domingo, 26 de setembro de 2010

143

Menina,
Tem dias que a rima não encaixa.
E esses dias não valem
Meio tacho de nada.

sábado, 25 de setembro de 2010

142

Digamos que agora eu esteja só e que essa característica
Seja inerente aos meus últimos dias.
Seria eu mais triste?
Depende.
Tem dias em que meu quarto vira meu mundo
E dali não saio nem por decreto.
Decretos esses que eu mesmo crio em meu governo.
Soberano de minhas fantasias,
Deito e durmo.
Alguns outros dias me deixo sair pra dar uma olhada
No que se passa nesse mundo cheio de defeitos
No qual vocês vivem.
Confesso que se não tivesse meu quarto,
Se todo meu direito fosse tirado
E meu trono jogado em pilha de tralha,
Aí sim seria mais triste.
Não, eu não sou um sociopata.
Eu gosto de conviver em família
Ter amigos
Me divertir.
Só não gosto de corroborar com os padrões dessa vida
Que vocês levam.
Seria muito melhor se todas as pessoas vivessem no meu mundo
Mas no meu quarto não cabe todo mundo
Só eu
E, porque não,
Você.
Vem comigo.
Eu te mostro que aqui o sol nasce na hora que a gente quer
E você vai ter mais cinco minutinhos toda manhã.
Só chove quando você quiser ler um livro
Ou ficar o dia todo embaixo das cobertas
Comigo ao lado.
Ninguém vai te julgar
E você vai sempre estar como quiser estar
Independente do que espelhos,
Balanças,
Ou a televisão diga.
Até porque, por aqui isso só existe
Quando você quiser que exista.
Não há mais solidão
E todo dia você vai poder comer brigadeiro
Eu particularmente prefiro pudim
Mas se brigadeiro quiser
Brigadeiro terá.
Eu sempre direi o que você precisa ouvir
E sempre ouvirei o que você precisar dizer.
Não te prometo que todos os dias serão um mar de rosas
Até porque eu tenho vários defeitos
Só te peço paciência.
Sou um tanto novo nessa história de governante
E você bem sabe que política é uma coisa muito séria.
Por isso seus deveres como primeira dama serão de alto valor
Por aqui.
Na verdade você só terá uma tarefa muito importante:
Ser feliz.
Sejamos felizes,
Por assim dizer.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

141

Eu sou um cara de boas ideias.
Talvez as minhas ideias sejam tão boas e geniais
Que ninguém mais consegue entender
Só eu.
Ou não.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

140

O gordinho no fundo da sala
O menino feio que aprendeu a tocar violão
Por causa de uma menininha
Que preferiu seu melhor amigo.
O João Ninguém pelo qual você passa na rua
E finge não conhecer
Ou talvez realmente não conheça.
Aquele cara parado no meio da rua
Trocando o pneu furado, na chuva.
O cabisbaixo alí andando
Temendo mostrar o choro
Depois de terminar com a namorada.
Aquele sentado no fim de tarde na beira da praia
Só refletindo sobre a vida.
Um feliz da vida porque finalmente passou no vestibular
E talvez ganhe um carro dos pais.
Aquele que ganhou um carro dos pais.
O que tem que aprender a sobreviver aos solavancos da vida.
O que tem que se segurar para resistir aos solavancos do ônibus
Que chacoalha.
O que mora perto
O que mora longe.
Um que sente saudade de tanta coisa e que irá
Com certeza
Sentir saudade de hoje,
Que foi o dia em que percebeu que já foi todos eles.
Não que isso faça diferença pra você
Mas pra mim faz.
Porque só refletindo sobre nós mesmo que a gente descobre
Quantas pessoas diferentes a gente já foi
E que talvez todas elas tenham nos trazido
A pessoa que somos hoje.
As derrotas e as vitórias
Tudo que aprendemos ou deixamos de aprender.

