quinta-feira, 28 de abril de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 7)

Eu sempre fui bastante observador, e, apesar de Sarah estar me distraindo muito, vi a lâmpada que pendia no teto sendo a única fonte de iluminação da sala. Era alí que morava minha chance. Tateei. Encontrei minha arma e antes que eles pudessem fazer qualquer coisa, os assustei me dobrando ao meio e atirando de costas na lâmpada. Você pode até achar que eu sou mentiroso, na verdade, nem eu mesmo acreditei muito no sucesso do meu plano estapafúrdeo, mas deu certo. O vidro se estilhaçou e a sala submergiu em um escuro assustador. Me joguei ao chão quando ouvi tiros. As balas da arma do homem ricocheteavam na parede da caverna enquanto eu me arrastava pra onde meus sentidos indicavam a saída. Sarah gritava. Aliás, gritava estranhamente, como se a estivessem matando. Como devia ter problemas aquela mulher.

Vi um ponto mais claro que julguei ser a saída. Eu provavelmente já tinha passado deles que a essa hora achei estarem me procurando como loucos naquela sala escura. Me senti mais tranquilo. Alí tinha que ser a saída, eu tinha me safado vivo... Ou não.

Uma explosão ocorreu nos fundos da caverna e rapidamente uma onda gigante de água foi inundando tudo enquanto as paredes ruíam. Corri desesperadamente para a luz. As pedras que caíam do teto começaram a fechar a minha saída. Se eu demorasse muito estaria perdido, seria o fim.

Não consigo descrever a minha alegria em sentir o sol beijar meu rosto enquanto estava estirado ao chão do lado de fora da caverna. Eu havia me jogado como em um mergulho cego pra salvar a mim mesmo. Estava vivo. Estava rindo. Eu sobrevivi. Rapidamente pensei no que podia ter causado a explosão na caverna. A água era evidentemente da infiltração que eu tinha visto no teto, mas quem fez aquilo? E Sarah? Será que a problemática Sarah havia morrido alí?

Senti uma bufada em meu rosto. Uma sombra tapava o sol da manhã e uma gota de baba caiu em minha testa. Sorri.

Eu sempre soube que não adiantava amarrar Getúlio. Aquele cavalo tinha a incrível habilidade de se safar dos mais tensos laços do mundo. Ele com certeza se utilizou disso e, quando viu que eu era carregado para longe daquela situação, me seguiu. Foi me buscar. Porque é isso que um bom cavalo com quatro patas esquerdas faz. Nunca abandona seu dono.

Agora eu seria perseguido infinitamente. Se Migiorinni e Caballero soubessem que eu estava vivo, mandariam simplesmente todo seu bando atrás de mim e me esmagariam como a uma mosca. Mas eles realmente saberiam que eu estava vivo? Só se eu aparecesse. Caso contrário, considerariam que morri juntamente com Sarah no incidente da caverna quando fossem voltar para averiguar a situação e me riscariam da sua lista de problemas. Eu seria um fantasma. Eu os perseguiria sem que soubessem.

Cutuquei o lado de Getúlio com as esporas ainda molhadas. Viramos para a relva da montanha e eu decidi elaborar um plano.

Fiquei duas semanas escondido na relva. De vez em quando negociava alguma comida com um viajante qualquer sem me indentificar. Como nunca fui bom administrador, meu dinheiro acabou nos primeiros três dias, então tive que negociar minha pistola. E foi com muita dor no coração que o fiz. Na verdade, você mataria se soubesse a pouca quantidade de dinheiro pela qual vendi minha querida arma. Eu poderia pegar outra mais tarde, naquela hora eu apenas precisava permanecer incógnito.

Até que em uma tarde, enquanto já terminava os últimos detalhes do meu plano, uma carroça veio se aproximando ao longe. Enxerguei a possibilidade de negócio e pedi gentilmente para que parassem e ajudassem um viajante com necessidades. A carroça parou, o dirigente arreganhou os dentes e meu destino mudou pela terceira vez.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 6)

Eu devia ser mais inteligente, de verdade. Entretanto, esperei a noite ir caindo porque pensei que no escuro teria mais chances. Eles acenderam uma fogueira e, pelo visto, iriam passar a noite alí para só na manhã seguinte ir prestar contas a seu chefe. Eles bebiam, gargalhavam e exibiam dentes meio podres que se juntavam a gordura do porco que haviam assado. A mulher continuava amarrada à carroça um pouco afastada deles e quando os primeiros começaram a cair no sono, resolvi me aproximar...

