quinta-feira, 29 de novembro de 2012

245

É na dor que você percebe a sorte que tem.

244

Eu luto.

Luto pelo meu sangue que faz correr a adrenalina
De simplesmente enfrentar o medo.

Luto pelas minhas dores
E a anestesia que as faz ir embora.

Luto para esquecer de todas as outras coisas desse
Mundo.

Eu luto
E nunca mais vou parar de lutar.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

243

De repente descobri que minha alma era de ouro.
O que me causou certo espanto, visto que nunca tive muito
E exatamente por viver de tão pouco
Planejei meu fim completamente outro.
Agora tenho temores que antes julgava completamente fúteis
Roubarão minha alma, e sobrarão apenas restos inúteis
Somente as partes dela que nem eu mesmo quero
As não lustradas, as escondidas, as erradas
Aquilo que me faz feio e aprendi a esconder
Nos anos em que me imaginei outro.
Ouro não tem falhas, tem brilho eterno
Ouro não se deixa envelhecer.
Admiram sua resilência
Como se a minha alma se justificasse apenas por ser
E tudo que não é,
Ela trata algum valor
Para ter.
No fundo, eu preferia o seu jeito antigo
Meio inibido
Da força que ela tinha quando ainda não sabia
O quanto ela deveria valer.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

242

Deixa cair o muro como cai teu cabelo aos ombros
Ignora todos os nossos desencontros
Antes que amanheça de novo

Gira a maçaneta, me convida pra um café
Um almoço, uma tarde qualquer
Que em dois tempos me faço moço

Quem há de temer essas mãos magras e pálidas?
Quem há de sofrer por nunca mais tocá-las?
Só aqueles que já a tiveram por ínfimo tempo.

Chama pelo meu nome espivitada, desarrumada
Mas eu te olho a mais perfumada
Do meu salão de dentro.

Pega emprestado e rasga
Joga pro alto e faz graça
Pobre do meu coração avarento


Sobre os peixes fora d'água

Eu acho que de tempos em tempos todos deveríamos nos colocar em alguma situação em que não estamos realmente confortáveis. Mas veja bem, não estou te dizendo pra se colocar em risco, pular de um prédio ou qualquer outra maluquice do gênero, só fazer algo diferente, variar. Não sou, muito menos, o mais aventureiro dos meus amigos, tenho medo de várias coisas e tem tantas outras que eu jamais tentaria mas o que é a vida sem as suas oscilações? Temos que saber variar, viajar, tentar novos hobbies. Sabe, conheço algumas pessoas que tem andado chateados com a rotina e em grande parte isso faz parte do processo de crescimento, tudo bem, mas tudo pode ser suavizado. Tudo pode ser melhorado. Já tive as minhas desilusões e creio que ainda terei infinitas outras mas acho que finalmente enxerguei uma solução pra todas elas, coloque-se fora  d'água.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

241

As pessoas precisam desacelerar.
Vai devagar
Compreende o tempo e seu espaço
Reveja seus passos
Nada está tão certo
Ou tão errado
Só vai.

240

O homem morre pela boca
Mas padece do coração.

domingo, 2 de setembro de 2012

239

Quem te fez tão felina, menina?
Desliza pelos meus toques com maciez sem par
Ronrona baixo como quem espera o que virá
Diz pra mim menina, quem te fez tão felina.

Teus pelos que sabem se eriçar na hora exata,
Tuas unhadas que não deixam marca
Movimentos simples
Mas ritmados em sonata.

Que olhos, menina, que olhos são esses?
Quem foi que fez teu olhar tão suplantador?
Quando mordes os lábios já não são precisos
Não existe nenhuma dor.
Assim como quem engana
E faz ceder pelo que quer
Tudo que teus olhos têm de menina, morena
Teus desejos têm de mulher

Há outros lugares em que estive
Outros braços em que deitei
Outras risadas, outros laços, outros casos
Sendo bastante exato
Posso dizer
Não encontrei querer maior em ser e não ser
Em ter e não ter
Em entregar-se, amar, amar, amar e desgarrar-se 
Em viajar e voltar
Como aquele que encontrei em você.

Menina e que solidão é, menina
Quando você vai
Fico eu lembrando as suas minúcias
Dos teus gostos
Das tuas histórias
E como é felina menina,
Em cada ponto teu
Quem foi que te fez assim?

segunda-feira, 30 de julho de 2012

238

Sacudiram o pé de mulher bonita
Me apaixono de dez em dez segundos na rua.

237

Oi,

        Como vai de viagem? Ouvi dizer que aí faz frio. Lembro das vezes em que passamos frio e em todas elas você reclamou, mas não acho que esteja reclamando muito agora. Aviões são maiores do que carros. Só não são maiores que o meu silêncio durante todo esse tempo, veja bem, não me interprete errado, acho que foi justo e benéfico pra todo mundo aqui. Enfim, eu nunca tinha te dito nada depois daquele dia que eu nem sei se você vai se lembrar, mas é isso. Parabéns, seja feliz, como eu acho e espero que você esteja sendo.

terça-feira, 3 de julho de 2012

236



Mesmo depois de tanto tempo,
Obrigado.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

235

Carrego minhas fraquezas penduradas no peito.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sobre mim, as estrelas e todos nós

Todos temos nossos pequenos troféus. Fatos muitas vezes banais mas que carregamos estampados em nossos orgulhos como se fossem vitórias. Não consigo chamar isso de memória, para nós esses fatos são fiozinhos de realidade em que podemos voltar de novo e de novo só pra saborear. Troféu na estante se admira, ficamos polindo e polindo várias vezes pra nos lembrar o quão foi bom ganhá-los.

Não sou o mais visionário dos meus amigos. Não sou o mais polido, não sou o mais inteligente e muito menos o mais inovador, apenas gosto de observar coisas. Gosto de aprender delas o sentido, gosto de escutar o que não dizem e procurar o que não mostram. Gosto de entender as coisas não sei se por diversão, passa-tempo ou necessidade. Todos temos as nossas necessidades. Todos temos as nossas manias. Todos temos as nossas esquisitices maravilhosamente não-programadas  onde somos fortes e frágeis, guardamos um pouco e mostramos outro tanto, é bom que ninguém saiba de tudo.

Nos preocupamos, e basicamente vivemos disso. O que é a vida se não uma grande preocupação? Muitos de nós, arrisco até que todos, já nos pegamos várias vezes cansados de viver, de sentir preocupações e ter compromissos. Só queria que a semana acabasse. Falta quanto tempo pra dezembro? A vida seria tão melhor se fosse outra...

Estando assim deitei para observar estrelas. Não tinha ninguém em casa, nem nos vizinhos. Já era tarde e as crianças não brincavam na rua, eu era atrapalhado por poucos barulhos. Céu aberto, iluminado, aquela luz já era o suficiente pra que eu pudesse enxergar dois palmos na minha frente, era uma noite linda.

Temos às vezes atitudes naturais. Movimentos que não entendemos e naquela hora, meu corpo estendeu o braço e eu então pude sentir. Havia calor em minha mão. No tempo em que as sinapses do meu cérebro foram ativadas e os sensores detectaram o toque, uma  explicação fantástica se formou na minha cabeça, era possível sim, eu toquei uma estrela. Os olhos se arregalaram e eu senti um soluço apertar o peito. Uma ¨gota fria desceu a coluna, era um milagre, eu toquei uma estrela. Não existia palavra, não existia tempo, não existia brisa, não existia passado, não existia mais nada, apenas a minha mão estendida àquele momento. A estrela em toda sua luminescência escapando por entre os meus dedos. Sorri, ninguém nunca vai me roubar esse momento.

A estrela piscou.
E piscou de novo.
E voou.

