Eu sempre tive uma síndrome de paixão imediata por ruivas. Quando eu tinha lá meus doze anos e ainda estava naquela fase de descobrir os mistérios do relacionamento humano, eu tinha uma vizinha ruiva. Ela era linda e dois anos mais velha que eu. Não que isso fosse um problema. Ela se desenvolvera rápido de modos que eu me pegava a sonhar com suas (agora me recordando) leves curvas e cabelos vermelhos. Não cheguei a dizer como me sentia, ela se mudou no dia em que eu tinha decidido fazê-lo e eu nunca mais a vi. Acontece.
Do outro lado da bancada do bar encontrava-se a criatura mais bela do mundo. Tão bonita que eu me envergonhava de estar maltrapilho e fedorento. Somente nesse momento percebi que não tomava banho fazia um tempo e talvez essa fosse minha maior necessidade, ao contrário do drinque que eu acabara de preferir. Tinha olhos verdes e decididos. Me encarava esperando um pedido com os cabelos ruivos em trança enrolados até a cintura. No que meus olhos se desviavam suavemente para seu decote, ela, com sua voz angelical de rachar qualquer taça de cristal à dez metros, sussurrou:
- Mais pra baixo e eu uso a minha carabina na sua fuça, palhaço.
Nunca uma ameaça me soou tão lisonjeira. Só pude oferecer meu melhor sorriso amarelo em detrimento do meu bafo que também já estava a impestiar o ar. Meu Deus... O que aconteceu com a minha higiene? Pedi um copo de uísque e ela o trouxe com uma destreza sem igual. Acho que me serviu de uns cinco copos seguidos. Eu os pedia somente como pretexto para tê-la por perto por alguns segundos, infelizmente disputava sua atenção com todos os outors bêbados do lugar. Por falar em bêbados...
- Quem é o dono do cavalo da meia lua?!
Eu sabia que já estava demorando de mais. A vida nunca é tão boazinha.
Entrou arrombando as portas do lugar um homem de capa negra acizentada e no instante em que isso aconteceu, todos prenderam a respiração. Confesso que dei graças a Deus porque não tinham feito semelhante coisa quando entrei no lugar, se fizessem eu estaria muito mais envergonhado da minha higiene pessoal do que estava na hora. Enfim, ele entrou no bar cheio de pompa. A música parou, as pequenas brigas pararam, olhos somente nele... e em mim. Afinal de contas, era eu o dono do cavalo da meia lua.
Quando se chamuscou no incêndio, eu sabia que o pêlo de Getúlio ia ficar marcado de algum jeito. Só não sabia que a chamusca na sua pelagem negra ia ficar branca. Como se fosse uma lembrança de tudo que passamos naquela noite. Do mesmo jeito que eu tinha as minhas marcas, Getúlio tinha as dele.
Permaneci de costas e virado para o bar. A menina, que ainda estava linda, agora tentava esconder seu temor nos olhos enquanto o homem se aproximava cada vez mais.
- Eu perguntei quem é o dono do cavalo da meia lua!
Dessa vez ao lado do meu ouvido. Ele sabia que era eu mas eu gosto de fazer charme de durão, percebi que ele também. Pegou meu ombro e tentou me girar. Mantive minha promessa, ninguém nunca mais faria aquilo comigo, então durante o giro fechei o punho e rezei para o meu soco sem mira acertar seu destino.
Não acertou.
O desgraçado era muito rápido e antes que eu pudesse terminar de socar o vento, me acertou a boca do estômago com uma joelhada. Quase vomitei. Uma cotovelada na minha nuca, quase desmaiei. Um chute nas costelas e eu desviei.
Consegui rolar para o lado e nessa hora ele perdeu um pouco o equilíbrio. Claramente ele não estava preparado para uma briga de bar. Ninguém deve se dispor a lutar de mãos nuas com tantas armas penduradas ao corpo. Consegui reparar isso quando levantei. Ele carregava duas pistolas cruzadas no peito, mais uma na cintura, um sobretudo cinza (como já havia dito antes) e balas penduradas em todos os lugares do corpo. Foi um tremendo golpe de sorte ele ter desviado do meu primeiro soco...ou não.
Todos alí o respeitavam. Dava pra ver. Normalmente os bêbados e curiosos se ajuntariam em volta e torceriam, escolheriam lados, gritariam. Não, nada disso. Estranhamente o silêncio só era quebrado pelos meus gemidos de dor. Eu estava gemendo? Percebi que uma dor imensa começava a tomar conta de mim mas o que eu podia fazer? Se desmaiasse o que aconteceria comigo? E Getúlio? O que será que aquele cavalo tinha feito?
Finquei o pé, levantei o queixo e comecei a levar a mão levemente à cintura...
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