terça-feira, 30 de junho de 2009

65

Eu tenho a dor de gostar de alguém
E é dor sim, pois se não doí não é amor.
Não direi que é fogo que arde sem doer
Nem tão pouco que é ferida
Pois se tanto fosse eu já teria morrido
E isso eu deixo pros românticos.

Talvez estivesse guardado a muito
E só pelo fato de crescer tão rápido
Chega a doer.
É quase que um soluço e me aperta o peito
Mas isso eu deixo pros médicos.

Eu crio as minhas dores
Mas a parte que me cabe de verdade
É só a de gostar de alguém mesmo
E isso fica pra mim.

64

Diga lá
Que é pra não dizer nada.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

63

Comprei uma meia dúzia de luas,
Alí na vendinha da esquina
Talvez eu precise de mais algumas
Pra me lembrar do seu rosto de menina

E essas luas passam rápido
Tão rápido que deixam uns rastros brilhantes
Porém, mais brilhante que isso tudo
Eram seus olhos inocentes e provocantes.

Quem me beija agora é um pouco mais frio do que você foi
O vento aqui no parapeito desse prédio
Não me deixa qualquer dúvida do que vem depois
Vai ser tão rápido que não haverá remédio.

Já me aprontei, arrumei meu apartamento
Me despedi pela quita vez dos meus amigos
Dessa vez não há como relutar, esse é o momento
Para fugir de vez da tristeza e do passado, infinitos.

E não, não me venha você também me impedir
É agora que acontece o fim verdadeiro
Simplesmente estender os braços e deixar cair
Tão sonhada solução, lá embaixo, no chão será o celeiro

Das minhas ilusões.

De repente são elas que caem e não eu
Permaneço estático, imóvel, pálido
Na rua eu vejo quem me socorreu
Aquele barulho foi tão assustador que me fez descer ávido.

Eu sabia quem era
Não queria reconhecer
Talvez não seja o fim que se espera
Mas irei lhe dizer

Estendida, com lágrimas no olhar vazio
Estava ela
Que talvez tenha percebido o mesmo que tinha me ocorrido
O fim seria outro se não tivesse fugido...
Quem dera...

Preferiu ir com outro e não aguentou.
Achei que era o mais derrotado
Não fui eu quem mais amou.
Mesmo com outro, percebeu o feito errado
E para se punir, pulou.

Que covarde que sou.
Belo salvador que não consegue pular atrás.
Minha punição é viver pra sempre com essa dor.
Pra me punir, não pulo mais.

terça-feira, 23 de junho de 2009

62

Começa a frase pelo final
Estufa o peito e se proclama perdedor
Sabe-se lá como veste as calças
Anda de costas o pobre rapaz.

Sobe a rua olhando quem foi
E perde no assalto pra tudo que vem
Essa vida, a mãe falou, foi ele que quis
Nunca aprendeu, coitado, nunca foi capaz.

Não falta vivacidade pois.
Consegue à seu modo tudo que quer
Mesmo que seja cama de faquir
Ou até mesmo guerrear por paz.

E todo mundo na rua canta:

Vai...vai todo torto
Que o dia ainda é cedo
E o que sabe da vida é tão pouco...

Todo mundo na rua errado.
Não tem no bairro ninguém mais sábio
Nem tão sagaz.

terça-feira, 16 de junho de 2009

61

E o mais legal
É que rimando tudo igual
Eu rimo do jeito que eu quiser.

60

O descompasso faz a dança mais estranha que já se viu
O batimento, confuso, não sabe se contrai ou relaxa
Se ri ou se chora, nada tem tanto primor nem faz tanta graça
Na verdade, nem faz tanta falta
Tanto faz céu escuro ou anil.

As pessoas se entreolham desoladas
E os curiosos se amontoam uns pelas costas dos outros
Fazem fila, mas os tristes são poucos
Um murmurar de qualquer coisa, tão agridoce, tão solto
Que parece ir sozinho pelas estradas.

O silêncio, aquele que fez o discurso mais demorado e cravado em desalento,
Faz ecoar a palavra mais solene
E a oração de todos se fez perene
Aquele que alí está, cá já esteve
Agora nos resta o sofrimento.

E o que menos sofre é o carregado
Tem até um sorriso meio que em paz
Vejo só, o que esse momento a ele faz
De todos que estão alí atrás
Ele é o mais sóbrio, o mais lúcido, o mais humanizado

Eu parei o carro só pra ver o velório se desenrolar
Mas eu acho que nunca aprendi tanto
Mesmo estando morto
Me passou um casto ensinamento
Sorria, até no dia em que a vida acabar
Sorria, até o último momento.

59

Eu nem tinha dentes ainda
E já tinha que pegar um avião
Minha mãe, toda sabida
Falou que talvez meu pai esquecia
Da mala de mão.

Papai voltou correndo
E percebeu que na mala só tinha papel
Suspirou aliviado,
E já recuperado
Indagou ao céu:

-Que será isso mulher?

-É o alimento do nosso filho
Agora volte, esqueceu a colher.

Meu pai me olhou,
Respirou fundo
E tirou a caneta do bolso.

"Toma filho, é só usar à seu gosto."

