terça-feira, 29 de março de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 4)

O xerife me olhava perplexo. Não sei se abismado com a prisão que eu acabara de fazer ou pelo fato de ter saído vivo. Seja lá qual foi o motivo, ele estava perplexo. No momento em que apontei minha pistola para o rosto do bandido ouvi suspiros aliviados, comemorações contidas e juro que vi uma velha senhora dando um pequeno murro de comemoração no ar mas nada mais que isso. A alegria que eu achava trazer não era um consenso geral, pelo visto.

- Você sabe que as grades não o irão manter preso.

E só nessa hora eu pensei nisso. Obviamente a decisão mais sensata seria meter logo uma bala na cabeça do mequetrefe e resolver a situação, é duro ter um coração bondoso. Enfim, a prisão já estava feita. Não mataria o bandido sem nenhuma chance de defesa ou risco de real perigo. Não atiraria em um homem desarmado sem motivo aparente... Eu deveria ter feito uma excessão...

Alegando não mais aguentar as pressões do cargo, o xerife me entregou seu distintivo alí mesmo fazendo uma última ressalva:

- Este que você prendeu é José Caballero, braço direito do maior fora-da-lei que essas terras já viram.

Nem precisava perguntar quem era o tal vilão da história, eu já sabia seu nome. Era Signore Migiorinni.

Eu estava trabalhando de vaqueiro em um rancho ainda me recuperando dos ferimentos de raspão que eu ganhei fugindo da loucura e dos tiros do pai de Marluce quando ouvi pela primeira vez esse nome. Ele era o mandatário de uma série de assassinatos que andavam acontecendo na região. Basicamente todos por conta de dívidas e disputas por terras. Se Migiorinni queria, Migiorinni tinha. Todos que não cumpriam suas severas leis eram punidos exemplarmente. Corpos dilacerados, cabeças arrancadas, escalpos à moda indígena. De vez em quando aparecia esse tipo de aviso pelos lugarejos que circundavam suas zonas de atuação como se fossem um lembrete do que acontecia com quem desafiava sua autoridade.

Meu empregador tinha uma política diferente da de Valdim. Willie era pacifista convicto, odiava armas e fazia de tudo para que seus empregados ficassem longe de confusão. Nós ficávamos quietos e ele assegurava a paz. Passei dois anos em silêncio. Passei dois anos aperfeiçoando minha pontaria. Passei dois anos treinando minhas técnicas de cavalgada. Na noite, ensaiava com as minhas sombras e ninguém desconfiava.

Um belo dia acordei, selei Getúlio, pedi minhas contas à Willie e decidi voltar pra casa.

O prefeito em pessoa veio à delegacia. Procurou pelo antigo xerife e vendo o distintivo em minha mão, suspirou cabisbaixo:

- Já é o décimo em cinco anos. Ou fogem ou morrem. Pobres homens, espero que você tenha mais sorte.

Agradeceu pela prisão de Caballero com um ar cansado e desiludido se retirando logo após. Tudo estava acontecendo muito rápido. Eu tinha chegado na cidade, me apaixonado pela garçonete do bar, apanhado, prendido um homem altamente perigoso e virado xerife. Tudo em menos de 4 horas. A vida é mesmo uma coisa engraçada. Eu, que tinha saído fugido do lugar, agora era o responsável máximo pela sua segurança. Ironias da vida.

Respirei, pendurei a estrela com o dourado bem desgastado no peito e fui dar uma olhada no lado de fora da delegacia. Getúlio fazia o maior sucesso.

As crianças o cercavam querendo olhar suas patas, a marca em sua lateral, sua pelagem e ele, que não gostava nada de se mostrar, se empenava todo, estufava o peito, cavalo bobo que só ele. Nada mais engraçado que um pangaré metido à alasão orgulhoso. Sorri. Todos finalmente estavam reconhecendo aquilo que eu já sabia desde o seu nascimento, Getúlio era especial.

Alguma criança gritou:

- Ele só tem patas esquerdas!

Daí em diante já era. Getúlio Pé Esquerdo virou seu nome. Pegou fácil.

