segunda-feira, 7 de abril de 2008

21

Perdoe a minha ignorância,
mas é certo que não vai perdoar
se eu esquecer seu aniversário
ou se esquecer qual foi o dia em que compramos o cachorro,
e se por acaso eu me esquecer o nome dele também não vai me perdoar.

É totalmente plausível a sua raiva
todas as vezes em que eu não te dou a mão na rua,
em que eu não te dou o presente de um mês,
em que eu fico em casa doente
e não posso sair pras festas dos seus amigos.

Eu até escuto você me chamar pelo telefone
quando às quatro e meia da manhã
me liga dizendo que a fome na África é grande
e que milhões de crianças morrem durante a sua tpm.

Só te peço que não chore,
porque hoje é o dia em que eu fui embora.
Troquei meu telefone,
mudei de endereço
e até dei um dinheiro pro porteiro não falar
a que horas eu saí de casa.

Só não chora.
Porque eu sei que você não vai perdoar nem a minha ignorância.

20

Eu tinha guardado pra mim
A vontade de dizer
Se eu penso em esquecer
Ou se quero seguir assim.

Cada escolha a partir de agora pode ser um erro.
E até posso estar errando em mostar
Que é mais fácil errar
Por desespero de acertar.

Por isso digo a todos que nessa noite de chuva,
O mundo passa aos nossos olhos
Que ainda são tão jovialmente adultos
E nos mandam escolher a só uma
Entre todas as outras
Como se fossemos casar.

E quando o mundo não for mais tão mundo
Quanto é mundo pra mim agora?
Será que meus olhos não mudarão de cor
De dentro pra fora?
Se meu desespero virar caos?
Se minha paixão virar amor?
Se minha solidão virar profundeza,
Ainda serei quem eu sou?