Fui me arrastando pela relva baixa tentando fazer o mínimo de barulho possível e rezando para que o barulho do fogo que queimava os poucos galhos de madeira da fogueira fosse mais alto que o meu. Aos poucos, e com muita paciência, me aproximei da carroça sem chamar nenhuma atenção. A mulher estava sonolenta e não tinha nenhum sinal claro de maus tratos, ela estava muito bem cuidada na verdade. Aliás, ela era bem mais nova do que aparentava de longe e o cabelo branco era uma peruca. Olhando agora ela nem presa est...

Com um movimento muito rápido e inesperado ela algemou meu pulso na roda da carroça e fez um sinal. Os outros homens acordaram e sorriram. Eu tinha caído numa armadilha, parabéns para mim e para minha estúpida coragem. Eu devia ter desconfiado que após prender José Caballero eu havia virado o inimigo número um de Migiorinni. Nenhum dos outros cherifes tinha ido tão longe contra ele. Talvez estivesse furioso. Talvez eu nem fosse sobreviver. Pensei em Suzana e lembrei de Getúlio.

Achei que Getúlio ainda estava amarrado àquela árvore enquanto nesse momento eu estava sendo levado para alguma espécie de esconderijo ou algo assim. Os sete capangas e a mulher me levavam vendado, logo, eu não sabia exatamente onde estava até que me tirassem o capuz.

Eu estava sentado e amarrado por uma corda à cadeira dentro de uma caverna em algum lugar nas montanhas. É meio que um clichê isso por aqui, os caras maus sempre tem esconderijos nas montanhas. Tinha uma goteira no teto caverna que era denunciada pelo barulho das gotas que caíam no chão. Um murro na boca do estômago e então pude ver novamente.

Caballero estava a minha frente, junto com a mulher que agora revelava longas curvas e cabelos negros. Se apresentou como Sarah Caballero e disse que seria a última mulher que eu veria na minha vida. José sorriu.

- Então eu deixarei que a minha irmã cuide desse assunto. Um cherifezinho mequetrefe como você não merecia tanto da minha atenção. Já gastei tempo de mais da minha vida preso lá e depois planejando sua morte. Adeus.

Deu as costas e saiu do lugar deixando apenas dois capangas e Sarah que agora exibia o mais sádico dos olhares. Acho que ela estava sentindo prazer nas torturas que agora imaginava. Senti um certo temor dos capangas também. Meu revólver estava em cima de uma mesa à minha direita e eu só pensava nele.

Sarah se aproximou de vagar. Meu Deus, o que ela tinha de louca ela tinha de bela. Talvez seja até a mulher mais bonita dessa história mas naquela hora era minha sentença de morte que caminhava e agora tinha uma risada medonha e incontida enquanto apontava uma faca para o meu peito. Eu estava tenso, suado e amedrontado mas é justamente aqui que eu viro um herói.

Eu era um rato acuado em um canto. Não era o mais forte, estava preso, em disvantagem numérica e assustado. Mesmo que eu não quisesse eu faria alguma coisa.

No momento em que ela esticou o braço em minha direção para a punhalada final, tombei minha cadeira bamba. Fiquei até impressionado com a minha sorte quando a cadeira caiu com o encosto em cima de uma pedra partindo-o em pedaços. Sarah, com o impulso que dera, se desequilibrou e caiu por cima de um dos homens que vigiava a situação. O outro se assustou e antes que sacasse a sua arma eu rolei em direção aos seus pé e o derrubei. me levantei antes dele e, porque estava de punhos atados às costas, chutei sua cabeça desejando muito que desmaiasse. Sarah e o outro homem já haviam se levantado quando eu fiquei de costas à mesa do meu revólver.

- Parado aí, seu filho de uma...

E então o homem engatilhou a arma dele. Estranhamente Sarah não tinha uma arma e por isso só brandia sua faca. Estava toda descabelada e suada. Exuberante e nervosa. Nossa... Deus realmente se empenha em fazer mulheres assim, mas nessa não tinha gastado muito tempo em sua fisionomia e aparentemente nada em seu caráter. Confesso que por alguns minutos esqueci Suzana.

Minha garganta arranhava seca e então vagarosamente fui tentando tatear a coronha de meu revolver que deveria estar em cima daquela mesa...

- Tomara que não percebam...- pensei.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 5)

É engraçada a velocidade com que as coisas se espalham por aqui. Todos os poucos habitantes do lugar já comentavam sobre a possível vingança de José e a maioria deles não me dava mais duas semanas de vida. Confesso que eu não ligava muito para o que eles diziam e me coloquei a investigar a situação.