Enquanto olhava toda a situação, ela apareceu de novo. A moça do bar, de cabelos ruivos e agora com um sorriso de apagar o sol:

- Você foi muito corajoso lá no bar. Há tempos não via homens assim por aqui.

- Então hoje é seu dia de sorte madame, porque esse homem quer convidá-la a um passeio.

Ela se enrubeceu. Adoro quando as mulheres enrubecem, ficam parecidas com um botão de rosa. Envergonhadas e belas...Ah, eu amo as mulheres...

- A propósito, posso saber sua graça madame?

- Suzana.

- Prazer, xerife Gonzalez. Mas pode me chamar de Juan.

Assobiei para Getúlio que veio imediatamente, montamos e fomos passear.

Obviamente a delegacia não estava desguarnecida. Juntamente com o distintivo eu herdara o comando sobre quatro bons homens que trabalhavam com o antigo xerife e viram em mim um motivo para não abandonar o barco como o outro fizera. Enquanto eu estava fora três deles montavam guarda na delegacia tomando conta do preso esperando que o quarto enviasse a notícia para o destrito maior que possuía uma cadeia de porte suficiente para a periculosidade daquele prisioneiro. Demoraria mais ou menos uma semana para que ele pudesse ser transferido de maneira adequada.

Suzana tomou conta das minhas cinco tardes seguidas. Eu era quase uma celebridade local. Alguns diziam até que nunca houvera um xerife igual.Sem precedentes nos mais heróicos atos. Quando na verdade foi Getúlio o grande salvador do dia, se alguém devia usar o distintivo esse alguém era o meu cavalo. O povo às vezes fala de mais. Talvez fosse esse um dos meus maiores problemas.

Eu dormia em uma hospedaria em frente à delegacia sem muito conforto. Na verdade, era o lugar mais confortável que eu havia dormido nos últimos cinco anos. As coisas estavam relativamente tranquilas e já estava me acostumando à vida de xerife vida mansa.

Uma semana e dois dias já haviam passado da prisão de José Caballero quando a carroça para transpostá-lo chegou à cidade. Só tinha um problema: Não havia prisioneiro para ser transportado.

domingo, 27 de março de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo(Parte 3)

Já era quase de manhã e eu desvencilhava dos galhos secos. Não mais era levado por Getúlio, agora caminhava ao seu lado. Ambos calados e fitando o chão, dividíamos a mesma dor e o mesmo destino. Não nos restava nada no mundo a não ser o outro. É duro perder seus pais.

Minha mãe era um exemplo de candura. Talvez a minha lembrança mais marcante fosse o cheiro dos doces que ela fazia no finalzinho da tarde ou então as broncas que me dava quando eu subia na árvore mais alta da fazenda. Eu a amava.

Meu pai era mais sério, menos risonho, mas nem por isso carrancudo. Era até possível o encontrar contando piadas aos peões lá de casa. Apaixonado por animais, queria ter sido veterinário, mas acabou se tornando advogado. Comprou a fazenda quando eu nasci. Aliás, ele dizia que aquele foi o melhor dia da vida dele. Isso me fazia sentir especial.

Era filho único no entanto a casa estava sempre cheia. Criados e vizinhos entravam e saiam da casa com frequencia. Sábados à noite tinham jantares, bebidas e muita música. Alegria era o lema. Os dois tinham decidido que o bom da vida era viver.

Não. Agora não. Não era chuva que eu via molhar o chão em baixo dos meus pés. Lembrando disso tudo eu chorava. Um choro silencioso. Um choro revoltado.

Três meses e muita fome depois, consegui um emprego numa pequena fazenda cujo dono era a pessoa mais amável do mundo. Grande sujeito, grande coração mas um inegável pão duro. Nunca em toda minha vida trabalhei tanto por tão pouco. Eu tinha direito à água e pasto para Getúlio e tudo mais que fosse minimamente suficiente para me manter de pé trabalhando. Fazia de tudo, arava, plantava, colhia, cortava a (rala) grama do lugar, cuidava do galhinheiro, limpava latrinas enfim, tudo que fosse trabalho pesado e sujo de se fazer.

