terça-feira, 31 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 12)

Apesar de todo o sol que fazia lá fora, apesar da brisa que batia no pasto baixo dos longos campos daquela fazenda, um pequeno garoto cerrava os punhos em ódio. Uma lágrima caía. Do outro lado da casa, por detrás de uma porta trancada, ele já estava acostumado a ouvir os gemidos de dor de sua irmã. "Assim que eu puder..." - pensava - "...tudo isso terá um fim." E novamente saía de lá a menina com 0s olhos esbugalhados e a garganta seca de tanto gritar. Corria para os braços do irmão e somente lá ficava em paz. Tinha sido assim desde que sua mãe morrera de tuberculose fazia dois invernos. Seu pai havia ficado maluco ou simplesmente tinha acabado a última barreira para que pudesse expor suas perversões mais doentias.

O garoto observava os lindos olhos azuis da sua irmã e simplesmente não aceitava a realidade. Eles eram tão felizes a pouco tempo atrás... Sua irmã tinha o sorriso mais belo do mundo. Tudo que ele ouvia agora eram gritos e risadas histéricas. Todos na casa haviam perdido o prumo e ele resolveria isso.

Em uma noite escura, acordou silenciosamente a menina rescém-açoitada. Ela sem muito entender o que acontecia só pode obedecer quando seu irmão mais velho lhe pediu para que arrumasse as coisas dos dois. "Logo faremos uma viagem para nunca mais voltar aqui...". o garoto sabia onde o pai guardava a pistola. O garoto sabia como usar a arma. O garoto colocaria um fim naquilo tudo.

Sua irmã apenas acompanhou com os olhos arregalados o movimento felino do irmão por dentro do quarto do pai. Ela já havia posto os sacos de pano com as roupas e um pouco de comida em lata da cozinha à porta quando avistou a arma reluzindo a luz da lua na mão do irmão. A menina arregalou os olhos e deu um grito que foi abafado pelo disparo certeiro da pistola.

Ela jurou nunca encostar em armas.

Em estado de choque foi carregada casa à fora pelo irmão que a segurava por um braço e no outro levava os mantimentos.

Para se manterem vivos naqueles tempos difíceis, o garoto praticava pequenos delitos nas estradas pouco policiadas da região. O tempo todo observado pela irmã que cada vez se aprofundava mais em sua própria loucura. Até que em um desses delitos, seu destino mudou...

- Parem a carruagem se não atiro! - tentou gritar com a voz mais grossa que seus 18 anos permitiam...

- Em nome de que eu deveria parar? - retrucou o cocheiro.

- Em nome da bala que mora em meu revólver.

Nesse momento uma gargalhada pode ser ouvida de dentro da carruagem. A porta se abriu e de lá saltou um homem gordo, bonachão, cheio de si, com roupas um tanto espalhafatosas e ostentava bastante ouro. O garoto arregalou os olhos. Nunca tinha visto tamanha riquesa.

- Eu acho que gostei de você garoto, você tem fibra, pode me ser bastante útil... Qual é o seu nome?

- Jo..Jo...José, senhor...

- Ahá! Que belo nome para um magricela morto de fome. Eu me chamo Signore Migiorinni. - e abriu um largo sorriso...


quinta-feira, 19 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 11)

Suzana disse que tinha se desesperado ao ficar uma semana sem notícias após minha partida. Então, vivia a espreitar as conversas do pai a procura de qualquer informação que indicasse o que havia acontecido comigo. Confessou que chorava temendo pelo pior. Até que um senhor com um tapa olho lhe chamou a atenção. Rapidamente se lembou das histórias que eu lhe contara sobre a minha vida e as pessoas que eu havia conhecido. Ela abriu a porta da casa da família Migiorinni para o estranho com a permissão de seu pai e o levou até o escritório onde Signore estava esperando.

Ela sabia que finalmente ouviria alguma coisa. Caballero também estava na sala e os dois aparentavam um certo orgulho. Se abaixou junto ao batente da porta fechada, procurando uma melhor posição para escutar a conversa por detrás da porta...

- Então senhor Dick Moneiur, sei que nos deve e que está aqui para chorar misericóridia, não é mesmo? Veio aqui para que perdoássemos suas dívidas e o deixássemos viver em paz . Veio para rastejar, implorar, chorar... Pois bem, me convença. Eu tenho certo apreço por seres que se humilham...

- Senhor Migiorini... O senhor bem sabe que sou um trabalhador honesto e que me esforço todos os dias para conseguir o pão de meus filhos...

- Vamos acabar logo com isso, chefe.... - interpelou Caballero.

E Suzana ouviu o som de uma pistola sendo engatilhada.