Era um vagalume.

Gargalhei, coloquei meu troféu na parede e me deitei novamente. Aquele foi o meu milagre, foi onde finalmente olhei a face sincera de Deus, onde posso voltar e ser feliz. Quantas vezes não me peguei admirando vagalumes sem perceber que podia tocá-los? Quantas vezes deixei de tentar por achar que estrelas eram muito distantes? Quer saber amigo, eu vou pra lua. Não deve ser tão longe assim.

Quando eu chegar lá  mando um vagalume te avisar.

terça-feira, 1 de maio de 2012

234

Lembrança é aquele armário em baixo da escada que não deveríamos abrir.

233

A quinta taça de vinho me fez lembrar dos dias que estive por mim mesmo
E tenho estado por mim.
É sim um problema, talvez seja mais do que minha história até
Talvez seja uma prerrogativa de ser eu mesmo.
Complexo, mas minha cabeça gira um tanto e não consigo ter a compreensão simples que a
Sobriedade
Me confere ou conferiria em bons tempos.
Já não sou sóbrio faz uns tempos.

sábado, 24 de março de 2012

232

Que a vida é maluca e imprevisível eu já sabia
Estava avisado de suas voltas até
Mas não esperava por parafusos, loopings e tantos enjoos no percurso.

De vez em quando as pessoas voltam
E fazem tudo que você queria que elas fizessem
Mas só que dessa vez na hora errada.

Vai ver nem seja a hora errada, vai ver elas nem estão realmente fazendo
O que você gostaria que fizessem
Você pode estar completamente enganado
E mesmo assim pode cair duas vezes no mesmo buraco, no mesmo lugar.

É como alguém que se perde numa floresta
E depois de algum tempo caminhando
Se depara com aquela árvore que tinha marcado justamente
Pra não se perder
E mesmo assim se perde.

É escolher estar errado.

"As pessoas mudam" você gosta de se dizer
"Tudo pode ser diferente", o pensamento não vai embora tão fácil.
Einstein já disse:
"Burrice é fazer a mesma coisa várias vezes e esperar resultados diferentes".
Mas quem é Einstein, não é?

Não Gabriel, não é nada disso que você pensa
Não
É
Nada
Disso.

Agora continua vivendo a sua vida
E deixa isso pra lá.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

231

"Esse mundo é muito grande, Gabriel. Talvez por isso nada seja tão derradeiro assim."

Sentado na beira do mundo, com o abismo correndo na planta dos pés
O som do riacho se faz ecoar por entre as paredes altas até o azul do céu.

Sim vó, você estava certa.

Não existem finais plenos de término
Apenas a vida que se inicia e reinicia, com a facilidade do apertar de botão.
O final é o novo começo
E a partir daí tudo se refaz.
O tempo segue
E temos que seguir com ele,
Não é questão de escolha.
Não paramos e esperamos a curtina fechar quando acabamos um ato de nossas vidas.
Muito menos esperamos aplausos
Ou vemos créditos subirem na nossa frente.
Apenas continuamos a viver no final de cada história.
Ainda que seu coração seja partido
Ainda que você ganhe na loteria
Ainda que a sua vida mude completamente da noite pro dia
Amanhã você vai ter que acordar, se espreguiçar
E continuar vivendo.
É exatamente nisso que temos que pautar nossas tristezas
Amanhã o dia vai nascer de novo
E vamos seguir com tudo
Quem sabe até conseguir medir o tamanho do mundo
Que é grande, muito grande
Pra ter final.

Já fiquei chato, vou parar por aqui.
Tchau.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

230

Olhei pra trás na areia e vi minhas pegadas.
Várias delas fundas e pesadas do tempo em que andei preocupado
Outras mais razas da vez em que corria
Algumas até já tinham sido apagadas pela maré que batia
Mas apesar de tudo isso elas ainda estavam alí.
Marcavam a minha passagem, meu rastro, o caminho que me trouxe.
As curvas que fiz, lugares onde parei.
Olhando pra lá agora tudo parece tão mais claro.

Olhie pra frente e vi toda a areia vazia que ainda se estendia pela praia.
Pra que lado eu andaria?
Estaria mais quente alguma parte onde eu possivelmente queimaria meu pé?
Não sei, não tenho como saber.
Parei pra pensar em quantas vezes eu já havia me feito essas perguntas no trajeto até alí
E quantas outras eu nem me preocupei com esse fato.
Só quis caminhar
Só caminharia se quisesse.

A maré sobe e molha meus dedos
O vento bate no meu peito
E o sol ainda brilha no meu rosto.
Eu estou vivo
Vim até aqui
E continuarei a seguir meu caminho
Seja lá ele qual seja.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

229

Coragem é não saber onde está, não saber com quem está, não saber pra onde vai, não saber o que pode acontecer e mesmo assim tomar a decisão certa.

228

Há quem diga, porém, que de frente pra um cano de arma,
Se vê a vida toda.
Não, não se vê nada.
A pessoa vira bicho
A respiração aumenta, a adrenalina sobe e os sentidos se afloram.
Tudo que se pensa é correr.

domingo, 18 de dezembro de 2011

227

A bailarina escorregou.

Não porque talvez ela fosse necessariamente ruim
Ou estivesse despreparada.
Com certeza ela ensaiou bastante pra esse momento.
Horas e horas
Meses até.
Na verdade, a mãe dela a matriculou no balé aos cinco anos de idade
E desde então vem praticando.
Se esforçando
Se privando de várias coisas só pra isso, pra esse momento.
Todas as luzes sobre ela
Como em tantas outras vezes tinha sonhado
Em alguns momentos temido
Outros desejado.
Vários olhos, só pra ela.
O silêncio que invadia o momento a fez lembrar das entre-notas
Nas quais flutuava de uma posição à outra
E que sempre lhe pareceram tão naturais
Leves.
Como se tivesse sido moldada para fazer isso.
Ela sabia que com o tempo,
Apesar de manter suas outras atividades de adolescente,
A dança se tornaria sua vida
Seu mundo
Seu motivo de levantar da cama todos os dias
E Deus sabe que cada um de nós precisa de um motivo.
Nos movemos por nossas convicções.
Nos equilibramos sobre elas.
Assim como fazia a bailarina.

Mas ela escorregou.

E quem de nós nunca cometeu um deslize apesar dos próprios dogmas?
Se fôssemos tão constantes e racionais
Se não existisse nenhuma passionalidade
Nenhuma viceralidade
Seríamos máquinas.
Não erraríamos.
E perderíamos metade da beleza de se viver.
A vida só é boa porque existem momentos ruins
Com os quais podemos comparar os bons.
O amor é bom porque conhecemos a solidão
O remédio é bom porque conhecemos a dor

Mas a bailarina escorregou.

Quem já foi ao chão sabe como dói
E só realmente saboreia a vitória
Aquele que já sofreu com a derrota.
"Então ela tem duas formas de encarar a sua atual realidade."
Eu rezei pra que se reequilibrasse
Tudo bem que foi uma prece de fração de segundo
Nada muito religioso
Mas eu sei que comigo veio o coração de toda a plateia
Deu pra sentir a respiração presa
A tensão no ar
Até a pena de alguns.

A bailarina se estatelou de cabeça no chão.

E por saber de tudo isso.
Aplaudi.

sábado, 10 de dezembro de 2011

226

Quem tem amigos não precisa de mais porra nenhuma.

Muito obrigado por tudo.

Amo a todos vocês.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

225 - nove de dezembro.

Sabe, eu gosto do meu aniversário.
Apesar de ficar mais velho e que sempre chove nos dias 9 de dezembro
Eu ainda assim gosto do meu aniversário.
Aí você pensa "ai... Gabriel é tão egocêntrico...."
Não, não sou.... eu acho.