Podia dormir junto à Getúlio em um velho celeiro que já não era usado a quase duas décadas. Contava Valdim que depois que sua esposa morreu a dois anos, perdera a vontade de viver mas a única coisa que o mantinha vivo era sua filha Marluce e o amor pelas armas de fogo.

Então Valdim era um senhor de cinquenta anos de idade que aparentava ter setenta, tinha aproximadamente trinta armas só em sua sala e uma filha feia. Feia não, horrenda. Se os poetas conhecessem Marluce talvez tivessem que inventar novas palavras para descrevê-la. Me dá náuseas só de lembrar da verruga que predominava na sua bochecha esquerda e atraía toda a atenção de modos que eu nunca nem soube a cor de seus olhos.

E Marluce me amava com todas as forças que ela tinha.

Até porque tinha poucas forças. Vivia doente do pulmão e quase nunca podia sair de casa. Quando saia, era pra me vigiar...

- Fazeno u quê?

Eu odiava o sotaque dela. E a minha resposta era sempre a mesma. Trabalho. Baixava a cabeça, continuava o que estava fazendo. Getúlio tinha até tremedeiras todas as vezes que ela se aproximava. Ele me entendia perfeitamente.

Comecei também a ter aulas de tiro com um dos meus companheiros de labuta. Dick Sem Olho. Na verdade, Valdim encorajava todos nós a ter aulas de tiro. Costumava dizer que "por essas banda os meu ôme mode sabê atirá". Engraçado, nele o sotaque não parecia estranho, parecia... Justo. Voltando ao Dick, ele ganhara esse apelido porque uma vez, ainda pequeno foi brincar com a faca do pai que era açougueiro e acabou furando o olho direito. Pobre Dick. Em compensação, ganhou uma mira afiadíssima e um gatilho mais ainda. Aquele era um homem que sabia o que fazer com uma arma na mão.

Passei três anos nesse lugar, até Marluce ter uma ideia genial: me conquistar pra sempre.

Acordei ainda meio baleado de sono. O galo já cantava e o dia convidava à mais uma jornada de calor infernal. Nada podia ser pior. Mentira, podia sim. Valdim entrou chutando com toda a força o porta do meu (já mais arrumadinho) celeiro velho. Bufava, estava vermelho, como se alguém tivesse roubado algo dele, ou melhor, da filha dele.

- Agoooora vai tê qui casá disgraça dum demonio véio!

É incrível como as mulheres podem ter ideias idiotas. Ela havia contado para o pai que na noite anterior, eu a tinha seduzido e roubado sua virtude de maneira cruel. Confesso que ri por dentro. Todo mundo sabia que ela vivia pelos cantos com Dick Sem Olho mas nessa hora eu percebi que talvez fosse um jeito dela fazer ciúmes em mim, não sei. Nunca entendi as mulheres. Satisfazia seus desejos carnais com o caolho, mas suspirava pelo órfão. Que bela vida essa ein, feinha.

Me recusei e fui expulso à balas. Só deu tempo de pegar a pistola que eu havia ganhado de presente do próprio Valdim ao vencê-lo numa competição de tiros em lata à 40 pés (descobri um grande talento) e montar em Getúlio para disparar de novo pela vida. Esse era o meu destino.

O homem da capa acizentada sorriu ao ver minha tentativa de movimento disfarçado. O problema de quando você está ferido é que nada que você faça vai parecer natural. Eu estava muito mal, não comia bem a semanas e tinha acabado de levar uma surra. Nunca iria conseguir fazer um movimento leve de mão.

- Você cresceu bastante mas continua um fraco.

Levantei um pouco mais a cabeça e só então pude ver seu rosto. Me pareceu assustadoramente familiar. Um fantasma que vem assombrar depois de muito tempo. Aquele homem iria me matar cinco anos atrás, não fosse por Getúlio. Congelei. Ele certamente tinha reconhecido o cavalo e entrado no bar na esperança de poder terminar o serviço. Até agora seu plano corria bem.

Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, já estava voando pela janela do bar e aterrizando na estrada de terra que dividia a cidade ao meio. Rapidamente todas as pessoas que estavam dentro de todas construções dalí sairam para ver o espetáculo.

