sexta-feira, 1 de abril de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 5)

É engraçada a velocidade com que as coisas se espalham por aqui. Todos os poucos habitantes do lugar já comentavam sobre a possível vingança de José e a maioria deles não me dava mais duas semanas de vida. Confesso que eu não ligava muito para o que eles diziam e me coloquei a investigar a situação.

Assim que entrei na delegacia pela manhã, o cenário me lembrou com quem eu estava lidando. Três dos meus homens estavam mortos com facadas no pescoço e no peito. O quarto homem sob meu comando estava de folga na noite mas quando soube da notícia juntou suas coisas e saiu correndo. Com certeza o bando de Migiorinni tinha feito o trabalho para libertar Caballero e agora viriam atrás de mim. Talvez eu ainda fosse a única coisa que tentasse impedir o seu domínio na região. Naquela madrugada José foi solto de novo e a população estava em pânico. Eu? Bem, eu estava sozinho. Quer dizer, sozinho não, eu tinha uma boa pistola, um gatilho rápido e Getúlio ao meu lado.

Fui ver Suzana. Era ela que me mantia fora da insanidade. Nos últimos tempos havíamos ficado bem próximos e com ela já podia dividir minhas intimidades. Eu disse que sentia medo, que não sabia se voltaria e que se voltasse a queria comigo. Em troca ela me fez arregalar os olhos, soluçar e saltar da cadeira. Eu sabia que seu nome era Suzana mas ela me revelou um terrível verdade. Seu sobrenome era Migiorinni.

Eu devia ter percebido. Naquela tarde em que Caballero invadiu o bar todos ficaram espantados mas Suzana ficou diferente. O seu olhar denunciava familiaridade com o mais importante capanga de seu pai. Durante nossas conversas ela sempre desviava certos assuntos como sua família ou omitia nomes. Eu julgava que tal atitude era pra se proteger, não lembrar um passado deixado pra trás, não reviver situações constrangedoras e esse fato eu entendia, me identificava até. Não, não era isso. Suzana havia escondido porque sabia que eu me afastaria instintivamente.

- Desculpe. - e abaixou a cabeça - Por favor, fique longe disso Juan. Eu te amo.

Olhei profundamente para Suzana ainda atordoado.

- Já não posso fazer mais nada. Antes de te conhecer já havia tomado uma decisão e feito um juramento. Não existe mais volta.

Levantei e saí sem olhar para ela. Sem que eu percebesse chorávamos uma única lágrima.

Getúlio me esperava à porta da casa dela. Montei rápido e disparei em direção às pessoas que pudessem me dizer onde Caballero e Migiorinni estavam.

Era só tocar nesses nomes que todo mundo se assustava. Não tinha como. Era muito difícil encontrar alguém que não tivesse sofrido qualquer tipo de opressão de Migiorinni e seus lacaios. Eu tinha recebido vários olhares tortos e conselhos para abandonar essa jornada quando se aproximou de mim um senhor mais velho. Não se apresentou, vestia roupas maltrapilhas e apenas balbuciou o suficiente pra eu entender que o bando se localizavam em um vale alí perto contando os lucros do último assalto que fizeram. Pelo que consegui entender, a vítima desse assalto tinha sido o próprio velho que perdera todas as economias que tinha. Acontece que ele estava se mundando com a sua família quando os ladrões atacaram. Ele implorou pra que eu salvasse também sua esposa, senhora velhinha como ele, daqueles bandidos. Engoli seco e aceitei a missão.

Eu estava nervoso mas Getúlio não. Ele decididamente era muito mais corajoso que eu e, se está lendo atentamente até aqui, já pode perceber que se tem um herói nessa história esse herói é Getúlio. Meus méritos até aqui foram ínfimos e era isso que me incomodava tanto naquela hora.

Galopávamos naquela velocidade que só ele conseguia chegar. Eu suava frio e já não fazia mais reflexões. Sentia que a hora do meu gatilho chegava e eu temia essa hora. Não que não soubesse estivesse negando tudo aquilo que Dick sem olho me ensinara mas é que àquela altura eu ainda não havia matado nenhum homem. No máximo uns animais e alguns furos em latas mas homens são diferentes. Todo mundo mundo tem uma mãe, um pai, uma história e pelo menos um motivo para estar do outro lado do revólver. Matar um homem é distruir tudo isso, é estabelecer um fim que não necessariamente deveria ser alí. Todos merecem uma segunda chance e as balas negam isso aos homens.

Avistei de longe o bando. Eram sete. Me escondia atrás de algumas árvores onde deixei Getúlio. A mulher estava presa à carroça que eles haviam roubado. Não vi Caballero, não vi Migiorinni mas eu tinha uma missão e podia conseguir mais pistas.

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