- Tava gostoso, né?

- É, tava sim.

Pararam o carro na garagem de casa. Subiram. Tem dias que são esperados uma vida toda, por duas pessoas e esses dias geralmente chegam com algum prenúncio, mas jamais sob aviso.

A porta do banheiro se abre.

- Carlos, corre aqui... eu acho que estourou...

A calma com que ela falou não foi normal, foi uma calma que não era dela, não, não era. Era minha. Mas não do meu pai.

Ele saiu correndo como uma bala, um raio, um torpedo. Em questão de segundos já tinha reunido todos os ítens do kit-parto e disparado pelos corredores do prédio, pelas escadas e em menos de um minuto (récorde mundial), já estava na garagem dentro do carro. Havia, entretanto, um pequeno, ínfimo problema... minha mãe estava no apartamento ainda.

Dez minutos e muita gritaria e reclamação depois (agora sim o normal deles), estavam à caminho do hospital, enquanto eu dava umas viradinhas e uns chutinhos só pra todo mundo saber que eu já tava ligado na minha parte e, no que dependesse de mim, tava tudo tranquilo pra nascer.

Às 20 horas, do dia 9 de dezembro de 1990, nasceu Gabriel. Filho de arquiteto, mas que não sabia desenhar, filho de professora e com o português não se entendia. Preferiu os números às letras. Foi feliz, é feliz, planeja continuar sendo.

Parabéns pra mim,
E pra você também se você nasceu hoje.
Sejamos muito felizes ainda.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

224

Sorriso é a moça pra qual até os lábios se abrem pra ela desfilar.

223

Existem coisas sobre você que eu não sei
Outras que não quero saber
Outras que não gostaria de saber
Coisas que eu deveria saber
E cosias que eu não deveria.

Todas elas me levam ao lugar comum de querer descobrir.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

222

A respiração de quem perdeu o ar
As pernas de quem não pode andar
A cabeça do mau humorado
O coração do mau amado
Coragem do medroso
Orgulho do humilado
A beleza em seu mais puro estado
Para feiura escancarada logo ao lado
Alento para o corpo
Cura da alma
Não pode ser visto
Não pode ser tocado
Carinho ao desesperado
A vontade do desanimado
As cores do cego
O timbre do mudo
As notas ao surdo
O primeiro e o último surto
Do louco em sua camisa de força
As flores são para a moça
O gel no cabelo é do rapaz
O sorriso de quem perdeu tudo
A alegria de quem nunca teve nada
O sono perdido no meio da madrugada
E o soluço que começa sem razão
O fim para o "então..."
Na frase que começa de pertinho
Para quem reclama de ser sozinho
Seria a melhor solução
Para quem se perde no chuveiro
Para quem dança na chuva
Para quem não se concentra um dia inteiro
Para quem viaja na lua
Para todo mundo ouvir na rua
É sempre bom cantar...

Lá lá laiá....

domingo, 30 de outubro de 2011

221

Amigo,
não se perca nos olhos dela
Porque toda mulher para esconder sua natureza
Se faz de donzela.

220

Acaso é a desculpa que a vida usa para te surpreender.

219

Eu gosto de flutuar entre o aproximadamente imbecil
E o sóbrio dentro de mim mesmo.
Em minha cabeça fico revendo meus momentos de fraqueza
De constrangimento
Fazendo auto-correções de tempos em tempos
Revivendo involuntariamente meus embaraços.

No Lá menor, lembrei do teu carinho.

Me pego deitado, de barriga para cima
Cantando alto em meu ukulele.
As cordas soam novas
Um som lindo
Quem dera todos os sons da minha vida
Fossem como o desse momento.

Entre o Dó escutei teu choro

Sorri um sorriso vazio
Daqueles de quem lembra de longe as coisas que já passaram
É difícil a gente se lembrar do quanto já foi feliz
E que felicidade não é um sentimento

Fá e já me perdi nos teus abraços

Felicidade é um contexto, uma realidade.
A felicidade instantânea se chama alegria
E de alegria ninguém vive.
Vivemos porque temos a condição de sermos felizes
De experimentar a felicidade no nosso cotidiano
Mesmo que ela se resuma só a abrir o guarda roupas
E não saber o que escolher.
Proque ter opções também é uma forma de felicidade.

Sol e de longe vejo teus passos.

Sabe,
Ainda há muito o que viver
Muito sobre o que pensar
Muita coisa para acontecer
Meu passado ainda é pouco
E inocentemente espero que meu futuro o supere de longe

Independente disso, gosto de flutuar dentro de mim mesmo
Talvez assim eu aprenda alguma coisa a mais sobre o imbecil
E o sóbrio
Que eu sou.




sexta-feira, 21 de outubro de 2011

218

A imposição da opinião é arma que os ignorantes usam para se fazer ouvir.
Opinião não se joga na cara dos outros, primeiro pergunte se eles querem a sua.
Não existe só um ponto de vista e o seu, por acaso, nem sempre vai ser o certo
Ou o errado
Aliás quem é quem pra dizer o que é o certo e o errado?
Deveríamos viver em paz, não nos julgar por cada passo e atitude.
As ruas são infestadas de olhares críticos
E nós apenas os fomentamos, participamos, concordamos.
A sua vontade não se sobrepõe à necessidade da maioria
Tão pouco a sua comodidade.
Não é à toa que existe o "se beber não dirija" e o " não jogue lixo na rua"
Que ouvimos desde a barriga de nossas mães.
Eu sei que você vai falhar com isso, vai ignorar meus avisos
Confesso que eu também os ignoro às vezes
Mas não podemos fazer do deslize a constância.
O mal social é deixar com que a preguiça se sobreponha à urgência
Fazendo com que deixemos crianças morrerem de fome por trás de nossos óculos escuros.
Não adianta estudar e ter a cabeça no lugar
Ser uma pessoa feliz
E ter amigos.
A vida é bem maior que isso
Muito mais que seus amigos,
Precisam de você
Os desconhecidos.
Queremos viver filmes de amor, ação, comédia
Quando na verdade a realidade nos conduz à tragédia
Que é o amanhã dos que sentem medo.
Se imagine por um instante sem esse computador à sua frente
Sem esses sapatos nos pés
Sem esse almoço quentinho que te aguarda todo dia meio dia.
Sem sua televisão
Sem sua educação.
Grande parte das pessoas do mundo vivem assim
Desprovidos de esperança e teto
Vivendo somente da piedade dos outros e de sorte.
Por favor Deus, que eu não precise da minha sorte para viver.
Enquanto você cruza os braços para as desgraças da televisão
Bombas caem sobre o Iraque
Doenças se espalham na África
E somos saqueados por piratas nos mares de Brasília.
"Nossa, que trágico." - revolta verbal não é revolta.
Precisamos de uma solução
Precisamos sair às ruas
Precisamos exigir
Mas muito mais que isso
Precisamos fazer.

Porque hoje eu acordei um revolucionário
E o meu amanhã depende muito dele.

domingo, 11 de setembro de 2011

217

Todo mundo quer escrever sua própria história.
Ser o herói que mata o bandido no final
A mocinha no alto da torre esperando pelo príncipe
Viver de finais felizes.

Sabe minha querida, ninguém quer sair perdendo na vida
E a felicidade está cada vez mais escondida
Nos braços cruzados de quem recusa se mover.

Quem sente dor chora e reza baixinho
Torcendo para que o coração em desalinho
Não seja atropelado pelo não ter.

Ainda me assusto com a velocidade das coisas
Que vão acontecendo sem que possamos realmente vê-las
Ou perceber a poesia que carregam.