Ele saiu do bar e me encontrou no chão ainda. Sadicamente se aproximou, falou uns palavrões, blasfemou e cuspiu pro lado esperando me levantar. À duras penas me ergui. Cerrei um pouco os olhos e comecei a ver melhor. Ele segurava sua pistola apontada pra mim.

- É agora garoto, chegou a sua hora.

Não era. Saquei minha pistola com a velocidade que só se consegue após anos de prática. Deus salve Dick Sem Olho. Ele não esperava isso. Eu estava entregue, estava sujo, estava ferido mas eu vi Getúlio e Getúlio tinha me visto. Meu cavalo ensinou àquele homem o que os franceses chamariam de deja vú. A multidão abriu espaço no mesmo milésimo de segundo em que ele lançou meu carrasco frustrado ao chão novamente.
Apenas sorri.

- Parece que é a sua hora dessa vez.

sexta-feira, 25 de março de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo(Parte 2)

Eu sempre tive uma síndrome de paixão imediata por ruivas. Quando eu tinha lá meus doze anos e ainda estava naquela fase de descobrir os mistérios do relacionamento humano, eu tinha uma vizinha ruiva. Ela era linda e dois anos mais velha que eu. Não que isso fosse um problema. Ela se desenvolvera rápido de modos que eu me pegava a sonhar com suas (agora me recordando) leves curvas e cabelos vermelhos. Não cheguei a dizer como me sentia, ela se mudou no dia em que eu tinha decidido fazê-lo e eu nunca mais a vi. Acontece.

Do outro lado da bancada do bar encontrava-se a criatura mais bela do mundo. Tão bonita que eu me envergonhava de estar maltrapilho e fedorento. Somente nesse momento percebi que não tomava banho fazia um tempo e talvez essa fosse minha maior necessidade, ao contrário do drinque que eu acabara de preferir. Tinha olhos verdes e decididos. Me encarava esperando um pedido com os cabelos ruivos em trança enrolados até a cintura. No que meus olhos se desviavam suavemente para seu decote, ela, com sua voz angelical de rachar qualquer taça de cristal à dez metros, sussurrou:

- Mais pra baixo e eu uso a minha carabina na sua fuça, palhaço.

Nunca uma ameaça me soou tão lisonjeira. Só pude oferecer meu melhor sorriso amarelo em detrimento do meu bafo que também já estava a impestiar o ar. Meu Deus... O que aconteceu com a minha higiene? Pedi um copo de uísque e ela o trouxe com uma destreza sem igual. Acho que me serviu de uns cinco copos seguidos. Eu os pedia somente como pretexto para tê-la por perto por alguns segundos, infelizmente disputava sua atenção com todos os outors bêbados do lugar. Por falar em bêbados...

- Quem é o dono do cavalo da meia lua?!

Eu sabia que já estava demorando de mais. A vida nunca é tão boazinha.

Entrou arrombando as portas do lugar um homem de capa negra acizentada e no instante em que isso aconteceu, todos prenderam a respiração. Confesso que dei graças a Deus porque não tinham feito semelhante coisa quando entrei no lugar, se fizessem eu estaria muito mais envergonhado da minha higiene pessoal do que estava na hora. Enfim, ele entrou no bar cheio de pompa. A música parou, as pequenas brigas pararam, olhos somente nele... e em mim. Afinal de contas, era eu o dono do cavalo da meia lua.

Quando se chamuscou no incêndio, eu sabia que o pêlo de Getúlio ia ficar marcado de algum jeito. Só não sabia que a chamusca na sua pelagem negra ia ficar branca. Como se fosse uma lembrança de tudo que passamos naquela noite. Do mesmo jeito que eu tinha as minhas marcas, Getúlio tinha as dele.

Permaneci de costas e virado para o bar. A menina, que ainda estava linda, agora tentava esconder seu temor nos olhos enquanto o homem se aproximava cada vez mais.

- Eu perguntei quem é o dono do cavalo da meia lua!

Dessa vez ao lado do meu ouvido. Ele sabia que era eu mas eu gosto de fazer charme de durão, percebi que ele também. Pegou meu ombro e tentou me girar. Mantive minha promessa, ninguém nunca mais faria aquilo comigo, então durante o giro fechei o punho e rezei para o meu soco sem mira acertar seu destino.