Desde aquele dia
Não só de pão vive o homem em mim
Mas é na escrita que encontro a alegria
E o prazer de ser assim

Um tanto de faminto,
Um tanto de criança,
Um tanto de infinito
Perdido num mundo dos poetas.

58

Esse é o poema de duas estrofes
E talvez sua metalinguística seja tudo
Que de mais rebuscado
Possa oferecer

Sabe como é ser poema
Tem dias em que se está barroco
E tem dias
De ignorância mesmo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

57

O nosso mundo é muito mais divertido do que o dos outros
Porque ele acaba de três em três semanas
E é muito mais fácil reconstruir o nosso prédio em chamas
Do que ajuntar as pedras daqueles loucos.

Sim, pois os locos são eles
Nós que estamos certos de sermos do jeito que somos.
Vai dizer que não é bom nos perder pelos cantos?
Qual fugitivos, pra nós, não existem paredes

É meu bem...já faz um tempo que as cartas já não dizem mais nada
Chega uma hora em que não é hora para palavras
E talvez o que eu mais precise agora é da sua risada
Enquanto o tempo deixa as janelas escancaradas.

Quanto mais esse tempo passa
Menos parece que passou.
Porque esse não é o mundo dos outros
É o nosso mundo
Que é muito mais divertido do que o daqueles poucos.

56

É muito engraçado, porque quanto mais inteligente eu tento parecer, mais idiota eu me revelo.

Parabéns pra mim.
E pro cara que inventou essa frase que eu colei.

55

Nós que somos os mais pobres de alma
Temos em nós mesmos um quê de pena
Nossos pés, agora pintados de cores dos outros
Tendem, aos poucos, a descolorir.

A nossa mente já não tem pressa
Arrasta o tempo que nos resta
Empurrando com a barriga aqueles
Que nem de longe podemos ver.

Quiçá podemos caminhar até eles
E nos faltam orelhas
Pra escutar do que falam
Ou sobre o que perjuram.

Nós juramos,
Juramos ao sol que nos queima o topo da beça
"Se eu pudesse tocar alí..."
Pena que alí é tão longe quanto perto.

A ponta do dedo já faísca
Os olhos faíscam
Os dentes faíscam
Os bolsos faíscam.

Não importa
Ainda somos os famosos pobres de alma
E a nossa melodia murmurosa
Ainda vai perdurar muito por aí.

Por mais que vejamos nossas raízes queimarem
Soltas no solo seco de nossa criação
Ainda não moveríamos uma palha
Somos ninguém numa multidão.

Somos os pobres de alma
E temos em nós mesmos
Um alfabeto da mais valorosa
Pena

Pena de ninguém.

domingo, 7 de junho de 2009

54

Quando eu era assim bem novo,
Coisa de dez anos de idade
Perguntaram pra mim, quando fosse moço
O que seria.
Sem a menor maldade
Eu falei:

Vou ser doutor.

Graças à Deus eu errei.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

53

Espero que consiga, em qualquer por acaso estar ao lado de quem me quer bem.
A verdade é que quando estou sozinho, minha felicidade me esquece também.
O socorro vem de longe, mas é tão perto que já posso olhar
Um pouco da sombra, da silueta, daquela que vem fazendo o luar.

E é de noite que a vejo, sempre branca, alva e tão cheia de si
Vem com carinho, pra devagarzinho, te acolher junto a mim.
Não quer morar aqui pra sempre aqui no meu travesseiro?
Não -ela responde- sou do mundo inteiro.

Então vai, minguante desgraça.
Deixa voltar aquele que te arrasta.
É de sol que eu decido agora viver.
Aos meus dias, nunca mais, eu disse nunca mais, anoitecer.

52

flutuar e ter onde pousar
Saber que tudo pode um dia ser
Um pouco
Um pouquinho só
Melhor.

51

Somos palavras ou ainda um conjunto de letras avulsas?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

50

O que se paga nessa vida
É o preço de sozinho ser
Em cada sinuosa esquina
Mais um pra (diz que não...) sofrer.

É verdade que se paga
Mas não é só por pagar.
É o pedágio, meu filho...
Essa parte há de passar
E passa, ah...essa parte.
É só a certa sorrir
E quando ela te olhar
Tudo passa.

O que se tem nessa vida é de morrer.
Se sentir mal amado, e (diz que não...)
Sofrer.

É verdade que um dia iremos, meu filho
É o imposto, o fisco, de viver.
Não há, pois, de se sentir mal amado.
São as nuances da vida.
E por ela (eu sei...) estás apaixonado.

O que acontece nessa vida é o querer e não ter.
Quase conseguir, e (diz que não...)
Sofrer.

Não temos tudo o que queremos, meu filho
Está certo.
Mas não teria graça a vida sem a luta
E você devia mudar sua conduta
O bedel da sua escola
Já me disse que você se demora...
Demora...demora...
E na hora de responder à professora, só olha.
Onde está você, me diga.

O que acontece nessa vida, meu pai
É que eu sofro
Eu morro
Eu quero e não tenho.
Diz pra ela pai,
Diz pra ela que ela é, de toda noite, meu sonho.

Pra quem, meu filho?

Para a razão do que me padece
É por ela pai, que o mundo acontece.

Quem, filho?

A professora, papai.
Pena que é casada.

49

Não,
Essa não é a verdade.