terça-feira, 3 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 8)

Quando pequeno, eu gostava das historinhas sem reviravoltas. Aquelas que seguem lineares até o fim com o vilão sendo mau e depois morrendo, a mocinha sempre bonzinha e o herói que a tomava nos braços em um beijo arrebatador no final. Era disso que eu gostava, nada de surpresas trágicas, nada de novo, nada de real. Entretanto, as constantes em toda minha vida foram exatamente as variáveis. É engraçado como tudo é tão irônico, não é mesmo?

Só faltava Dick Sem Olho babar. Ele tagarelava bastante sobre o quanto aquelas terras de Seu Valdim tinham ficado sem graça após minha partida, que eu era seu único amigo e da saudade que eu deixara em todos, inclusive no velho dono daquelas bandas. Eu de alguma forma me sentia em casa e, quanto mais papeávamos sobre aqueles tempos, mais a hora avançava e a tarde caía. Finalmente chegamos à Marluce:

- E como anda a filha do velho fazendeiro?

- Depois que ele descobriu que o verdadeiro pai da criança não era você, tive que me casar com ela.

- AHUHUAHUAHUAHUAHU - caí em uma gargalhada como a muito tempo não fazia, era bom poder conversar com um amigo. - Então, onde está sua esposa Dick?

- A me esperar Juan...a me esperar...

Os últimos galhos secos da fogueira crepitaram e dormimos à luz das estrelas. Sempre é bom ter amigos por perto.

Na manhã seguinte acordamos e Dick me fez uma proposta. Passaria o resto dos meus dias de preparação em uma cabana perto da cidade que ele acabara de adquirir. Na verdade, era esse o principal motivo de sua ida à região. Eu, que nunca fui de recusar um bom pedaço de teto, aceitei na hora, aquela cabana poderia servir de base para que eu pudesse completar meu plano. Sim, com a ajuda de Dick Sem Olho (provavelmente o gatilho mais rápido que eu já vi na minha vida) eu conseguiria derrubar Migiorinni e seu bando. Levantamos acampamento e partimos.

Demoramos quase um dia inteiro para chegar na cabana. O cavalo de Dick era um peso morto e mais rápido seria se o próprio caolho carregasse seu cavalo nas costas. Como tinha passado o dia inteiro andando, decidi trocar as ferraduras de Getúlio quando enfim, chegamos à cabana. Era um tanto assustadora se vista da fachada, fastasmagórica até, eu diria. Parecia que não era varrida à séculos, que ratos habitavam os assoalhos e que o telhado poderia desabar a qualquer sopro mais forte do vento. No entanto, não reclamei. Tinha passado dias sob o sol e noites inteiras com muito frio, pelo menos aquelas paredes me ajudariam.

Qual não foi a minha surpresa quando cheguei ao interior. Havíamos deixado os cavalos à porta e entramos para ver o estado daquilo que nem mais podíamos chamar de cabana.

- Suponho que não tenha pagado muito por isso aqui. - impliquei.

- Já me arrependi do negócio faz tempo... - lamentou Dick.

Demos mais algumas risadas. Apesar do estado deplorável de tudo alí, ainda haviam nos dois quartos uns restos de camas nos quais podíamos deitar. Dei boa noite a Dick, verifiquei Getúlio do lado de fora decidindo que só colocaria ferraduras novas quando fossemos à cidade, somente um ferreiro muito experiente poderia confeccionar ferraduras para Getúlio devido a sua... particularidade. Deitei para dormir e alguns momentos depois acordei com a parte da história que talvez lhe seja mais familiar...



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