Não acertou.

O desgraçado era muito rápido e antes que eu pudesse terminar de socar o vento, me acertou a boca do estômago com uma joelhada. Quase vomitei. Uma cotovelada na minha nuca, quase desmaiei. Um chute nas costelas e eu desviei.

Consegui rolar para o lado e nessa hora ele perdeu um pouco o equilíbrio. Claramente ele não estava preparado para uma briga de bar. Ninguém deve se dispor a lutar de mãos nuas com tantas armas penduradas ao corpo. Consegui reparar isso quando levantei. Ele carregava duas pistolas cruzadas no peito, mais uma na cintura, um sobretudo cinza (como já havia dito antes) e balas penduradas em todos os lugares do corpo. Foi um tremendo golpe de sorte ele ter desviado do meu primeiro soco...ou não.

Todos alí o respeitavam. Dava pra ver. Normalmente os bêbados e curiosos se ajuntariam em volta e torceriam, escolheriam lados, gritariam. Não, nada disso. Estranhamente o silêncio só era quebrado pelos meus gemidos de dor. Eu estava gemendo? Percebi que uma dor imensa começava a tomar conta de mim mas o que eu podia fazer? Se desmaiasse o que aconteceria comigo? E Getúlio? O que será que aquele cavalo tinha feito?

Finquei o pé, levantei o queixo e comecei a levar a mão levemente à cintura...

quinta-feira, 24 de março de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo(Parte 1)

Talvez esse não seja o começo da história mas como a história é minha, eu a começo por onde bem entender. Eu montava Getúlio enquanto corríamos com toda velocidade que alguém pode conseguir de um cavalo com quatro patas esquerdas. É. Getúlio tinha quatro patas esquerdas, todas em seus devidos lugares, mas todas esquerdas.E nessa hora corriam como vento. Eu preferia tê-lo chamado de Getúlio Pé de Vento, no entanto, Pé Esquerdo foi o apelido que pegou assim que a garotada ficou sabendo da peculiaridade do cavalo do novo mocinho da cidade. Título que eu ganhara merecidamente caso de três semanas atrás.

Nada disso importava agora, só os tiros que ricocheteavam atrás de mim e nas pedras que serpenteavam nosso caminho. Getúlio as ignorava. Passava por cima de cada uma como se nada fosse, machucando cada vez mais seus cascos nus, que só estavam assim pela pressa na qual partimos quando invadiram meu quartinho. Tive sorte de encontrar Getúlio ainda pastando do lado de fora da hospedaria, se eles fossem mais espertos, saberiam que a minha única chance de escapar era o cavalo.

Eles se aproximam.
E uma ponte também.

Nunca em toda minha vida Getúlio recuou de um obstáculo que fosse, cavalo sensacional, não o trocaria por nada.

A ponte é bamba, Getúlio pisa em falso e o mundo desaba do penhasco.

Lembro do dia em que eu ainda era pequeno, e o meu pai me deu um par de botas com esporas. Acho que foi o segundo melhor dia da minha vida. Era cedinho e o sol ainda sentia certa preguiça tardando assim em aparecer por trás da paisagem verde. Foram bons os meus dias naquela fazenda. Corria-se muito, aprendia-se as maravilhas do trabalho pesado e do esforço recompensado. O suor na testa era o fardo e o galardão.
Tudo ia bem.

Foi em um dia chuvoso, pra depois das dez da noite, que conheci Getúlio. A melhor égua do meu pai entrara em trabalho de parto e todos correram para ver o que aconteceria. Trovejava bastante e talvez pudéssemos perder alguma parte da plantação que já se encontrava em estado de calamidade. Água, muita água. Foi assim que ele veio ao mundo. Com muita água.

Mais tarde, reparando no andar do potro, percebemos que ele cambaleava para a esquerda e obviamente achamos tal fato muito esquisito - O que andamos pondo na bebida dele? - nos perguntávamos. Nessa hora papai tomou o potro nos seus braços e olhou para suas patas. Eram levemente deslocadas para a esquerda. Todas elas. Eu sorri.