- NÃO! NÃO FAÇA ISSO COM ELA, NÃO AGORA, EU FAÇO QUALQUER COISA.

Eu não sabia mas, com essa frase, Dick mudaria novamente meu destino.

Botidas muito fortes foram dadas na porta da casa de Migiorinni. Suzana pensou consigo mesma se seria mais um convidado para mais uma das "reuniões a negócios" de seu pai. Entretando, quando correu para atender a porta, viu um rosto familiar.

Sarah, completamente machucada, com as roupas rasgadas e não tão bela assim, bufava à entrada. Com um pequeno passo para o lado, Suzana se sentiu ignorar ao ver Sarah disparar casa à dentro rumo ao escritório onde seu irmão, Migiorinni e Dick se encontravam. Agora sim ela sabia, o assunto era eu. Juan Gonzales, o novo cherifinho que achava que mandava na região.

Novamente abaixada à porta Suzana escutou os gritos tresloucados de Sarah.

- IMBECIL! COMO FOI DEIXAR AQUELES EXPLOSIVOS NA CAVERNA?!

- Primeiro cale a boca, Sarah. Agora me diga, você completou seu objetivo? A julgar pelo seu estado eu diria que não...

Seguiram-se muitos gritos após isso e Suzana só pode identificar a voz de seu pai algum tempo depois quando as coisas se acalmaram um pouco...

- Então temos uma serventia para você Dick... Não quer ter sua mulher de volta? Não quer ter suas dívidas perdoadas? Dê-me Juan Gonzales.

terça-feira, 10 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 10)

Água. Muita água. Getúlio veio ao mundo assim, acho que já disse isso. Como chovia naquele dia e, a despeito de tudo aquilo que caía do céu, eu estava lá, soluçando de ansiosidade. Meu pai permanecia agachado junto à égua, Polaca, mãe de Getúlio, de braços estendidos e pronto para acudir o potro que estava para nascer. Era verão, a chuva quase evaporava ao tocar o chão. Ventava forte e eu desconfiava que o celeiro aguentasse. Nossa, como poderíamos ser mais felizes em um mundo diferente. Em um cenário no qual meus pais ainda estivessem vivos. Em um cenário no qual meu pai não fosse um viciado em jogo e apostasse a fazenda à troco de nada. Nada era tudo que eu tinha até o momento que Getúlio saltou por entre as chamas e afugentou aquele que viria a ser Caballero. E só então percebi. Meu pai havia perdido a fazenda para Migiorinni. Migiorinni mandara Caballero e então minha vida foi desgraçada. Após tanto tempo, Caballero conseguiu completar sua missão. Eu estava caindo de olhos fechados. Era um fim trágico. Queria que acabasse logo. Ou não...

Água. Muita água. Água por todos os lados...

Mal sentia minhas pernas ou braços, mas sabia que não havia acabado alí. Senti alguma coisa puxar minhas costas, rocei um pouco o rosto no barro e desmaiei novamente.

Acordei deitado em uma cama fitando o teto que era bastante parecido com o da cabana de Dick no que dizia respeito à sujeira. Eu provavelmente estava nu e enfaixado. Antes que pudesse perceber qualquer coisa, a dor me fez dormir.

Dessa vez, um sol intenso invadiu uma pequena janela que ficava do lado do meu leito me obrigando a abrir os olhos. Ainda sentia dores, mas já acumulava energias para me sentar na cama e perceber tudo à minha volta. Eu estava em uma cabana pequena, de apenas um cômodo e toda feita de madeira. Estava surpreendentemente aconxegante, bem arrumada e eu diria até cheirosa. Tinha uma pequena cabeceira do lado da minha cama onde se encontravam minhas roupas que vesti com certa dificuldade. Claramente alguém estava cuidando de mim todo esse tempo mas quem seria? Eu precisava de respostas e precisava saber também onde estava Getúlio.

Eu terminava de afivelar minha bota quando uma doce e familiar voz me acalentou os ouvidos:

- Graças a Deus você acordou !!!

Suzana se atirou aos meus braços (talvez cutucando uma costela quebrada e provocando dor intensa) e começou a chorar. Eu também (pelas duas razões).

- Pensei que nunca mais o veria...

Trocamos beijos, carícias e eu me sentia renovado. Suzana tinha esse poder sobre mim. Sempre fui um troglodita para as coisas do Amor e não sabia direito como interpretar o que sentia, mas naquele momento eu era feliz, não fosse por uma coisa:

- Por favor, me diga que você sabe onde está Getúlio.

- Aquele seu cavalo fedorento é um teimoso, não sai da porta da casa desde quando te coloquei na cama.