Assim que entrei na delegacia pela manhã, o cenário me lembrou com quem eu estava lidando. Três dos meus homens estavam mortos com facadas no pescoço e no peito. O quarto homem sob meu comando estava de folga na noite mas quando soube da notícia juntou suas coisas e saiu correndo. Com certeza o bando de Migiorinni tinha feito o trabalho para libertar Caballero e agora viriam atrás de mim. Talvez eu ainda fosse a única coisa que tentasse impedir o seu domínio na região. Naquela madrugada José foi solto de novo e a população estava em pânico. Eu? Bem, eu estava sozinho. Quer dizer, sozinho não, eu tinha uma boa pistola, um gatilho rápido e Getúlio ao meu lado.

Fui ver Suzana. Era ela que me mantia fora da insanidade. Nos últimos tempos havíamos ficado bem próximos e com ela já podia dividir minhas intimidades. Eu disse que sentia medo, que não sabia se voltaria e que se voltasse a queria comigo. Em troca ela me fez arregalar os olhos, soluçar e saltar da cadeira. Eu sabia que seu nome era Suzana mas ela me revelou um terrível verdade. Seu sobrenome era Migiorinni.

Eu devia ter percebido. Naquela tarde em que Caballero invadiu o bar todos ficaram espantados mas Suzana ficou diferente. O seu olhar denunciava familiaridade com o mais importante capanga de seu pai. Durante nossas conversas ela sempre desviava certos assuntos como sua família ou omitia nomes. Eu julgava que tal atitude era pra se proteger, não lembrar um passado deixado pra trás, não reviver situações constrangedoras e esse fato eu entendia, me identificava até. Não, não era isso. Suzana havia escondido porque sabia que eu me afastaria instintivamente.

- Desculpe. - e abaixou a cabeça - Por favor, fique longe disso Juan. Eu te amo.

Olhei profundamente para Suzana ainda atordoado.

- Já não posso fazer mais nada. Antes de te conhecer já havia tomado uma decisão e feito um juramento. Não existe mais volta.

Levantei e saí sem olhar para ela. Sem que eu percebesse chorávamos uma única lágrima.

Getúlio me esperava à porta da casa dela. Montei rápido e disparei em direção às pessoas que pudessem me dizer onde Caballero e Migiorinni estavam.

Era só tocar nesses nomes que todo mundo se assustava. Não tinha como. Era muito difícil encontrar alguém que não tivesse sofrido qualquer tipo de opressão de Migiorinni e seus lacaios. Eu tinha recebido vários olhares tortos e conselhos para abandonar essa jornada quando se aproximou de mim um senhor mais velho. Não se apresentou, vestia roupas maltrapilhas e apenas balbuciou o suficiente pra eu entender que o bando se localizavam em um vale alí perto contando os lucros do último assalto que fizeram. Pelo que consegui entender, a vítima desse assalto tinha sido o próprio velho que perdera todas as economias que tinha. Acontece que ele estava se mundando com a sua família quando os ladrões atacaram. Ele implorou pra que eu salvasse também sua esposa, senhora velhinha como ele, daqueles bandidos. Engoli seco e aceitei a missão.

Eu estava nervoso mas Getúlio não. Ele decididamente era muito mais corajoso que eu e, se está lendo atentamente até aqui, já pode perceber que se tem um herói nessa história esse herói é Getúlio. Meus méritos até aqui foram ínfimos e era isso que me incomodava tanto naquela hora.

Galopávamos naquela velocidade que só ele conseguia chegar. Eu suava frio e já não fazia mais reflexões. Sentia que a hora do meu gatilho chegava e eu temia essa hora. Não que não soubesse estivesse negando tudo aquilo que Dick sem olho me ensinara mas é que àquela altura eu ainda não havia matado nenhum homem. No máximo uns animais e alguns furos em latas mas homens são diferentes. Todo mundo mundo tem uma mãe, um pai, uma história e pelo menos um motivo para estar do outro lado do revólver. Matar um homem é distruir tudo isso, é estabelecer um fim que não necessariamente deveria ser alí. Todos merecem uma segunda chance e as balas negam isso aos homens.

Avistei de longe o bando. Eram sete. Me escondia atrás de algumas árvores onde deixei Getúlio. A mulher estava presa à carroça que eles haviam roubado. Não vi Caballero, não vi Migiorinni mas eu tinha uma missão e podia conseguir mais pistas.