio aqui no espaço.
De vez em quando ainda me confundo com tantos botões na minha frente,
De vez em quando penso que ainda sou aquela criancinha
Que brincava de astronauta no quintal de casa.
Provavelmente ainda sou.
Talvez seja mais.
Eu sou o cara do foguete.
Não mais no quintal
Na imensidão, entretanto.
O som não se propaga no vácuo
Mas se esse fato não fosse verdade
Talvez vocês aí da Terra me ouviriam choramingar baixinho
Sobre as coisas daí.
Sabe, só quando a gente está longe é que percebe o quão grandes são
As pequenas coisas.
Acordar de manhã com o calor do sol no rosto
E já faz um ano que eu não sei o que é respirar ar puro.
Comer morangos.
Hmmmm
Comer morangos.
Olhar nos olhos de quem se ama.
Saber que toda uma história foi escrita hoje
E que pode continuar a ser escrita amanhã
Sem pausas
Sem saudade
Sem ligações no meio da noite dizendo que você foi escolhido
E tem que decolar amanhã.
Sem despedidas em pleno nascimento do seu segundo filho.
Sem lágrimas.
Venço o tédio a cada segundo
Ajudado por minhas lembranças.
E a cada segundo não sei se me aproximo do meu destino
Ou fico mais perdido.
Dois meses atrás perdi contato com a base
E provavelmente essa será minha última carta
Os mantimentos acabaram
E eu estou usando tudo o que sobrou de mim
Pra colocar meu coração nesse relato.
Se por acaso você encontrou esse papel
É porque não consegui voltar.
Voltar era tudo que eu queria.
Voltar pra eles
Voltar pra mim
Voltar pra ela.
Voltar pra ela.
Se por um acaso um dia meus filhos perguntarem quem fui
Diga-os
Que eu fui o cara do foguete.
Que ultrapassei o céu.
Que fui onde nenhum outro homem jamais foi.
Que fui o maior explorador de todos.
E diga que os amei
E que a amei.
E que agora estou bem,
Afinal de contas
Eu sou o cara do foguete.
Você tá vendo lá no alto?
Sou eu.
Eu sou o cara do foguete
Sou eu que agora furo as nuvens
E comparo as pessoas a formiguinhas.
Sou eu que descubro novos mundos
E o que pensaria de mim Colombo
Se me encontrasse por acaso aqui em entre as estrelas?
Essa viagem já demora meses.
Talvez nem volte.
Tenho saudades.
E digo no plural porque são muitas
Mas esse é o meu trabalho.
É meio frio e vazio aqui no espaço.
De vez em quando ainda me confundo com tantos botões na minha frente,
De vez em quando penso que ainda sou aquela criancinha
Que brincava de astronauta no quintal de casa.
Provavelmente ainda sou.
Talvez seja mais.
Eu sou o cara do foguete.
Não mais no quintal
Na imensidão, entretanto.
O som não se propaga no vácuo
Mas se esse fato não fosse verdade
Talvez vocês aí da Terra me ouviriam choramingar baixinho
Sobre as coisas daí.
Sabe, só quando a gente está longe é que percebe o quão grandes são
As pequenas coisas.
Acordar de manhã com o calor do sol no rosto
E já faz um ano que eu não sei o que é respirar ar puro.
Comer morangos.
Hmmmm
Comer morangos.
Olhar nos olhos de quem se ama.
Saber que toda uma história foi escrita hoje
E que pode continuar a ser escrita amanhã
Sem pausas
Sem saudade
Sem ligações no meio da noite dizendo que você foi escolhido
E tem que decolar amanhã.
Sem despedidas em pleno nascimento do seu segundo filho.
Sem lágrimas.
Venço o tédio a cada segundo
Ajudado por minhas lembranças.
E a cada segundo não sei se me aproximo do meu destino
Ou fico mais perdido.
Dois meses atrás perdi contato com a base
E provavelmente essa será minha última carta
Os mantimentos acabaram
E eu estou usando tudo o que sobrou de mim
Pra colocar meu coração nesse relato.
Se por acaso você encontrou esse papel
É porque não consegui voltar.
Voltar era tudo que eu queria.
Voltar pra eles
Voltar pra mim
Voltar pra ela.
Voltar pra ela.
Se por um acaso um dia meus filhos perguntarem quem fui
Diga-os
Que eu fui o cara do foguete.
Que ultrapassei o céu.
Que fui onde nenhum outro homem jamais foi.
Que fui o maior explorador de todos.
E diga que os amei
E que a amei.
E que agora estou bem,
Afinal de contas
Eu sou o cara do foguete.
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