Queria que vivêssemos em uma época muito melhor que essa
Em que somos dominados pela pressa
E nossos olhos aos fracos e impossibilitados, sujos e surrados, renegam.

Ontem minha nêga, fui deitar impaciente
E me perdoe se te deixei carente
Mas só queria dormir

Acontece que socorri um acidentado
Com o corpo todo quebrado
E o atropelador do atropelado
Conseguiu fugir.

Mais tarde a polícia pegou o camarada
E o encheu de pancada
Tanta violência por nada
Parece que estava drogado, alcoolizado e só queria sair dalí.

Acontece todo dia em todo lugar toda hora
Queremos sair e chegar sem demora
Não temos paciência de viver.

Hoje eu acordei outro homem, neguinha
Vamos parar de historinha
E somente (definitivamente) nunca mais sofrer.


domingo, 24 de julho de 2011

216

Noite escura e um copo d'água
Quem talvez visse não diria que estou nos meus melhores momentos
Não acho que faça diferença à essa altura
Tão somente divago em pensamentos.

Várias cores flutuam na minha frente
Enquanto custuro por momentos de longe e de perto
No meio disso tudo está parado, pulsante, inerte
Meu peito aberto.

Os cheiros das várias noites que vivi por aí
A solidão que por vezes senti
A alegria de apenas sorrir
O remorso das vezes em que fugi

Pelas horas de minha vida passo em saltos
Choro baixo, rio alto
Minha vida em telas de cinema
Minha vida embaixo do colchão da minha cama.

Tudo que eu quero que todos saibam
E as coisas que só guardo pra mim
Girando em uma grande roda, bailam
Despertando o que tenho de bom e de ruim

Vai ver nem vivi tanto pra lembrar de tanta coisa
Vai ver eu exagero nas palavras só pra deixar tudo um pouco mais dramático
Faço de minhas invenções a minha casa
E das minhas hiperbólicas mágoas, um palco.

Eu enceno, canto, danço
E até digo que não
Mas sim
Eu quero também os aplausos.

terça-feira, 19 de julho de 2011

215

Eu sei
É um pouco cedo pra fazer meus últimos desejos
Mas andei escutando uns boatos
E pelo visto o mundo vai acabar em poucos dias.
Não guardei comida nenhuma.
Deixei tudo que está aí pro que vier depois
Seja lá o que o depois for
Se é que vai existir um depois.
Tomei provavelmente meu último banho
Vesti minha última cueca
E me pareceu extremamente ridículo escovar os dentes ou pentear o cabelo.
Já que o mundo ia acabar mesmo
Por que motivos me preocuparia com coisas tão pequenas?

Me peguei pensando o quão pouco eu amei.
Não, não é isso, você entendeu errado
O amor não se encerra somente entre duas pessoas
Mas entre todas as coisas
É triste perceber isso agora, somente no fim
Quando já não dá mais tempo de amar nada.

O calor do sol já não é o mesmo,
Não existem mais as brisas que batiam no meu rosto no início de cada verão
Quente.
Pra dizer a verdade, quentes mesmo eram os beijos que ganhei ao longo do caminho.
Talvez eu pudesse ter ganhado,( ou ganho, nunca entendi a diferença nem é agora que eu vou entender)
Um pouco mais deles.
Um pouco mais de abraços
Não ter sido só durante tanto tempo.
Aliás, perto do fim, nos encontramos todos solitários
Vejo alguns vagarem na rua sem ter pra onde ir
Outros desesperados correndo sem saber se vai dar tempo de chegar
É rapaz, foi-se o tempo em que a correria se devia ao dia-a-dia
E uma rotina que foi cada vez nos isolando mais, ao ponto de não conversarmos
Nunca conheci meus vizinhos.

Me sento à beira da praia fria e deserta, lembrando o quanto já fui feliz naquele lugar.
Se tivesse mais tempo com certeza iria mais à praia.
As mulheres desfilando seus corpos lindos à beira do mar que ia e voltava
Do mesmo modo como faz agora, explêndido, forte, imprevisível....

Imprevisível.

Sabe, tem certas coisas que agora não fazem mais sentido nenhum.
Todas as guerras que já aconteceram agora não são coisa alguma
Toda a fome que o mundo já passou será esquecida
A dor, a perda, o sentimento de quem sofreu com tudo isso
Já não valem mais nada.
Chegou o fim.
Agora acaba.

Queria ter dito as coisas que sempre quis dizer
Mas a falta de perspectiva me tornou mudo.

214

Eu não sou como você.
Não gosto da França
Mal falo inglês
Tenho completa certeza de que o meu lugar é aqui.
Prefiro o dia
Não tenho dinheiro pra fazer o que eu quiser na hora que eu quiser.
Sou um classe média assumido
Não preciso das grifes que estampam os outdoors pra ser feliz
Na verdade
Não preciso de quase nada
Só de uma meia dúzia de cordas
Que vai tudo bem.
Não menosprezo da capacidade das outras pessoas
Julgo-as completamente iguais a mim
Não acho que eu seja a pessoa mais importante da vida dos outros
E talvez nem gostaria que fosse
Porque eu sei que o mundo não gira à minha volta
O mundo gira apesar de mim
E de você.
Apesar de nós o mundo vai girar
As coisas vão acontecer
E se você continuar nessa sua saga até o topo sem olhar pros lados
Pode ser que falte
Alguém pra te segurar a mão quando você tropeçar.

Nem sempre podemos confiar nos cabos de segurança
Nem sempre as nossas habilidades, por melhores que elas sejam,
Nos levaram aaté onde queremos chegar sozinhos.
Não.
Existe um motivo para o mundo ter mais de seis bilhões de pessoas
Porque se fosse pra você viver sozinha, minha querida amiguinha,
No mundo só existiria você.
Ah, desculpe,
Você e a sua capacidade superior de compreender todas as coisas e ser muito melhor em tudo
Do que todo mundo.

Não tropece.
Porque se tropeçar, não estarei mais lá como antes estava
Não dessa vez.
Mude, ou outros me acompanharam
Aliás
Não sou o primeiro.
Só dá uma olhada pros lados pra conferir....


sábado, 9 de julho de 2011

213

Somos todos imortais.
Todos que nos cercam são imortais
Todos que queremos que sejam imortais, o são.

Ninguém vai morrer, não enquanto gostarmos deles
Só morrerão quando nos chatearem
E reviverão ao menor remorso.

Ninguém nunca vai sorrir pela última vez
Sempre teremos mais um novo motivo para gargalhar,
Para desfrutar do charme de uma moça bonita meio envergonhada,
Para beber aquele vinho daquela boa safra,
Para brindar com os amigos em mais uma madrugada.

Ninguém nunca vai dar o último boa noite
Porque depois da noite sempre se seguirão os dias
E as noites
E os boa-noites que se dão àqueles que se julgam queridos
Preciosos
Importantes.

Não há de acontecer um último encontro
Porque sempre nos veremos em todos os logo mais que se seguem na vida
Porque essa seguirá com ou sem destino
Dependendo da vontade de quem guia
Só pelo prazer de guiar.

Sempre se farão eternos
Os nossos castelos de areia
E nunca virão as marés para derrubá-los.

Definitivamente não existirão fins definitivos
Apenas soluções momentâneas
E as coisas naturalmente se acertarão.

Quem sabe existirá um contra-ponto
Uma régua para medir o torto
E as pessoas não discordarão sobre pontos de vista
Que agora não mais divergem
Mas se completam.

E sobre que fim se dobrariam nossas lembranças mais remotas?
Para que lado apontariam nossos destinos?

