sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

115

Eis que fui parido nu
E por um acaso me tenho assim por dentro
Coloco a melhor roupa que possuo
E estou em pelo no pensamento

Vai ver foi assim que fiquei
Desprovido de ideias, de vontade

Larguei tudo por aí
Porém, agora me encontro em frente ao espelho
De terno, gravata, bem bonito
E mesmo assim, pelado.

Você não tem vergonha?
-Me perguntei uma vez-
Não.
-Concluí-
Fiquei assim aos poucos, já me acostumei
Não visto nada há tempos.
Quem me despiu levou a última calça que eu tinha
E agora só sobrou o terno, o fato, o linho
Me levou as calças e deixou a dor mais um cadinho
De dinheiro, preu comprar umas novas.
Comprei não.
Dá trabalho, sabe?

Pra ficar só por isso, eu te digo um segredo,
Trocaria toda a minha roupa de fora
Por minha calça de volta.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

114

Ah, que bom que voltou ao meio-dia essa cor tão melhor
Fica mais fácil sair assim na rua, a chuva teve dó
De mim

Que não sou ninguém, tudo bem, não esperava regalias
Mas quando o amor é bobo pensa que é causador de todos os dias
E é bom

Diga que não,
Vai,
Duvido,
Você sabe que é verdade, o florista sabe que é verdade
O vendedor da loja de chocolate sabe que é verdade
Os meteorologistas sabem que é verdade
Os poetas sabem que é verdade

E o bilheteiro do cinema sabe que é verdade
Quando eu vou acompanhando o mocinho na tela
Cheio de vontade
De tê-la
Rezando por um cruzar de mãos num saco de pipoca pela metade
Pra eu ter a noite mais bela

Que bom que a chuva teve dó
Talvez à pé nós voltemos às nossas casas
Por aquela rua que às mãos dadas
Cairá bem melhor.