Simpatizei com ele desde o início.

Sempre gostei de cavalos, principalmente dos velozes, então sempre os montava para ver qual era o mais rápido. Um dia, ao ver que a musculatura de Getúlio já se desenvolvera suficientemente, resolvi montá-lo.

Ele não simpatizou comigo.

Caí umas cinquenta vezes da sela que arduamente botei em suas costas. Ele era jovem, forte e teimoso. Qualidades das quais, modéstia parte, eu compartilhava com ele. Permanecemos nessa luta por horas até nos cansarmos e eu cair no sono em campo aberto.

Acontece que meu pai tinha vícios e, em uma partida de poker, decidiu mudar o rumo das nossas vidas. Apostou a fazenda em um par de ases. Perdeu tudo para um full house. Ironias da vida. Ele tinha se recusado a cumprir a aposta uma semana depois alegando que estava bêbado e que nada do que tinha feito podia ser considerado. Mas com esse tipo de gente não se brinca. Eu tinha dezessete anos e acordei com fumaça em minhas narinas.

Estava deitado a quinhentos passos da casa e tudo que pude fazer foi sair correndo desesperadamente de encontro ao inferno que se formara logo alí. É esquisito ver sua casa queimar. Sua história, seus laços, suas raízes, tudo em chamas. Chorei. Ao me aproximar, alguns dos homens mandados àquele trabalho ainda estavam do lado de fora e me seguranram. Pegaram meus braços enquanto me debatia e me forçaram a assistir tudo. Impotente, fraco. Ainda ouço os gritos do meu pai e da minha mãe ecoando na cabeça. Ainda cerro o punho ao pensar nos rostos daqueles homens, ainda posso sentir o cheiro de carne queimando.

Então chegou a minha vez. De frente para o cenário vermelho, forçaram meus ombros e eu não tive nenhum motivo para me manter de pé. De joelhos observei o cano frio da pistola e tive meus primeiros últimos pensamentos. Seria alí meu fim.

Não se dependesse de Getúlio.

Como que nos filmes de ação, meu pangaré canhoto, bem nascido e bem cuidado surgiu detrás da confusão furioso. Ele tinha chamuscado o pêlo no lado da costela direita em um formato de meia lua. Era negro como meus pensamentos, era rápido como a bala que evitou me acertarem. Antes que eu pudesse ver, meu carrasco estava no chão e Getúlio se inclinou levemente como quem oferece carona a um velho amigo, como quem sabia estender a mão na hora certa, como se ele soubesse o que eu estava sentindo. E eu acho que ele sabia. Montei, fugi.

Cinco anos se passaram de modos que ninguém me reconheceu quando voltei. À essa altura já tinha vivido muitas coisas mas a constante na minha vida era o fiel Getúlio. Passei noites com frio, dias com fome, fui vaqueiro, fui trabalhador na terra dos outros e Getúlio se mantinha firme. Aprendi a me defender da vida, nunca mais ninguém me colocaria de joelhos nem deixaria que isso acontecesse às pessoas que não fizeram nada. Não enquanto tivesse o meu par de botas e meu cavalo ao lado. Nunca mais.

Era bom estar em casa. A velha cidade, o velho barbeiro, as mesmas pessoas. Me perguntava como estaria o bar. Não que me preocupasse com sua aparência em si, mas depois dos vinte, todas as horas me pareciam uma boa hora para um drinque. Deixei Getúlio à porta.

Lá dentro alguém tocava um piano nervoso, muitas pessoas bebiam e aparentemente uma pequena briga ia se formando mas nada que não fosse justificado pela bebedeira do local. Me sentei na bancada do bar e ao levantar os olhos mudei o rumo da minha vida pela segunda vez.

domingo, 20 de março de 2011

210

Eu queria ser um gênio.
Ia me poupar tanto esforço...