Não sei
Bem como
Você também não sabe

E não caberá a ninguém saber.
Esse fim não existe, não existirá
Não existiu.
Não aqui, não agora.

Porque quem nós escolhemos que viva pra sempre
Simplesmente o faz.
Porque essas pessoas,
Assim como nós,
São imortais.

212

"-Gabriel?

- Eu.

- Então, tenho algumas notícias ruins pra você..."

terça-feira, 31 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 12)

Apesar de todo o sol que fazia lá fora, apesar da brisa que batia no pasto baixo dos longos campos daquela fazenda, um pequeno garoto cerrava os punhos em ódio. Uma lágrima caía. Do outro lado da casa, por detrás de uma porta trancada, ele já estava acostumado a ouvir os gemidos de dor de sua irmã. "Assim que eu puder..." - pensava - "...tudo isso terá um fim." E novamente saía de lá a menina com 0s olhos esbugalhados e a garganta seca de tanto gritar. Corria para os braços do irmão e somente lá ficava em paz. Tinha sido assim desde que sua mãe morrera de tuberculose fazia dois invernos. Seu pai havia ficado maluco ou simplesmente tinha acabado a última barreira para que pudesse expor suas perversões mais doentias.

O garoto observava os lindos olhos azuis da sua irmã e simplesmente não aceitava a realidade. Eles eram tão felizes a pouco tempo atrás... Sua irmã tinha o sorriso mais belo do mundo. Tudo que ele ouvia agora eram gritos e risadas histéricas. Todos na casa haviam perdido o prumo e ele resolveria isso.

Em uma noite escura, acordou silenciosamente a menina rescém-açoitada. Ela sem muito entender o que acontecia só pode obedecer quando seu irmão mais velho lhe pediu para que arrumasse as coisas dos dois. "Logo faremos uma viagem para nunca mais voltar aqui...". o garoto sabia onde o pai guardava a pistola. O garoto sabia como usar a arma. O garoto colocaria um fim naquilo tudo.

Sua irmã apenas acompanhou com os olhos arregalados o movimento felino do irmão por dentro do quarto do pai. Ela já havia posto os sacos de pano com as roupas e um pouco de comida em lata da cozinha à porta quando avistou a arma reluzindo a luz da lua na mão do irmão. A menina arregalou os olhos e deu um grito que foi abafado pelo disparo certeiro da pistola.

Ela jurou nunca encostar em armas.

Em estado de choque foi carregada casa à fora pelo irmão que a segurava por um braço e no outro levava os mantimentos.

Para se manterem vivos naqueles tempos difíceis, o garoto praticava pequenos delitos nas estradas pouco policiadas da região. O tempo todo observado pela irmã que cada vez se aprofundava mais em sua própria loucura. Até que em um desses delitos, seu destino mudou...

- Parem a carruagem se não atiro! - tentou gritar com a voz mais grossa que seus 18 anos permitiam...

- Em nome de que eu deveria parar? - retrucou o cocheiro.

- Em nome da bala que mora em meu revólver.

Nesse momento uma gargalhada pode ser ouvida de dentro da carruagem. A porta se abriu e de lá saltou um homem gordo, bonachão, cheio de si, com roupas um tanto espalhafatosas e ostentava bastante ouro. O garoto arregalou os olhos. Nunca tinha visto tamanha riquesa.

- Eu acho que gostei de você garoto, você tem fibra, pode me ser bastante útil... Qual é o seu nome?

- Jo..Jo...José, senhor...

- Ahá! Que belo nome para um magricela morto de fome. Eu me chamo Signore Migiorinni. - e abriu um largo sorriso...


quinta-feira, 19 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 11)

Suzana disse que tinha se desesperado ao ficar uma semana sem notícias após minha partida. Então, vivia a espreitar as conversas do pai a procura de qualquer informação que indicasse o que havia acontecido comigo. Confessou que chorava temendo pelo pior. Até que um senhor com um tapa olho lhe chamou a atenção. Rapidamente se lembou das histórias que eu lhe contara sobre a minha vida e as pessoas que eu havia conhecido. Ela abriu a porta da casa da família Migiorinni para o estranho com a permissão de seu pai e o levou até o escritório onde Signore estava esperando.

Ela sabia que finalmente ouviria alguma coisa. Caballero também estava na sala e os dois aparentavam um certo orgulho. Se abaixou junto ao batente da porta fechada, procurando uma melhor posição para escutar a conversa por detrás da porta...

- Então senhor Dick Moneiur, sei que nos deve e que está aqui para chorar misericóridia, não é mesmo? Veio aqui para que perdoássemos suas dívidas e o deixássemos viver em paz . Veio para rastejar, implorar, chorar... Pois bem, me convença. Eu tenho certo apreço por seres que se humilham...

- Senhor Migiorini... O senhor bem sabe que sou um trabalhador honesto e que me esforço todos os dias para conseguir o pão de meus filhos...

- Vamos acabar logo com isso, chefe.... - interpelou Caballero.

E Suzana ouviu o som de uma pistola sendo engatilhada.

- NÃO! NÃO FAÇA ISSO COM ELA, NÃO AGORA, EU FAÇO QUALQUER COISA.

Eu não sabia mas, com essa frase, Dick mudaria novamente meu destino.

Botidas muito fortes foram dadas na porta da casa de Migiorinni. Suzana pensou consigo mesma se seria mais um convidado para mais uma das "reuniões a negócios" de seu pai. Entretando, quando correu para atender a porta, viu um rosto familiar.

Sarah, completamente machucada, com as roupas rasgadas e não tão bela assim, bufava à entrada. Com um pequeno passo para o lado, Suzana se sentiu ignorar ao ver Sarah disparar casa à dentro rumo ao escritório onde seu irmão, Migiorinni e Dick se encontravam. Agora sim ela sabia, o assunto era eu. Juan Gonzales, o novo cherifinho que achava que mandava na região.

Novamente abaixada à porta Suzana escutou os gritos tresloucados de Sarah.

- IMBECIL! COMO FOI DEIXAR AQUELES EXPLOSIVOS NA CAVERNA?!

- Primeiro cale a boca, Sarah. Agora me diga, você completou seu objetivo? A julgar pelo seu estado eu diria que não...

Seguiram-se muitos gritos após isso e Suzana só pode identificar a voz de seu pai algum tempo depois quando as coisas se acalmaram um pouco...

- Então temos uma serventia para você Dick... Não quer ter sua mulher de volta? Não quer ter suas dívidas perdoadas? Dê-me Juan Gonzales.

terça-feira, 10 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 10)

Água. Muita água. Getúlio veio ao mundo assim, acho que já disse isso. Como chovia naquele dia e, a despeito de tudo aquilo que caía do céu, eu estava lá, soluçando de ansiosidade. Meu pai permanecia agachado junto à égua, Polaca, mãe de Getúlio, de braços estendidos e pronto para acudir o potro que estava para nascer. Era verão, a chuva quase evaporava ao tocar o chão. Ventava forte e eu desconfiava que o celeiro aguentasse. Nossa, como poderíamos ser mais felizes em um mundo diferente. Em um cenário no qual meus pais ainda estivessem vivos. Em um cenário no qual meu pai não fosse um viciado em jogo e apostasse a fazenda à troco de nada. Nada era tudo que eu tinha até o momento que Getúlio saltou por entre as chamas e afugentou aquele que viria a ser Caballero. E só então percebi. Meu pai havia perdido a fazenda para Migiorinni. Migiorinni mandara Caballero e então minha vida foi desgraçada. Após tanto tempo, Caballero conseguiu completar sua missão. Eu estava caindo de olhos fechados. Era um fim trágico. Queria que acabasse logo. Ou não...

Água. Muita água. Água por todos os lados...