Você deve saber que eu sou um cara dado a clichês.
A minha falta de criatividade se demonstra nesse ponto
Mas em minha defesa eu posso dizer:
Geralmente os clichês estão certos.
Tão certos que viram clichês.
E novamente posso dizer que todo o aprendizado é válido
Toda experiência é válida
Com óbvias ressalvas, claro
Não vamos achando que delitos são experiências válidas, por favor.

Eu vivi muito pouco ainda pra saber das verdades da vida
Mas acho que já vivi o suficiente
Pra me alegrar, me arrepender
Pra amar, não amar mais
Ficar com raiva
Enfim, experimentar de um tanto.
Entretando, preciso aprender a ler nas entrelinhas.
Saber que quem já fui pode me dar visão
Saber que quem já fui pode me dar experiência
E vivência.
Aliás, essa última é uma coisa que meu pai me disse
Que só se tem
Vivendo.

Eu fui e ainda sou o gordinho.
Eu ainda sei tocar violão, e isso me proporcionou uma banda.
E olha só que maravilha
Dá pra ganhar um dinheiro com esse negócio.
Na verdade, eu agradeço aos céus por todas as situações pelas quais passei.

Ainda dá pra ser muito mais feliz
E deixar acontecer muito mais histórias.
Só vivi dezenove
Faltam três meses pra eu fazer vinte anos.
Não sei de nada.
Não quero saber.
Um dia, sei lá, vou sair pelo mundo
Vasto mundo
Não sou Raimundo
Mas no meu coração cabe tudo
E eu vou guardar em fotos a minha memória
Pra um dia quem sabe um neto do meu neto
Saber quem eu fui, quem eu serei
Quem eu sou.

Eu ainda sou o gordinho.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

139

Eu agora escrevo depois da primeira vez que nos falamos,
E já consigo prever o futuro.

Primeiro você não vai nem lembrar que tinha falado comigo.
Deve estar deitando agora
Pensando na sua dor de garganta, nos seus estudos, no seu cabelo
Nas festas em que você foi, nas festas em que você ainda vai...
Porque eu sei que você é festeira.
Talvez esteja até pensando naquele garoto que chama a sua atenção.
Mas ele não sabe que não tem a menor chance (nem você sabe, por assim dizer).
Porque hoje eu vi o que eu queria, e não planejo desistir tão fácil.
Já desisti uma vez, reconheço, mas pra nunca mais.

Depois eu vou falar com você de novo, só pra te lembrar das coisas que eu te falei
Da primeira vez.
Só pra dessa vez você lembrar de mim, e eu vou te propor uma conversa.
E nessa conversa só você vai me conhecer, porque eu já sei tudo sobre você.
Pelo menos tudo que eu deveria saber.
Que você é linda, tem os cabelos negros escorrendo pelo meio das costas
E pele branca tipo leite.
É, eu sei que não é a melhor comparação do mundo, mas é porque mesmo com toda a Riqueza
Que o português me oferece, eu não consigo te descrever.
Ou descrever só a sua barriga, linda.
Ou pernas torneadas...
Que quando você falar, vão sair notas voando pelo ar
E o resto da minha vida vai ser um musical do Gene Kelly.
Eu vou te deixar em casa no fim da tarde, e no cair da noitinha
Dançarei na chuva.

Na terceira vez eu não caberei em mim mesmo.
Terei que juntar todas as minhas forças pra manter a racionalidade
E não me entregar à selvageria passional de me atirar
Entre teus braços.
Tentarei não fazer juras eternas, porque apesar de ter o costume de às fazer
Temo serem falhas e te decepcionarem um dia, um outro dia, não esse.
Não desejo te decepcionar, aliás, é a última coisa que desejaria fazer, no último dia
Na última hora de minha vida.
Só desejarei teus beijos enquanto respirar.

Na quarta vez,
A terceira vez não vai ter fim.
Mas não terei mais forças pra ser racional.
Felizmente.