Sorri. Fui correndo na medida do possível para a porta da cabana e lá estava ele. Evidentemente tão baleado quanto eu, mas lá estava. Estávamos. E de pé. Trocamos um olhar confidente como quem diz ao outro "eu sabia que íamos sair dessa juntos". Com Getúlio nada era impossível. Suzana me contou mais tarde que Getúlio, depois de me puxar para fora da água do rio que corria no meio do desfiladeiro e me trazer para a beira, também desmaiou. Entretanto, diferente de mim, ele acordou no dia seguinte e seguiu os rastros de comida que Suzana deixara para ele. Ela também sabia que Getúlio era um cavalo inteligente. Ela me dissera também que eu estava dormindo por uma semana inteira e que ela vinha regularmente à cabana para cuidar de mim e de Getúlio.

- Mas como você sabia que estaríamos aqui?

Nessa hora ela fechou o semblante, abaixou a cabeça e começou a falar...

-Eu estava lá escondida quando meu pai conversava com Caballero e um homem que usava um tapa olho...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 9)

Sonhei com o sorriso da minha mãe. A algum tempo isso já vinha acontecendo, na verdade, começaram na noite seguinte à minha fuga da caverna. Talvez a minha última experiência de quase morte tenha feito com que eu pensasse um pouco mais na vida, na minha infância, na parte nobre do meu passado. Sonhei também com Suzana. A filha de Migiorinni me causava saudades e eu gostava disso. Queria que tudo acabasse logo para que pudéssemos ficar juntos. Com certeza ficar com Suzana seria o prêmio final da minha jornada, seria o meu final feliz. Eu a tomaria nos braços e a daria aquele beijo dos mocinhos do qual já te falei antes. Ah...como eu queria...

BLAM!

Arregalei os olhos com o barulho. Um subto que invadiu toda cabana como se fosse um trovão balançando as paredes e fazendo cair pedaços do teto no meu quarto. Senti um ódio infinito por ter meu sonho interrompido logo antes que eu pudesse deitar com Suzana. É sempre assim, sempre acaba na melhor parte. Reparei que ainda era madrugada e, um pouco assustado, corri para a porta da entrada da cabana esperando encontrar um motivo.

Apenas a porta aberta. Ventava bastante do lado de fora, logo, julguei que fosse o vento que tivesse aberto a porta com aquela força, apesar do que tinham umas marcas estranhas na porta que antes eu achei não ter visto. Enfim, talvez loucura minha. Então, fui ver Dick em seu quarto, para quem sabe tranquilizá-lo se também tivesse ouvido o barulho. Sempre soube que ele era um cara meio assustado e, ao menor ruído, puxava sua arma. Dick odiava ser acordado de noite. Ri em minha cabeça imaginando a situação. A porta batendo e Dick puxando automaticamente a pistola de baixo do travesseiro e se encolhendo todo em um canto do quarto. Sorri, Dick era um cara engraçado.

Mas não estava em seu quarto.

Eu olhava do lado de fora a sua cama vazia. Só a lua entrando pela janela iluminava o quarto e eu achei muito estranha também a arrumação de sua cama. Parecia que ninguém jamais havia deitado alí, não pelo menos nos últimos trinta anos. Desconfiei.

- Bom, talvez esteja dormindo no chão do quarto mesmo, tenho que entrar pra ver.

E então caí na armadilha.

Ao entrar pela porta, uma garrafa desceu rapidamente na tentativa de me golpear as costas. Percebi e girei o corpo assustado para me esquivar. Tropecei por dentro do quarto e caí na cama esfarelando seus restos. Agora eu estava caído no chão olhando para meu agressor, que eu não conhecia.

- Ninguém assaltaria essa casa - pensei - só existe um motivo para esse homem estar aqui. Migiorinni.

Sim, eles sabiam que eu estava vivo e mais, sabiam onde eu estava escondido. De algum modo, meu plano falhara antes que eu pudesse começar a realiza-lo. Que sorte a minha.

O homem golpeou novamente, só que ele era muito grande e desajeitado, de modos que eu era mais ágil e esquivava com certa facilidade. Ele se desequilibrou novamente e eu pude desviar em direção a janela que pulei com destreza felina. Então um outro pensamento me povoou a mente, onde estava Dick? Claramente ele nunca havia estado em seu quarto e, se estivesse na casa, ouviria o barulho da briga e correria em meu auxílio... eu acho.

Aterrizei atrás da cabana e desesperado fui ao encontro de Getúlio, Dick tinha que estar por perto, não era possível. Entretanto, minha onda de sorte continuou quando dei a volta na cabana e cheguei a frente. O homem já estava lá me esperando e não estava só. Tinham pelo menos mais uns cinco homens com ele e liderando todos estava Caballero.

