Todo mundo sabe que só se deve escrever sobre as outras coisas.
Escrever sobre o que acontece consigo mesmo é se expor sem necessidade,
É recurso de quem não tem mais talento sobrando, e já se rasgou em todas as formas
Antes de vir aqui e escrever, aliás
Admitir, isso.
Me entregando a minha falta de talento
Digo:
Outrora, noutra família nascesse
Talvez não fosse tão amado.
Ainda em projeto de existência já era esperado
E querido, por assim dizer.
Não posso reclamar.
Dizem as boas línguas que falei e andei cedo
Continuam a dizer as mesmas coisas com o passar dos anos
E, apesar de repetitivo nas festas de família,
Meu ego agradece.
Veja bem, não que meu ego seja tão inflado assim
Você vai ver ainda que eu não tenho muitos motivos pra tê-lo assim
Mas é sempre bom uma massagenzinha.
Fiz um ano e meio
E uma premonição.
Seria feliz dalí uns dezenove anos
E acho que serei feliz daqui a uns tempos de novo.
Me disseram que daqui a quarenta anos estarei comemorando
O aniversário de quinze anos da minha segunda filha.
Ia, ou vai, ser engraçado.
Eu gostaria, pelo menos.
Acredito eu que o desempenho escolar nunca foi realmente um problema.
Na verdade foi sim,
Não passei de primeira na faculdade.
E durante as festas e o calor que separam dezembro de fevereiro
Me atormentaram uns fantasmas que não quero mais encontrar na minha vida.
Ter visto meu avô chorar já foi traumático o suficiente.
De todas as pessoas no mundo
Ele é o último que eu gostaria de desapontar
E por pura imprudência e jovialidade fútil, desapontei.
Mas veja
O fim de fevereiro e o início de março daquele ano traziam novos ventos.
Forçado a voltar a escola, encontrei alguns amigos na mesma situação
É sempre bom estar com amigos.
É sempre bom encontrar o amor sem esperar.
Eu lembro perfeitamente da hora que ela entrou na sala.
Era a segunda semana de aula
E eu já sabia quem ela era
Já a tinha visto antes
Mas não daquele jeito.
Sabe aquela coisa brega de anjos cantando no adorno rosa?
Então
Foi assim.
Ela usava aquela calça clara que eu gostava tanto
E a camisa verde listrada em branco
Os cabelos pretos molhados como que tomara banho e tinha vindo correndo
Com medo de se atrasar...
Sempre tão atrapalhada.
Tomei a decisão de me jogar de verdade pela primeira vez
E durante seis meses foi maravilhoso.
Mas acontece também que se você é um homem
Você vai tomar uma decisão idiota.
E eu tomei.
O que diferencia os homens na verdade é a capacidade de aprender com isso.
É o que eu acho, pelo menos.
Perdi a primeira menina que eu gostei de verdade.
Chorei.
Me machuquei.
Paciência.
Sei que a machuquei também e me dói bastante só de pensar.
Pois bem
Vida que segue.
Em um desses encontros musicais da vida
Reencontrei a segunda pessoa que me fez pensar que o mundo
Nem é tão ruim assim.
Vivi pela primeira vez uma situação que se repetiria ao inverso
Coisa de um ano depois.
Já havíamos frequentado aulas de inglês juntos
Eu sabia que ela cantava.
Ela sabia que eu tocava baixo.
Já tínhamos tentado uma banda antes,que não deu certo.
E do nada resolvemos nos juntar pra tocar de novo.
Mas para tanto, nos encontramos em um barzinho para conversar sobre os destinos
Que tomaríamos dalí por diante.
E ela se atrasou.
Vendo agora, percebo que devo ter feitiche por meninas que se atrasam...
Enfim,
Ela chegou coisa de uns trinta minutos depois do combinado
E todos estávamos à mesa.
Eu lembrava de ter conhecido uma menina
Mas o que eu vi sentar junto a nós na mesa daquele bar na Lopes Trovão
Foi uma mulher.
Uma maquiagem clara por cima dos olhos castanhos
E o vestido verde tomara que caia.
O mesmo que ela usou na noite que nos despedimos pela última vez
No carro dela.
Noite essa na qual percebi que tipo de homem eu era.
Um homem que não aprendeu com a decisão idiota que tomara uns tempos antes
E acabou tomando o mesmo tipo de decisão.
Parabéns a mim mesmo
E para minha natureza estúpida.
Mudaria tanta coisa...
Imploraria a mim mesmo para não ser tão idiota
E não perceber
Que eu deixei a minha felicidade com os olhos cheios d'água
Olhando minhas costas
E depois dirigindo tristemente até a sua casa.
Sei que ela está melhor agora sem mim.
Entrei para a faculdade.
Engenheiro eu seria, ou serei daqui a uns três anos e meio ainda.
Abraços
Palmas
Alegria
No meio daquele ano eu ganhei um carro.
Me chamaram de materialista
Mas que mal há em gozar das coisas que se consegue na vida?
Tudo vem com tanta dificuldade
Eu seria um robô se não comemorasse.
Continuei meu caminho.
E confesso que já tinha desistido
Quando dezembro chegou.
Final de dezembro pra ser preciso.
E pra ser mais preciso ainda
Dia 28.
Um dia que pra mim começou sem nenhuma espectativa
E que proporcionalmente à falta de espectativa
Ficou bastante interessante
Quando após algumas mensagens, eu começaria a viver pela segunda vez
O inverso.
Ela usava uma camisa que flutuava preta.
E calça jeans.
Pouca maquiagem.
E não precisava de mais nada.
Era, e é, linda.
Aliás, fiz questão de dizer isso a ela por todo o tempo e todos os dias
Que passamos juntos.
Saímos
Nos divertimos
E na virada de fim de ano
Quando todos fazem seus desejos,
Eu desejei um mês.
Só um mês
Pra mostrar a ela como tudo podia ser maravilhoso
E quão perfeito nós dois
Poderia soar.
Ganhei dois meses.
Ganhei super poderes
Fiquei mais bonito
Mais inteligente
E tudo isso por causa dela.
Sentia que podia fazer qualquer coisa, queria levá-la para o mundo.
Mostrar que se pode enxergar tão longe do alto
Que você pode até ver a Terra fazendo a curva.
Ou que existem músicas que te fazem se sentir sozinho
Mas que eu sempre estaria alí pra um abraço ocasional.
Eu quis dar meu mundo.
Eu a tratei como uma rainha
E ela me disse não.
Não era a hora.
Acontece.
Decidi viver por viver.
Ser mais focado nas minhas coisas.
Deixar meu coração escondido em algum canto
Embaixo do tapete talvez.
Mas hoje,
Nesse exato momento até,
O Jamie me diz
Love ain't gonna let you down
E eu acredito.
O pior é que eu acredito.
Eu ainda acredito nele, por assim dizer.
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