A bailarina escorregou.
Não porque talvez ela fosse necessariamente ruim
Ou estivesse despreparada.
Com certeza ela ensaiou bastante pra esse momento.
Horas e horas
Meses até.
Na verdade, a mãe dela a matriculou no balé aos cinco anos de idade
E desde então vem praticando.
Se esforçando
Se privando de várias coisas só pra isso, pra esse momento.
Todas as luzes sobre ela
Como em tantas outras vezes tinha sonhado
Em alguns momentos temido
Outros desejado.
Vários olhos, só pra ela.
O silêncio que invadia o momento a fez lembrar das entre-notas
Nas quais flutuava de uma posição à outra
E que sempre lhe pareceram tão naturais
Leves.
Como se tivesse sido moldada para fazer isso.
Ela sabia que com o tempo,
Apesar de manter suas outras atividades de adolescente,
A dança se tornaria sua vida
Seu mundo
Seu motivo de levantar da cama todos os dias
E Deus sabe que cada um de nós precisa de um motivo.
Nos movemos por nossas convicções.
Nos equilibramos sobre elas.
Assim como fazia a bailarina.
Mas ela escorregou.
E quem de nós nunca cometeu um deslize apesar dos próprios dogmas?
Se fôssemos tão constantes e racionais
Se não existisse nenhuma passionalidade
Nenhuma viceralidade
Seríamos máquinas.
Não erraríamos.
E perderíamos metade da beleza de se viver.
A vida só é boa porque existem momentos ruins
Com os quais podemos comparar os bons.
O amor é bom porque conhecemos a solidão
O remédio é bom porque conhecemos a dor
Mas a bailarina escorregou.
Quem já foi ao chão sabe como dói
E só realmente saboreia a vitória
Aquele que já sofreu com a derrota.
"Então ela tem duas formas de encarar a sua atual realidade."
Eu rezei pra que se reequilibrasse
Tudo bem que foi uma prece de fração de segundo
Nada muito religioso
Mas eu sei que comigo veio o coração de toda a plateia
Deu pra sentir a respiração presa
A tensão no ar
Até a pena de alguns.
A bailarina se estatelou de cabeça no chão.
E por saber de tudo isso.
Aplaudi.
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