Ao lado de Getúlio, avistei todos puxarem suas armas. Seria um fuzilamento e mais uma vez vislumbrei meu fim. Getúlio não. Com um coice rápido meu fiel cavalo chutou o balde com água no qual bebia para cima do bando que perdeu a mira e recuou por tempo o suficiente para eu conseguir montá-lo e sair em disparada tomando apenas dois tiros de raspão no braço e na perna.

Getúlio fechou o semblante e correu como o vento. Na verdade, corria muito mais do que o vento, corria como um cavalo com quatro patas esquerdas. Corríamos por nossas vidas, com as armas de Caballero e seus homens a nos mirar.

Bom, acho que finalmente chegamos naquele ponto que não é o início, mas também não é o fim eu acho, é o agora. E agora, eu estou caindo da ponte, agora Caballero me observa da beira do abismo que a ponte destruída atravessava, agora penso em Suzana, agora queria saber porque Dick me abandonara, agora não importa mais. Fechei os olhos. Deixa cair. Tomara que Getúlio não sofra muito.

terça-feira, 3 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 8)

Quando pequeno, eu gostava das historinhas sem reviravoltas. Aquelas que seguem lineares até o fim com o vilão sendo mau e depois morrendo, a mocinha sempre bonzinha e o herói que a tomava nos braços em um beijo arrebatador no final. Era disso que eu gostava, nada de surpresas trágicas, nada de novo, nada de real. Entretanto, as constantes em toda minha vida foram exatamente as variáveis. É engraçado como tudo é tão irônico, não é mesmo?

Só faltava Dick Sem Olho babar. Ele tagarelava bastante sobre o quanto aquelas terras de Seu Valdim tinham ficado sem graça após minha partida, que eu era seu único amigo e da saudade que eu deixara em todos, inclusive no velho dono daquelas bandas. Eu de alguma forma me sentia em casa e, quanto mais papeávamos sobre aqueles tempos, mais a hora avançava e a tarde caía. Finalmente chegamos à Marluce:

- E como anda a filha do velho fazendeiro?

- Depois que ele descobriu que o verdadeiro pai da criança não era você, tive que me casar com ela.

- AHUHUAHUAHUAHUAHU - caí em uma gargalhada como a muito tempo não fazia, era bom poder conversar com um amigo. - Então, onde está sua esposa Dick?

- A me esperar Juan...a me esperar...

Os últimos galhos secos da fogueira crepitaram e dormimos à luz das estrelas. Sempre é bom ter amigos por perto.

Na manhã seguinte acordamos e Dick me fez uma proposta. Passaria o resto dos meus dias de preparação em uma cabana perto da cidade que ele acabara de adquirir. Na verdade, era esse o principal motivo de sua ida à região. Eu, que nunca fui de recusar um bom pedaço de teto, aceitei na hora, aquela cabana poderia servir de base para que eu pudesse completar meu plano. Sim, com a ajuda de Dick Sem Olho (provavelmente o gatilho mais rápido que eu já vi na minha vida) eu conseguiria derrubar Migiorinni e seu bando. Levantamos acampamento e partimos.

Demoramos quase um dia inteiro para chegar na cabana. O cavalo de Dick era um peso morto e mais rápido seria se o próprio caolho carregasse seu cavalo nas costas. Como tinha passado o dia inteiro andando, decidi trocar as ferraduras de Getúlio quando enfim, chegamos à cabana. Era um tanto assustadora se vista da fachada, fastasmagórica até, eu diria. Parecia que não era varrida à séculos, que ratos habitavam os assoalhos e que o telhado poderia desabar a qualquer sopro mais forte do vento. No entanto, não reclamei. Tinha passado dias sob o sol e noites inteiras com muito frio, pelo menos aquelas paredes me ajudariam.

Qual não foi a minha surpresa quando cheguei ao interior. Havíamos deixado os cavalos à porta e entramos para ver o estado daquilo que nem mais podíamos chamar de cabana.

- Suponho que não tenha pagado muito por isso aqui. - impliquei.

- Já me arrependi do negócio faz tempo... - lamentou Dick.

Demos mais algumas risadas. Apesar do estado deplorável de tudo alí, ainda haviam nos dois quartos uns restos de camas nos quais podíamos deitar. Dei boa noite a Dick, verifiquei Getúlio do lado de fora decidindo que só colocaria ferraduras novas quando fossemos à cidade, somente um ferreiro muito experiente poderia confeccionar ferraduras para Getúlio devido a sua... particularidade. Deitei para dormir e alguns momentos depois acordei com a parte da história que talvez lhe seja mais familiar...