terça-feira, 29 de março de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 4)

O xerife me olhava perplexo. Não sei se abismado com a prisão que eu acabara de fazer ou pelo fato de ter saído vivo. Seja lá qual foi o motivo, ele estava perplexo. No momento em que apontei minha pistola para o rosto do bandido ouvi suspiros aliviados, comemorações contidas e juro que vi uma velha senhora dando um pequeno murro de comemoração no ar mas nada mais que isso. A alegria que eu achava trazer não era um consenso geral, pelo visto.

- Você sabe que as grades não o irão manter preso.

E só nessa hora eu pensei nisso. Obviamente a decisão mais sensata seria meter logo uma bala na cabeça do mequetrefe e resolver a situação, é duro ter um coração bondoso. Enfim, a prisão já estava feita. Não mataria o bandido sem nenhuma chance de defesa ou risco de real perigo. Não atiraria em um homem desarmado sem motivo aparente... Eu deveria ter feito uma excessão...

Alegando não mais aguentar as pressões do cargo, o xerife me entregou seu distintivo alí mesmo fazendo uma última ressalva:

- Este que você prendeu é José Caballero, braço direito do maior fora-da-lei que essas terras já viram.

Nem precisava perguntar quem era o tal vilão da história, eu já sabia seu nome. Era Signore Migiorinni.

Eu estava trabalhando de vaqueiro em um rancho ainda me recuperando dos ferimentos de raspão que eu ganhei fugindo da loucura e dos tiros do pai de Marluce quando ouvi pela primeira vez esse nome. Ele era o mandatário de uma série de assassinatos que andavam acontecendo na região. Basicamente todos por conta de dívidas e disputas por terras. Se Migiorinni queria, Migiorinni tinha. Todos que não cumpriam suas severas leis eram punidos exemplarmente. Corpos dilacerados, cabeças arrancadas, escalpos à moda indígena. De vez em quando aparecia esse tipo de aviso pelos lugarejos que circundavam suas zonas de atuação como se fossem um lembrete do que acontecia com quem desafiava sua autoridade.

Meu empregador tinha uma política diferente da de Valdim. Willie era pacifista convicto, odiava armas e fazia de tudo para que seus empregados ficassem longe de confusão. Nós ficávamos quietos e ele assegurava a paz. Passei dois anos em silêncio. Passei dois anos aperfeiçoando minha pontaria. Passei dois anos treinando minhas técnicas de cavalgada. Na noite, ensaiava com as minhas sombras e ninguém desconfiava.

Um belo dia acordei, selei Getúlio, pedi minhas contas à Willie e decidi voltar pra casa.

O prefeito em pessoa veio à delegacia. Procurou pelo antigo xerife e vendo o distintivo em minha mão, suspirou cabisbaixo:

- Já é o décimo em cinco anos. Ou fogem ou morrem. Pobres homens, espero que você tenha mais sorte.

Agradeceu pela prisão de Caballero com um ar cansado e desiludido se retirando logo após. Tudo estava acontecendo muito rápido. Eu tinha chegado na cidade, me apaixonado pela garçonete do bar, apanhado, prendido um homem altamente perigoso e virado xerife. Tudo em menos de 4 horas. A vida é mesmo uma coisa engraçada. Eu, que tinha saído fugido do lugar, agora era o responsável máximo pela sua segurança. Ironias da vida.

Respirei, pendurei a estrela com o dourado bem desgastado no peito e fui dar uma olhada no lado de fora da delegacia. Getúlio fazia o maior sucesso.

As crianças o cercavam querendo olhar suas patas, a marca em sua lateral, sua pelagem e ele, que não gostava nada de se mostrar, se empenava todo, estufava o peito, cavalo bobo que só ele. Nada mais engraçado que um pangaré metido à alasão orgulhoso. Sorri. Todos finalmente estavam reconhecendo aquilo que eu já sabia desde o seu nascimento, Getúlio era especial.

Alguma criança gritou:

- Ele só tem patas esquerdas!

Daí em diante já era. Getúlio Pé Esquerdo virou seu nome. Pegou fácil.

Enquanto olhava toda a situação, ela apareceu de novo. A moça do bar, de cabelos ruivos e agora com um sorriso de apagar o sol:

- Você foi muito corajoso lá no bar. Há tempos não via homens assim por aqui.

- Então hoje é seu dia de sorte madame, porque esse homem quer convidá-la a um passeio.

Ela se enrubeceu. Adoro quando as mulheres enrubecem, ficam parecidas com um botão de rosa. Envergonhadas e belas...Ah, eu amo as mulheres...

- A propósito, posso saber sua graça madame?

- Suzana.

- Prazer, xerife Gonzalez. Mas pode me chamar de Juan.

Assobiei para Getúlio que veio imediatamente, montamos e fomos passear.

Obviamente a delegacia não estava desguarnecida. Juntamente com o distintivo eu herdara o comando sobre quatro bons homens que trabalhavam com o antigo xerife e viram em mim um motivo para não abandonar o barco como o outro fizera. Enquanto eu estava fora três deles montavam guarda na delegacia tomando conta do preso esperando que o quarto enviasse a notícia para o destrito maior que possuía uma cadeia de porte suficiente para a periculosidade daquele prisioneiro. Demoraria mais ou menos uma semana para que ele pudesse ser transferido de maneira adequada.

Suzana tomou conta das minhas cinco tardes seguidas. Eu era quase uma celebridade local. Alguns diziam até que nunca houvera um xerife igual.Sem precedentes nos mais heróicos atos. Quando na verdade foi Getúlio o grande salvador do dia, se alguém devia usar o distintivo esse alguém era o meu cavalo. O povo às vezes fala de mais. Talvez fosse esse um dos meus maiores problemas.

Eu dormia em uma hospedaria em frente à delegacia sem muito conforto. Na verdade, era o lugar mais confortável que eu havia dormido nos últimos cinco anos. As coisas estavam relativamente tranquilas e já estava me acostumando à vida de xerife vida mansa.

Uma semana e dois dias já haviam passado da prisão de José Caballero quando a carroça para transpostá-lo chegou à cidade. Só tinha um problema: Não havia prisioneiro para ser transportado.

Nenhum comentário: