Água. Muita água. Água por todos os lados...
Mal sentia minhas pernas ou braços, mas sabia que não havia acabado alí. Senti alguma coisa puxar minhas costas, rocei um pouco o rosto no barro e desmaiei novamente.
Acordei deitado em uma cama fitando o teto que era bastante parecido com o da cabana de Dick no que dizia respeito à sujeira. Eu provavelmente estava nu e enfaixado. Antes que pudesse perceber qualquer coisa, a dor me fez dormir.
Dessa vez, um sol intenso invadiu uma pequena janela que ficava do lado do meu leito me obrigando a abrir os olhos. Ainda sentia dores, mas já acumulava energias para me sentar na cama e perceber tudo à minha volta. Eu estava em uma cabana pequena, de apenas um cômodo e toda feita de madeira. Estava surpreendentemente aconxegante, bem arrumada e eu diria até cheirosa. Tinha uma pequena cabeceira do lado da minha cama onde se encontravam minhas roupas que vesti com certa dificuldade. Claramente alguém estava cuidando de mim todo esse tempo mas quem seria? Eu precisava de respostas e precisava saber também onde estava Getúlio.
Eu terminava de afivelar minha bota quando uma doce e familiar voz me acalentou os ouvidos:
- Graças a Deus você acordou !!!
Suzana se atirou aos meus braços (talvez cutucando uma costela quebrada e provocando dor intensa) e começou a chorar. Eu também (pelas duas razões).
- Pensei que nunca mais o veria...
Trocamos beijos, carícias e eu me sentia renovado. Suzana tinha esse poder sobre mim. Sempre fui um troglodita para as coisas do Amor e não sabia direito como interpretar o que sentia, mas naquele momento eu era feliz, não fosse por uma coisa:
- Por favor, me diga que você sabe onde está Getúlio.
- Aquele seu cavalo fedorento é um teimoso, não sai da porta da casa desde quando te coloquei na cama.
Sorri. Fui correndo na medida do possível para a porta da cabana e lá estava ele. Evidentemente tão baleado quanto eu, mas lá estava. Estávamos. E de pé. Trocamos um olhar confidente como quem diz ao outro "eu sabia que íamos sair dessa juntos". Com Getúlio nada era impossível. Suzana me contou mais tarde que Getúlio, depois de me puxar para fora da água do rio que corria no meio do desfiladeiro e me trazer para a beira, também desmaiou. Entretanto, diferente de mim, ele acordou no dia seguinte e seguiu os rastros de comida que Suzana deixara para ele. Ela também sabia que Getúlio era um cavalo inteligente. Ela me dissera também que eu estava dormindo por uma semana inteira e que ela vinha regularmente à cabana para cuidar de mim e de Getúlio.
- Mas como você sabia que estaríamos aqui?
Nessa hora ela fechou o semblante, abaixou a cabeça e começou a falar...
-Eu estava lá escondida quando meu pai conversava com Caballero e um homem que usava um tapa olho...
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