Então dorme, menina
Porque enquanto você dorme eu sonho
Por nós dois.

138

Perguntas idiotas levam a respostas brilhantes.

137

Ainda que a vida lhe permita que fuja
Não tem como, meu amigo.
Você um dia vai se deparar com as coisas como são.

E se o dia tivesse trinta horas
Você reclamaria da falta de tempo
Sem nunca notar
Que temos tempo suficiente pra viver.

Eu só queria viver de cabeça fresca
Relaxado
Sem problemas
Sem passado

Não tem como, meu amigo.

Então vem, senta aqui do lado
Vamos dividir mais uma canção sobre nossas dores
Rachar meio copo de saudade
E lamentar a derradeira solidão

Ainda que a vida lhe ordene que chore,
Chora não.
Diz pra mim que vai ficar bem,
Dá mais um gole
E sai rindo pela porta.
Me empresta um abraço, meu amigo
Sei que um dia devolverei.

E assim vamos levando.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

136 - O samba de José Pereira.

José Pereira se declarava o melhor sambista da sua rua. Não tinha nem conversa, ele era o melhor de todos. Talvez fosse, não sei, mas todo mundo duvidava. Uns vizinhos, que moravam mais em baixo na rua, diziam que fazia muito tempo não o ouviam mais dedilhar uma corda que fosse. "Já aposentou o pinho, não deve valer de mais nada..."; "Se bobear o velho morreu... não vem aqui no bar faz uma semana...". É engraçado o modo com que as pessoas encaram a vida. O que envelhece perde o brilho, o significado e o valor. Não o samba de José Pereira. O samba de José Pereira era ouro e, só depois de velho, foi garimpado dos becos escuros daquele subúrbio mal informado. Aconteceu que em visita ao bairro carente, um grupo de americanos descobriu José Pereira e seu samba dourado. Não quiseram nem esperar que ele arrumasse suas coisas e logo o embarcaram rumo ao sucesso em Nova Iorque à lá João Gilberto. Pobres vizinhos que precisaram chamar o corpo de bombeiros pra descobrir uma casa vazia. José Pereira, tido como velho caduco, como desaparecido por possível óbito em domicílio, que não tinha família por assumir um estilo "malandro carioca" de vida, brilhava nos palcos americanos desfilando seu garboso samba. José Pereira teve de ser reconhecido por outros.Nós estávamos cegos e não vimos que às vezes o que reluz pode ser ouro, ou samba. O samba de José Pereira.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

135

Hoje eu fui buscar o carro do meu pai na oficina. Ele já tinha reclamado duas vezes do polimento do cara de lá e, pro meu não-espanto, o trabalho tinha ficado uma bosta de novo. Eu, que achei que ia voltar de carro pra casa, só fiz cara de mal-amado. Voltei de lá à pé. Na verdade eu fui andando até a Roberto Silveira e lá parei no sinal aberto aos carros. Ben l'Oncle desferindo seu soul nos meus fones de ouvido e eu olhei pra baixo como quem só quer esperar o sinal abrir pra atravessar.Foi quando vi meu tênis velho e rasgado, comprado faz muito tempo, enquanto atravessar aquela rua teve vários outros significados. Eu fiquei me perguntado quantas vezes a minha história já atravessou aquela avenida. Quantas vezes aquele meu tênis beijou o asfalto em passos apressados, felizes, tristes... Quantas vezes mais atravessaria? Quantas pessoas já não sentiram a mesma sensação? Aposto que você também tem momentos assim na sua vida, eu tenho muitos. Ás vezes uma coisa muito simples me faz refletir por horas e horas e horas... E eu continuei lá parado me lembrando de cada momento, cada época da minha vida e de como eu era mais magro, mais burro, mais novo...diferente. No entanto a Avenida Roberto Silveira sempre a mesma, tão pulsante e imponente no coração da minha cidade de médio porte. O sinal fechou aos carros e mais uma vez, a minha história passou por lá.