quinta-feira, 17 de março de 2011

209

Se você pudesse não acordar um dia
Qual escolheria?
Se pudesse voltar no tempo
Qual seria o momento?
Se pudesse mudar seu nome
Seria ele mais bonito
Ou seria só você a mesma pessoa
Com um nome esquisito?
Se cantasse como um tenor
Escrevesse como um poeta
Voasse por entre as nuvens
Soubesse todos os valores presentes numa linha reta
Seria, dentre os homens, o maior?
Se nem homem fosse
Almoçasse com Deus aos domingos
E conversasse com estrelas
Não te chamariam os outros
De louco?
E se aos quarenta
Descobrisse que era mais feliz aos vinte
Mas largou tudo nos trinta
Por medo dos cinquenta?
Se fosse O Primeiro Pintor
Qual tinta usaria
Para colorir os céus
E estampar gaivotas
No horizonte daquela praia que você tanto gosta?
Se pudesse definir o amor
Que palavras usaria?
Se pudesse definir o ódio
Pra que serviria?
Se pudesse ser feliz pra vida toda
Por que esperaria?
Sorria.

terça-feira, 15 de março de 2011

208

Todo mundo sabe que só se deve escrever sobre as outras coisas.
Escrever sobre o que acontece consigo mesmo é se expor sem necessidade,
É recurso de quem não tem mais talento sobrando, e já se rasgou em todas as formas
Antes de vir aqui e escrever, aliás
Admitir, isso.
Me entregando a minha falta de talento
Digo:

Outrora, noutra família nascesse
Talvez não fosse tão amado.
Ainda em projeto de existência já era esperado
E querido, por assim dizer.
Não posso reclamar.
Dizem as boas línguas que falei e andei cedo
Continuam a dizer as mesmas coisas com o passar dos anos
E, apesar de repetitivo nas festas de família,
Meu ego agradece.
Veja bem, não que meu ego seja tão inflado assim
Você vai ver ainda que eu não tenho muitos motivos pra tê-lo assim
Mas é sempre bom uma massagenzinha.

Fiz um ano e meio
E uma premonição.
Seria feliz dalí uns dezenove anos
E acho que serei feliz daqui a uns tempos de novo.
Me disseram que daqui a quarenta anos estarei comemorando
O aniversário de quinze anos da minha segunda filha.
Ia, ou vai, ser engraçado.
Eu gostaria, pelo menos.

Acredito eu que o desempenho escolar nunca foi realmente um problema.
Na verdade foi sim,
Não passei de primeira na faculdade.
E durante as festas e o calor que separam dezembro de fevereiro
Me atormentaram uns fantasmas que não quero mais encontrar na minha vida.
Ter visto meu avô chorar já foi traumático o suficiente.
De todas as pessoas no mundo
Ele é o último que eu gostaria de desapontar
E por pura imprudência e jovialidade fútil, desapontei.
Mas veja
O fim de fevereiro e o início de março daquele ano traziam novos ventos.
Forçado a voltar a escola, encontrei alguns amigos na mesma situação
É sempre bom estar com amigos.
É sempre bom encontrar o amor sem esperar.

Eu lembro perfeitamente da hora que ela entrou na sala.
Era a segunda semana de aula
E eu já sabia quem ela era
Já a tinha visto antes
Mas não daquele jeito.
Sabe aquela coisa brega de anjos cantando no adorno rosa?
Então
Foi assim.
Ela usava aquela calça clara que eu gostava tanto
E a camisa verde listrada em branco
Os cabelos pretos molhados como que tomara banho e tinha vindo correndo
Com medo de se atrasar...
Sempre tão atrapalhada.
Tomei a decisão de me jogar de verdade pela primeira vez
E durante seis meses foi maravilhoso.

Mas acontece também que se você é um homem
Você vai tomar uma decisão idiota.
E eu tomei.
O que diferencia os homens na verdade é a capacidade de aprender com isso.
É o que eu acho, pelo menos.
Perdi a primeira menina que eu gostei de verdade.
Chorei.
Me machuquei.
Paciência.
Sei que a machuquei também e me dói bastante só de pensar.
Pois bem
Vida que segue.