Mal sentia minhas pernas ou braços, mas sabia que não havia acabado alí. Senti alguma coisa puxar minhas costas, rocei um pouco o rosto no barro e desmaiei novamente.

Acordei deitado em uma cama fitando o teto que era bastante parecido com o da cabana de Dick no que dizia respeito à sujeira. Eu provavelmente estava nu e enfaixado. Antes que pudesse perceber qualquer coisa, a dor me fez dormir.

Dessa vez, um sol intenso invadiu uma pequena janela que ficava do lado do meu leito me obrigando a abrir os olhos. Ainda sentia dores, mas já acumulava energias para me sentar na cama e perceber tudo à minha volta. Eu estava em uma cabana pequena, de apenas um cômodo e toda feita de madeira. Estava surpreendentemente aconxegante, bem arrumada e eu diria até cheirosa. Tinha uma pequena cabeceira do lado da minha cama onde se encontravam minhas roupas que vesti com certa dificuldade. Claramente alguém estava cuidando de mim todo esse tempo mas quem seria? Eu precisava de respostas e precisava saber também onde estava Getúlio.

Eu terminava de afivelar minha bota quando uma doce e familiar voz me acalentou os ouvidos:

- Graças a Deus você acordou !!!

Suzana se atirou aos meus braços (talvez cutucando uma costela quebrada e provocando dor intensa) e começou a chorar. Eu também (pelas duas razões).

- Pensei que nunca mais o veria...

Trocamos beijos, carícias e eu me sentia renovado. Suzana tinha esse poder sobre mim. Sempre fui um troglodita para as coisas do Amor e não sabia direito como interpretar o que sentia, mas naquele momento eu era feliz, não fosse por uma coisa:

- Por favor, me diga que você sabe onde está Getúlio.

- Aquele seu cavalo fedorento é um teimoso, não sai da porta da casa desde quando te coloquei na cama.

Sorri. Fui correndo na medida do possível para a porta da cabana e lá estava ele. Evidentemente tão baleado quanto eu, mas lá estava. Estávamos. E de pé. Trocamos um olhar confidente como quem diz ao outro "eu sabia que íamos sair dessa juntos". Com Getúlio nada era impossível. Suzana me contou mais tarde que Getúlio, depois de me puxar para fora da água do rio que corria no meio do desfiladeiro e me trazer para a beira, também desmaiou. Entretanto, diferente de mim, ele acordou no dia seguinte e seguiu os rastros de comida que Suzana deixara para ele. Ela também sabia que Getúlio era um cavalo inteligente. Ela me dissera também que eu estava dormindo por uma semana inteira e que ela vinha regularmente à cabana para cuidar de mim e de Getúlio.

- Mas como você sabia que estaríamos aqui?

Nessa hora ela fechou o semblante, abaixou a cabeça e começou a falar...

-Eu estava lá escondida quando meu pai conversava com Caballero e um homem que usava um tapa olho...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 9)

Sonhei com o sorriso da minha mãe. A algum tempo isso já vinha acontecendo, na verdade, começaram na noite seguinte à minha fuga da caverna. Talvez a minha última experiência de quase morte tenha feito com que eu pensasse um pouco mais na vida, na minha infância, na parte nobre do meu passado. Sonhei também com Suzana. A filha de Migiorinni me causava saudades e eu gostava disso. Queria que tudo acabasse logo para que pudéssemos ficar juntos. Com certeza ficar com Suzana seria o prêmio final da minha jornada, seria o meu final feliz. Eu a tomaria nos braços e a daria aquele beijo dos mocinhos do qual já te falei antes. Ah...como eu queria...

BLAM!

Arregalei os olhos com o barulho. Um subto que invadiu toda cabana como se fosse um trovão balançando as paredes e fazendo cair pedaços do teto no meu quarto. Senti um ódio infinito por ter meu sonho interrompido logo antes que eu pudesse deitar com Suzana. É sempre assim, sempre acaba na melhor parte. Reparei que ainda era madrugada e, um pouco assustado, corri para a porta da entrada da cabana esperando encontrar um motivo.

Apenas a porta aberta. Ventava bastante do lado de fora, logo, julguei que fosse o vento que tivesse aberto a porta com aquela força, apesar do que tinham umas marcas estranhas na porta que antes eu achei não ter visto. Enfim, talvez loucura minha. Então, fui ver Dick em seu quarto, para quem sabe tranquilizá-lo se também tivesse ouvido o barulho. Sempre soube que ele era um cara meio assustado e, ao menor ruído, puxava sua arma. Dick odiava ser acordado de noite. Ri em minha cabeça imaginando a situação. A porta batendo e Dick puxando automaticamente a pistola de baixo do travesseiro e se encolhendo todo em um canto do quarto. Sorri, Dick era um cara engraçado.

Mas não estava em seu quarto.

Eu olhava do lado de fora a sua cama vazia. Só a lua entrando pela janela iluminava o quarto e eu achei muito estranha também a arrumação de sua cama. Parecia que ninguém jamais havia deitado alí, não pelo menos nos últimos trinta anos. Desconfiei.

- Bom, talvez esteja dormindo no chão do quarto mesmo, tenho que entrar pra ver.

E então caí na armadilha.

Ao entrar pela porta, uma garrafa desceu rapidamente na tentativa de me golpear as costas. Percebi e girei o corpo assustado para me esquivar. Tropecei por dentro do quarto e caí na cama esfarelando seus restos. Agora eu estava caído no chão olhando para meu agressor, que eu não conhecia.

- Ninguém assaltaria essa casa - pensei - só existe um motivo para esse homem estar aqui. Migiorinni.

Sim, eles sabiam que eu estava vivo e mais, sabiam onde eu estava escondido. De algum modo, meu plano falhara antes que eu pudesse começar a realiza-lo. Que sorte a minha.

O homem golpeou novamente, só que ele era muito grande e desajeitado, de modos que eu era mais ágil e esquivava com certa facilidade. Ele se desequilibrou novamente e eu pude desviar em direção a janela que pulei com destreza felina. Então um outro pensamento me povoou a mente, onde estava Dick? Claramente ele nunca havia estado em seu quarto e, se estivesse na casa, ouviria o barulho da briga e correria em meu auxílio... eu acho.

Aterrizei atrás da cabana e desesperado fui ao encontro de Getúlio, Dick tinha que estar por perto, não era possível. Entretanto, minha onda de sorte continuou quando dei a volta na cabana e cheguei a frente. O homem já estava lá me esperando e não estava só. Tinham pelo menos mais uns cinco homens com ele e liderando todos estava Caballero.

Ao lado de Getúlio, avistei todos puxarem suas armas. Seria um fuzilamento e mais uma vez vislumbrei meu fim. Getúlio não. Com um coice rápido meu fiel cavalo chutou o balde com água no qual bebia para cima do bando que perdeu a mira e recuou por tempo o suficiente para eu conseguir montá-lo e sair em disparada tomando apenas dois tiros de raspão no braço e na perna.

Getúlio fechou o semblante e correu como o vento. Na verdade, corria muito mais do que o vento, corria como um cavalo com quatro patas esquerdas. Corríamos por nossas vidas, com as armas de Caballero e seus homens a nos mirar.

Bom, acho que finalmente chegamos naquele ponto que não é o início, mas também não é o fim eu acho, é o agora. E agora, eu estou caindo da ponte, agora Caballero me observa da beira do abismo que a ponte destruída atravessava, agora penso em Suzana, agora queria saber porque Dick me abandonara, agora não importa mais. Fechei os olhos. Deixa cair. Tomara que Getúlio não sofra muito.

terça-feira, 3 de maio de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 8)

Quando pequeno, eu gostava das historinhas sem reviravoltas. Aquelas que seguem lineares até o fim com o vilão sendo mau e depois morrendo, a mocinha sempre bonzinha e o herói que a tomava nos braços em um beijo arrebatador no final. Era disso que eu gostava, nada de surpresas trágicas, nada de novo, nada de real. Entretanto, as constantes em toda minha vida foram exatamente as variáveis. É engraçado como tudo é tão irônico, não é mesmo?

