Sonhei com o sorriso da minha mãe. A algum tempo isso já vinha acontecendo, na verdade, começaram na noite seguinte à minha fuga da caverna. Talvez a minha última experiência de quase morte tenha feito com que eu pensasse um pouco mais na vida, na minha infância, na parte nobre do meu passado. Sonhei também com
Suzana. A filha de
Migiorinni me causava saudades e eu gostava disso. Queria que tudo acabasse logo para que pudéssemos ficar juntos. Com certeza ficar com
Suzana seria o
prêmio final da minha jornada, seria o meu final feliz. Eu a tomaria nos braços e a daria aquele beijo dos mocinhos do qual já te falei antes. Ah...como eu queria...
BLAM!
Arregalei os olhos com o barulho. Um subto que invadiu toda cabana como se fosse um trovão balançando as paredes e fazendo cair pedaços do teto no meu quarto. Senti um ódio infinito por ter meu sonho interrompido logo antes que eu pudesse deitar com Suzana. É sempre assim, sempre acaba na melhor parte. Reparei que ainda era madrugada e, um pouco assustado, corri para a porta da entrada da cabana esperando encontrar um motivo.
Apenas a porta aberta. Ventava bastante do lado de fora, logo, julguei que fosse o vento que tivesse aberto a porta com aquela força, apesar do que tinham umas marcas estranhas na porta que antes eu achei não ter visto. Enfim, talvez loucura minha. Então, fui ver Dick em seu quarto, para quem sabe tranquilizá-lo se também tivesse ouvido o barulho. Sempre soube que ele era um cara meio assustado e, ao menor ruído, puxava sua arma. Dick odiava ser acordado de noite. Ri em minha cabeça imaginando a situação. A porta batendo e Dick puxando automaticamente a pistola de baixo do travesseiro e se encolhendo todo em um canto do quarto. Sorri, Dick era um cara engraçado.
Mas não estava em seu quarto.
Eu olhava do lado de fora a sua cama vazia. Só a lua entrando pela janela iluminava o quarto e eu achei muito estranha também a arrumação de sua cama. Parecia que ninguém jamais havia deitado alí, não pelo menos nos últimos trinta anos. Desconfiei.
- Bom, talvez esteja dormindo no chão do quarto mesmo, tenho que entrar pra ver.
E então caí na armadilha.
Ao entrar pela porta, uma garrafa desceu rapidamente na tentativa de me golpear as costas. Percebi e girei o corpo assustado para me esquivar. Tropecei por dentro do quarto e caí na cama esfarelando seus restos. Agora eu estava caído no chão olhando para meu agressor, que eu não conhecia.
- Ninguém assaltaria essa casa - pensei - só existe um motivo para esse homem estar aqui. Migiorinni.
Sim, eles sabiam que eu estava vivo e mais, sabiam onde eu estava escondido. De algum modo, meu plano falhara antes que eu pudesse começar a realiza-lo. Que sorte a minha.
O homem golpeou novamente, só que ele era muito grande e desajeitado, de modos que eu era mais ágil e esquivava com certa facilidade. Ele se desequilibrou novamente e eu pude desviar em direção a janela que pulei com destreza felina. Então um outro pensamento me povoou a mente, onde estava Dick? Claramente ele nunca havia estado em seu quarto e, se estivesse na casa, ouviria o barulho da briga e correria em meu auxílio... eu acho.
Aterrizei atrás da cabana e desesperado fui ao encontro de Getúlio, Dick tinha que estar por perto, não era possível. Entretanto, minha onda de sorte continuou quando dei a volta na cabana e cheguei a frente. O homem já estava lá me esperando e não estava só. Tinham pelo menos mais uns cinco homens com ele e liderando todos estava Caballero.
Ao lado de Getúlio, avistei todos puxarem suas armas. Seria um fuzilamento e mais uma vez vislumbrei meu fim. Getúlio não. Com um coice rápido meu fiel cavalo chutou o balde com água no qual bebia para cima do bando que perdeu a mira e recuou por tempo o suficiente para eu conseguir montá-lo e sair em disparada tomando apenas dois tiros de raspão no braço e na perna.
Getúlio fechou o semblante e correu como o vento. Na verdade, corria muito mais do que o vento, corria como um cavalo com quatro patas esquerdas. Corríamos por nossas vidas, com as armas de Caballero e seus homens a nos mirar.
Bom, acho que finalmente chegamos naquele ponto que não é o início, mas também não é o fim eu acho, é o agora. E agora, eu estou caindo da ponte, agora Caballero me observa da beira do abismo que a ponte destruída atravessava, agora penso em Suzana, agora queria saber porque Dick me abandonara, agora já não importa mais. Fechei os olhos. Deixa cair. Tomara que Getúlio não sofra muito.