Em um desses encontros musicais da vida
Reencontrei a segunda pessoa que me fez pensar que o mundo
Nem é tão ruim assim.
Vivi pela primeira vez uma situação que se repetiria ao inverso
Coisa de um ano depois.
Já havíamos frequentado aulas de inglês juntos
Eu sabia que ela cantava.
Ela sabia que eu tocava baixo.
Já tínhamos tentado uma banda antes,que não deu certo.
E do nada resolvemos nos juntar pra tocar de novo.
Mas para tanto, nos encontramos em um barzinho para conversar sobre os destinos
Que tomaríamos dalí por diante.
E ela se atrasou.
Vendo agora, percebo que devo ter feitiche por meninas que se atrasam...
Enfim,
Ela chegou coisa de uns trinta minutos depois do combinado
E todos estávamos à mesa.
Eu lembrava de ter conhecido uma menina
Mas o que eu vi sentar junto a nós na mesa daquele bar na Lopes Trovão
Foi uma mulher.
Uma maquiagem clara por cima dos olhos castanhos
E o vestido verde tomara que caia.
O mesmo que ela usou na noite que nos despedimos pela última vez
No carro dela.
Noite essa na qual percebi que tipo de homem eu era.
Um homem que não aprendeu com a decisão idiota que tomara uns tempos antes
E acabou tomando o mesmo tipo de decisão.
Parabéns a mim mesmo
E para minha natureza estúpida.
Mudaria tanta coisa...
Imploraria a mim mesmo para não ser tão idiota
E não perceber
Que eu deixei a minha felicidade com os olhos cheios d'água
Olhando minhas costas
E depois dirigindo tristemente até a sua casa.
Sei que ela está melhor agora sem mim.

Entrei para a faculdade.
Engenheiro eu seria, ou serei daqui a uns três anos e meio ainda.
Abraços
Palmas
Alegria
No meio daquele ano eu ganhei um carro.
Me chamaram de materialista
Mas que mal há em gozar das coisas que se consegue na vida?
Tudo vem com tanta dificuldade
Eu seria um robô se não comemorasse.
Continuei meu caminho.
E confesso que já tinha desistido
Quando dezembro chegou.

Final de dezembro pra ser preciso.
E pra ser mais preciso ainda
Dia 28.
Um dia que pra mim começou sem nenhuma espectativa
E que proporcionalmente à falta de espectativa
Ficou bastante interessante
Quando após algumas mensagens, eu começaria a viver pela segunda vez
O inverso.
Ela usava uma camisa que flutuava preta.
E calça jeans.
Pouca maquiagem.
E não precisava de mais nada.
Era, e é, linda.
Aliás, fiz questão de dizer isso a ela por todo o tempo e todos os dias
Que passamos juntos.
Saímos
Nos divertimos
E na virada de fim de ano
Quando todos fazem seus desejos,
Eu desejei um mês.
Só um mês
Pra mostrar a ela como tudo podia ser maravilhoso
E quão perfeito nós dois
Poderia soar.
Ganhei dois meses.
Ganhei super poderes
Fiquei mais bonito
Mais inteligente
E tudo isso por causa dela.
Sentia que podia fazer qualquer coisa, queria levá-la para o mundo.
Mostrar que se pode enxergar tão longe do alto
Que você pode até ver a Terra fazendo a curva.
Ou que existem músicas que te fazem se sentir sozinho
Mas que eu sempre estaria alí pra um abraço ocasional.
Eu quis dar meu mundo.
Eu a tratei como uma rainha
E ela me disse não.
Não era a hora.
Acontece.

Decidi viver por viver.
Ser mais focado nas minhas coisas.
Deixar meu coração escondido em algum canto
Embaixo do tapete talvez.

Mas hoje,
Nesse exato momento até,
O Jamie me diz
Love ain't gonna let you down
E eu acredito.

O pior é que eu acredito.

Eu ainda acredito nele, por assim dizer.

domingo, 13 de março de 2011

207

Inteligência é encontrar explicações razoáveis pra ter feito as coisas que você fez sem pensar.

sábado, 12 de março de 2011

206

Eu voltei pra você
Quantas saudades eu senti
Me sinto infinitamente melhor agora
Não sei como consegui ficar tanto tempo longe





Minha cama.

quarta-feira, 2 de março de 2011

205

Eu acredito nas pessoas.

Eu ainda acredito nas pessoas.