Só faltava Dick Sem Olho babar. Ele tagarelava bastante sobre o quanto aquelas terras de Seu Valdim tinham ficado sem graça após minha partida, que eu era seu único amigo e da saudade que eu deixara em todos, inclusive no velho dono daquelas bandas. Eu de alguma forma me sentia em casa e, quanto mais papeávamos sobre aqueles tempos, mais a hora avançava e a tarde caía. Finalmente chegamos à Marluce:

- E como anda a filha do velho fazendeiro?

- Depois que ele descobriu que o verdadeiro pai da criança não era você, tive que me casar com ela.

- AHUHUAHUAHUAHUAHU - caí em uma gargalhada como a muito tempo não fazia, era bom poder conversar com um amigo. - Então, onde está sua esposa Dick?

- A me esperar Juan...a me esperar...

Os últimos galhos secos da fogueira crepitaram e dormimos à luz das estrelas. Sempre é bom ter amigos por perto.

Na manhã seguinte acordamos e Dick me fez uma proposta. Passaria o resto dos meus dias de preparação em uma cabana perto da cidade que ele acabara de adquirir. Na verdade, era esse o principal motivo de sua ida à região. Eu, que nunca fui de recusar um bom pedaço de teto, aceitei na hora, aquela cabana poderia servir de base para que eu pudesse completar meu plano. Sim, com a ajuda de Dick Sem Olho (provavelmente o gatilho mais rápido que eu já vi na minha vida) eu conseguiria derrubar Migiorinni e seu bando. Levantamos acampamento e partimos.

Demoramos quase um dia inteiro para chegar na cabana. O cavalo de Dick era um peso morto e mais rápido seria se o próprio caolho carregasse seu cavalo nas costas. Como tinha passado o dia inteiro andando, decidi trocar as ferraduras de Getúlio quando enfim, chegamos à cabana. Era um tanto assustadora se vista da fachada, fastasmagórica até, eu diria. Parecia que não era varrida à séculos, que ratos habitavam os assoalhos e que o telhado poderia desabar a qualquer sopro mais forte do vento. No entanto, não reclamei. Tinha passado dias sob o sol e noites inteiras com muito frio, pelo menos aquelas paredes me ajudariam.

Qual não foi a minha surpresa quando cheguei ao interior. Havíamos deixado os cavalos à porta e entramos para ver o estado daquilo que nem mais podíamos chamar de cabana.

- Suponho que não tenha pagado muito por isso aqui. - impliquei.

- Já me arrependi do negócio faz tempo... - lamentou Dick.

Demos mais algumas risadas. Apesar do estado deplorável de tudo alí, ainda haviam nos dois quartos uns restos de camas nos quais podíamos deitar. Dei boa noite a Dick, verifiquei Getúlio do lado de fora decidindo que só colocaria ferraduras novas quando fossemos à cidade, somente um ferreiro muito experiente poderia confeccionar ferraduras para Getúlio devido a sua... particularidade. Deitei para dormir e alguns momentos depois acordei com a parte da história que talvez lhe seja mais familiar...



quinta-feira, 28 de abril de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 7)

Eu sempre fui bastante observador, e, apesar de Sarah estar me distraindo muito, vi a lâmpada que pendia no teto sendo a única fonte de iluminação da sala. Era alí que morava minha chance. Tateei. Encontrei minha arma e antes que eles pudessem fazer qualquer coisa, os assustei me dobrando ao meio e atirando de costas na lâmpada. Você pode até achar que eu sou mentiroso, na verdade, nem eu mesmo acreditei muito no sucesso do meu plano estapafúrdeo, mas deu certo. O vidro se estilhaçou e a sala submergiu em um escuro assustador. Me joguei ao chão quando ouvi tiros. As balas da arma do homem ricocheteavam na parede da caverna enquanto eu me arrastava pra onde meus sentidos indicavam a saída. Sarah gritava. Aliás, gritava estranhamente, como se a estivessem matando. Como devia ter problemas aquela mulher.

Vi um ponto mais claro que julguei ser a saída. Eu provavelmente já tinha passado deles que a essa hora achei estarem me procurando como loucos naquela sala escura. Me senti mais tranquilo. Alí tinha que ser a saída, eu tinha me safado vivo... Ou não.

Uma explosão ocorreu nos fundos da caverna e rapidamente uma onda gigante de água foi inundando tudo enquanto as paredes ruíam. Corri desesperadamente para a luz. As pedras que caíam do teto começaram a fechar a minha saída. Se eu demorasse muito estaria perdido, seria o fim.

Não consigo descrever a minha alegria em sentir o sol beijar meu rosto enquanto estava estirado ao chão do lado de fora da caverna. Eu havia me jogado como em um mergulho cego pra salvar a mim mesmo. Estava vivo. Estava rindo. Eu sobrevivi. Rapidamente pensei no que podia ter causado a explosão na caverna. A água era evidentemente da infiltração que eu tinha visto no teto, mas quem fez aquilo? E Sarah? Será que a problemática Sarah havia morrido alí?

Senti uma bufada em meu rosto. Uma sombra tapava o sol da manhã e uma gota de baba caiu em minha testa. Sorri.

Eu sempre soube que não adiantava amarrar Getúlio. Aquele cavalo tinha a incrível habilidade de se safar dos mais tensos laços do mundo. Ele com certeza se utilizou disso e, quando viu que eu era carregado para longe daquela situação, me seguiu. Foi me buscar. Porque é isso que um bom cavalo com quatro patas esquerdas faz. Nunca abandona seu dono.

Agora eu seria perseguido infinitamente. Se Migiorinni e Caballero soubessem que eu estava vivo, mandariam simplesmente todo seu bando atrás de mim e me esmagariam como a uma mosca. Mas eles realmente saberiam que eu estava vivo? Só se eu aparecesse. Caso contrário, considerariam que morri juntamente com Sarah no incidente da caverna quando fossem voltar para averiguar a situação e me riscariam da sua lista de problemas. Eu seria um fantasma. Eu os perseguiria sem que soubessem.

Cutuquei o lado de Getúlio com as esporas ainda molhadas. Viramos para a relva da montanha e eu decidi elaborar um plano.

Fiquei duas semanas escondido na relva. De vez em quando negociava alguma comida com um viajante qualquer sem me indentificar. Como nunca fui bom administrador, meu dinheiro acabou nos primeiros três dias, então tive que negociar minha pistola. E foi com muita dor no coração que o fiz. Na verdade, você mataria se soubesse a pouca quantidade de dinheiro pela qual vendi minha querida arma. Eu poderia pegar outra mais tarde, naquela hora eu apenas precisava permanecer incógnito.

Até que em uma tarde, enquanto já terminava os últimos detalhes do meu plano, uma carroça veio se aproximando ao longe. Enxerguei a possibilidade de negócio e pedi gentilmente para que parassem e ajudassem um viajante com necessidades. A carroça parou, o dirigente arreganhou os dentes e meu destino mudou pela terceira vez.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 6)

Eu devia ser mais inteligente, de verdade. Entretanto, esperei a noite ir caindo porque pensei que no escuro teria mais chances. Eles acenderam uma fogueira e, pelo visto, iriam passar a noite alí para só na manhã seguinte ir prestar contas a seu chefe. Eles bebiam, gargalhavam e exibiam dentes meio podres que se juntavam a gordura do porco que haviam assado. A mulher continuava amarrada à carroça um pouco afastada deles e quando os primeiros começaram a cair no sono, resolvi me aproximar...

