Eu devia ser mais inteligente, de verdade. Entretanto, esperei a noite ir caindo porque pensei que no escuro teria mais chances. Eles acenderam uma fogueira e, pelo visto, iriam passar a noite alí para só na manhã seguinte ir prestar contas a seu chefe. Eles bebiam, gargalhavam e exibiam dentes meio podres que se juntavam a gordura do porco que haviam assado. A mulher continuava amarrada à carroça um pouco afastada deles e quando os primeiros começaram a cair no sono, resolvi me aproximar...
Fui me arrastando pela relva baixa tentando fazer o mínimo de barulho possível e rezando para que o barulho do fogo que queimava os poucos galhos de madeira da fogueira fosse mais alto que o meu. Aos poucos, e com muita paciência, me aproximei da carroça sem chamar nenhuma atenção. A mulher estava sonolenta e não tinha nenhum sinal claro de maus tratos, ela estava muito bem cuidada na verdade. Aliás, ela era bem mais nova do que aparentava de longe e o cabelo branco era uma peruca. Olhando agora ela nem presa est...
Com um movimento muito rápido e inesperado ela algemou meu pulso na roda da carroça e fez um sinal. Os outros homens acordaram e sorriram. Eu tinha caído numa armadilha, parabéns para mim e para minha estúpida coragem. Eu devia ter desconfiado que após prender José Caballero eu havia virado o inimigo número um de Migiorinni. Nenhum dos outros cherifes tinha ido tão longe contra ele. Talvez estivesse furioso. Talvez eu nem fosse sobreviver. Pensei em Suzana e lembrei de Getúlio.
Achei que Getúlio ainda estava amarrado àquela árvore enquanto nesse momento eu estava sendo levado para alguma espécie de esconderijo ou algo assim. Os sete capangas e a mulher me levavam vendado, logo, eu não sabia exatamente onde estava até que me tirassem o capuz.
Eu estava sentado e amarrado por uma corda à cadeira dentro de uma caverna em algum lugar nas montanhas. É meio que um clichê isso por aqui, os caras maus sempre tem esconderijos nas montanhas. Tinha uma goteira no teto caverna que era denunciada pelo barulho das gotas que caíam no chão. Um murro na boca do estômago e então pude ver novamente.
Caballero estava a minha frente, junto com a mulher que agora revelava longas curvas e cabelos negros. Se apresentou como Sarah Caballero e disse que seria a última mulher que eu veria na minha vida. José sorriu.
- Então eu deixarei que a minha irmã cuide desse assunto. Um cherifezinho mequetrefe como você não merecia tanto da minha atenção. Já gastei tempo de mais da minha vida preso lá e depois planejando sua morte. Adeus.
Deu as costas e saiu do lugar deixando apenas dois capangas e Sarah que agora exibia o mais sádico dos olhares. Acho que ela estava sentindo prazer nas torturas que agora imaginava. Senti um certo temor dos capangas também. Meu revólver estava em cima de uma mesa à minha direita e eu só pensava nele.
Sarah se aproximou de vagar. Meu Deus, o que ela tinha de louca ela tinha de bela. Talvez seja até a mulher mais bonita dessa história mas naquela hora era minha sentença de morte que caminhava e agora tinha uma risada medonha e incontida enquanto apontava uma faca para o meu peito. Eu estava tenso, suado e amedrontado mas é justamente aqui que eu viro um herói.
Eu era um rato acuado em um canto. Não era o mais forte, estava preso, em disvantagem numérica e assustado. Mesmo que eu não quisesse eu faria alguma coisa.
No momento em que ela esticou o braço em minha direção para a punhalada final, tombei minha cadeira bamba. Fiquei até impressionado com a minha sorte quando a cadeira caiu com o encosto em cima de uma pedra partindo-o em pedaços. Sarah, com o impulso que dera, se desequilibrou e caiu por cima de um dos homens que vigiava a situação. O outro se assustou e antes que sacasse a sua arma eu rolei em direção aos seus pé e o derrubei. me levantei antes dele e, porque estava de punhos atados às costas, chutei sua cabeça desejando muito que desmaiasse. Sarah e o outro homem já haviam se levantado quando eu fiquei de costas à mesa do meu revólver.
- Parado aí, seu filho de uma...
E então o homem engatilhou a arma dele. Estranhamente Sarah não tinha uma arma e por isso só brandia sua faca. Estava toda descabelada e suada. Exuberante e nervosa. Nossa... Deus realmente se empenha em fazer mulheres assim, mas nessa não tinha gastado muito tempo em sua fisionomia e aparentemente nada em seu caráter. Confesso que por alguns minutos esqueci Suzana.
Minha garganta arranhava seca e então vagarosamente fui tentando tatear a coronha de meu revolver que deveria estar em cima daquela mesa...
- Tomara que não percebam...- pensei.
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