quinta-feira, 24 de março de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo(Parte 1)

Talvez esse não seja o começo da história mas como a história é minha, eu a começo por onde bem entender. Eu montava Getúlio enquanto corríamos com toda velocidade que alguém pode conseguir de um cavalo com quatro patas esquerdas. É. Getúlio tinha quatro patas esquerdas, todas em seus devidos lugares, mas todas esquerdas.E nessa hora corriam como vento. Eu preferia tê-lo chamado de Getúlio Pé de Vento, no entanto, Pé Esquerdo foi o apelido que pegou assim que a garotada ficou sabendo da peculiaridade do cavalo do novo mocinho da cidade. Título que eu ganhara merecidamente caso de três semanas atrás.

Nada disso importava agora, só os tiros que ricocheteavam atrás de mim e nas pedras que serpenteavam nosso caminho. Getúlio as ignorava. Passava por cima de cada uma como se nada fosse, machucando cada vez mais seus cascos nus, que só estavam assim pela pressa na qual partimos quando invadiram meu quartinho. Tive sorte de encontrar Getúlio ainda pastando do lado de fora da hospedaria, se eles fossem mais espertos, saberiam que a minha única chance de escapar era o cavalo.

Eles se aproximam.
E uma ponte também.

Nunca em toda minha vida Getúlio recuou de um obstáculo que fosse, cavalo sensacional, não o trocaria por nada.

A ponte é bamba, Getúlio pisa em falso e o mundo desaba do penhasco.

Lembro do dia em que eu ainda era pequeno, e o meu pai me deu um par de botas com esporas. Acho que foi o segundo melhor dia da minha vida. Era cedinho e o sol ainda sentia certa preguiça tardando assim em aparecer por trás da paisagem verde. Foram bons os meus dias naquela fazenda. Corria-se muito, aprendia-se as maravilhas do trabalho pesado e do esforço recompensado. O suor na testa era o fardo e o galardão.
Tudo ia bem.

Foi em um dia chuvoso, pra depois das dez da noite, que conheci Getúlio. A melhor égua do meu pai entrara em trabalho de parto e todos correram para ver o que aconteceria. Trovejava bastante e talvez pudéssemos perder alguma parte da plantação que já se encontrava em estado de calamidade. Água, muita água. Foi assim que ele veio ao mundo. Com muita água.

Mais tarde, reparando no andar do potro, percebemos que ele cambaleava para a esquerda e obviamente achamos tal fato muito esquisito - O que andamos pondo na bebida dele? - nos perguntávamos. Nessa hora papai tomou o potro nos seus braços e olhou para suas patas. Eram levemente deslocadas para a esquerda. Todas elas. Eu sorri.

Simpatizei com ele desde o início.

Sempre gostei de cavalos, principalmente dos velozes, então sempre os montava para ver qual era o mais rápido. Um dia, ao ver que a musculatura de Getúlio já se desenvolvera suficientemente, resolvi montá-lo.

Ele não simpatizou comigo.

Caí umas cinquenta vezes da sela que arduamente botei em suas costas. Ele era jovem, forte e teimoso. Qualidades das quais, modéstia parte, eu compartilhava com ele. Permanecemos nessa luta por horas até nos cansarmos e eu cair no sono em campo aberto.

Acontece que meu pai tinha vícios e, em uma partida de poker, decidiu mudar o rumo das nossas vidas. Apostou a fazenda em um par de ases. Perdeu tudo para um full house. Ironias da vida. Ele tinha se recusado a cumprir a aposta uma semana depois alegando que estava bêbado e que nada do que tinha feito podia ser considerado. Mas com esse tipo de gente não se brinca. Eu tinha dezessete anos e acordei com fumaça em minhas narinas.

Estava deitado a quinhentos passos da casa e tudo que pude fazer foi sair correndo desesperadamente de encontro ao inferno que se formara logo alí. É esquisito ver sua casa queimar. Sua história, seus laços, suas raízes, tudo em chamas. Chorei. Ao me aproximar, alguns dos homens mandados àquele trabalho ainda estavam do lado de fora e me seguranram. Pegaram meus braços enquanto me debatia e me forçaram a assistir tudo. Impotente, fraco. Ainda ouço os gritos do meu pai e da minha mãe ecoando na cabeça. Ainda cerro o punho ao pensar nos rostos daqueles homens, ainda posso sentir o cheiro de carne queimando.

Então chegou a minha vez. De frente para o cenário vermelho, forçaram meus ombros e eu não tive nenhum motivo para me manter de pé. De joelhos observei o cano frio da pistola e tive meus primeiros últimos pensamentos. Seria alí meu fim.

Não se dependesse de Getúlio.

Como que nos filmes de ação, meu pangaré canhoto, bem nascido e bem cuidado surgiu detrás da confusão furioso. Ele tinha chamuscado o pêlo no lado da costela direita em um formato de meia lua. Era negro como meus pensamentos, era rápido como a bala que evitou me acertarem. Antes que eu pudesse ver, meu carrasco estava no chão e Getúlio se inclinou levemente como quem oferece carona a um velho amigo, como quem sabia estender a mão na hora certa, como se ele soubesse o que eu estava sentindo. E eu acho que ele sabia. Montei, fugi.

Cinco anos se passaram de modos que ninguém me reconheceu quando voltei. À essa altura já tinha vivido muitas coisas mas a constante na minha vida era o fiel Getúlio. Passei noites com frio, dias com fome, fui vaqueiro, fui trabalhador na terra dos outros e Getúlio se mantinha firme. Aprendi a me defender da vida, nunca mais ninguém me colocaria de joelhos nem deixaria que isso acontecesse às pessoas que não fizeram nada. Não enquanto tivesse o meu par de botas e meu cavalo ao lado. Nunca mais.

Era bom estar em casa. A velha cidade, o velho barbeiro, as mesmas pessoas. Me perguntava como estaria o bar. Não que me preocupasse com sua aparência em si, mas depois dos vinte, todas as horas me pareciam uma boa hora para um drinque. Deixei Getúlio à porta.

Lá dentro alguém tocava um piano nervoso, muitas pessoas bebiam e aparentemente uma pequena briga ia se formando mas nada que não fosse justificado pela bebedeira do local. Me sentei na bancada do bar e ao levantar os olhos mudei o rumo da minha vida pela segunda vez.

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