Fui me arrastando pela relva baixa tentando fazer o mínimo de barulho possível e rezando para que o barulho do fogo que queimava os poucos galhos de madeira da fogueira fosse mais alto que o meu. Aos poucos, e com muita paciência, me aproximei da carroça sem chamar nenhuma atenção. A mulher estava sonolenta e não tinha nenhum sinal claro de maus tratos, ela estava muito bem cuidada na verdade. Aliás, ela era bem mais nova do que aparentava de longe e o cabelo branco era uma peruca. Olhando agora ela nem presa est...

Com um movimento muito rápido e inesperado ela algemou meu pulso na roda da carroça e fez um sinal. Os outros homens acordaram e sorriram. Eu tinha caído numa armadilha, parabéns para mim e para minha estúpida coragem. Eu devia ter desconfiado que após prender José Caballero eu havia virado o inimigo número um de Migiorinni. Nenhum dos outros cherifes tinha ido tão longe contra ele. Talvez estivesse furioso. Talvez eu nem fosse sobreviver. Pensei em Suzana e lembrei de Getúlio.

Achei que Getúlio ainda estava amarrado àquela árvore enquanto nesse momento eu estava sendo levado para alguma espécie de esconderijo ou algo assim. Os sete capangas e a mulher me levavam vendado, logo, eu não sabia exatamente onde estava até que me tirassem o capuz.

Eu estava sentado e amarrado por uma corda à cadeira dentro de uma caverna em algum lugar nas montanhas. É meio que um clichê isso por aqui, os caras maus sempre tem esconderijos nas montanhas. Tinha uma goteira no teto caverna que era denunciada pelo barulho das gotas que caíam no chão. Um murro na boca do estômago e então pude ver novamente.

Caballero estava a minha frente, junto com a mulher que agora revelava longas curvas e cabelos negros. Se apresentou como Sarah Caballero e disse que seria a última mulher que eu veria na minha vida. José sorriu.

- Então eu deixarei que a minha irmã cuide desse assunto. Um cherifezinho mequetrefe como você não merecia tanto da minha atenção. Já gastei tempo de mais da minha vida preso lá e depois planejando sua morte. Adeus.

Deu as costas e saiu do lugar deixando apenas dois capangas e Sarah que agora exibia o mais sádico dos olhares. Acho que ela estava sentindo prazer nas torturas que agora imaginava. Senti um certo temor dos capangas também. Meu revólver estava em cima de uma mesa à minha direita e eu só pensava nele.

Sarah se aproximou de vagar. Meu Deus, o que ela tinha de louca ela tinha de bela. Talvez seja até a mulher mais bonita dessa história mas naquela hora era minha sentença de morte que caminhava e agora tinha uma risada medonha e incontida enquanto apontava uma faca para o meu peito. Eu estava tenso, suado e amedrontado mas é justamente aqui que eu viro um herói.

Eu era um rato acuado em um canto. Não era o mais forte, estava preso, em disvantagem numérica e assustado. Mesmo que eu não quisesse eu faria alguma coisa.

No momento em que ela esticou o braço em minha direção para a punhalada final, tombei minha cadeira bamba. Fiquei até impressionado com a minha sorte quando a cadeira caiu com o encosto em cima de uma pedra partindo-o em pedaços. Sarah, com o impulso que dera, se desequilibrou e caiu por cima de um dos homens que vigiava a situação. O outro se assustou e antes que sacasse a sua arma eu rolei em direção aos seus pé e o derrubei. me levantei antes dele e, porque estava de punhos atados às costas, chutei sua cabeça desejando muito que desmaiasse. Sarah e o outro homem já haviam se levantado quando eu fiquei de costas à mesa do meu revólver.

- Parado aí, seu filho de uma...

E então o homem engatilhou a arma dele. Estranhamente Sarah não tinha uma arma e por isso só brandia sua faca. Estava toda descabelada e suada. Exuberante e nervosa. Nossa... Deus realmente se empenha em fazer mulheres assim, mas nessa não tinha gastado muito tempo em sua fisionomia e aparentemente nada em seu caráter. Confesso que por alguns minutos esqueci Suzana.

Minha garganta arranhava seca e então vagarosamente fui tentando tatear a coronha de meu revolver que deveria estar em cima daquela mesa...

- Tomara que não percebam...- pensei.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 5)

É engraçada a velocidade com que as coisas se espalham por aqui. Todos os poucos habitantes do lugar já comentavam sobre a possível vingança de José e a maioria deles não me dava mais duas semanas de vida. Confesso que eu não ligava muito para o que eles diziam e me coloquei a investigar a situação.

Assim que entrei na delegacia pela manhã, o cenário me lembrou com quem eu estava lidando. Três dos meus homens estavam mortos com facadas no pescoço e no peito. O quarto homem sob meu comando estava de folga na noite mas quando soube da notícia juntou suas coisas e saiu correndo. Com certeza o bando de Migiorinni tinha feito o trabalho para libertar Caballero e agora viriam atrás de mim. Talvez eu ainda fosse a única coisa que tentasse impedir o seu domínio na região. Naquela madrugada José foi solto de novo e a população estava em pânico. Eu? Bem, eu estava sozinho. Quer dizer, sozinho não, eu tinha uma boa pistola, um gatilho rápido e Getúlio ao meu lado.

Fui ver Suzana. Era ela que me mantia fora da insanidade. Nos últimos tempos havíamos ficado bem próximos e com ela já podia dividir minhas intimidades. Eu disse que sentia medo, que não sabia se voltaria e que se voltasse a queria comigo. Em troca ela me fez arregalar os olhos, soluçar e saltar da cadeira. Eu sabia que seu nome era Suzana mas ela me revelou um terrível verdade. Seu sobrenome era Migiorinni.

Eu devia ter percebido. Naquela tarde em que Caballero invadiu o bar todos ficaram espantados mas Suzana ficou diferente. O seu olhar denunciava familiaridade com o mais importante capanga de seu pai. Durante nossas conversas ela sempre desviava certos assuntos como sua família ou omitia nomes. Eu julgava que tal atitude era pra se proteger, não lembrar um passado deixado pra trás, não reviver situações constrangedoras e esse fato eu entendia, me identificava até. Não, não era isso. Suzana havia escondido porque sabia que eu me afastaria instintivamente.

- Desculpe. - e abaixou a cabeça - Por favor, fique longe disso Juan. Eu te amo.

Olhei profundamente para Suzana ainda atordoado.

- Já não posso fazer mais nada. Antes de te conhecer já havia tomado uma decisão e feito um juramento. Não existe mais volta.

Levantei e saí sem olhar para ela. Sem que eu percebesse chorávamos uma única lágrima.

Getúlio me esperava à porta da casa dela. Montei rápido e disparei em direção às pessoas que pudessem me dizer onde Caballero e Migiorinni estavam.

Era só tocar nesses nomes que todo mundo se assustava. Não tinha como. Era muito difícil encontrar alguém que não tivesse sofrido qualquer tipo de opressão de Migiorinni e seus lacaios. Eu tinha recebido vários olhares tortos e conselhos para abandonar essa jornada quando se aproximou de mim um senhor mais velho. Não se apresentou, vestia roupas maltrapilhas e apenas balbuciou o suficiente pra eu entender que o bando se localizavam em um vale alí perto contando os lucros do último assalto que fizeram. Pelo que consegui entender, a vítima desse assalto tinha sido o próprio velho que perdera todas as economias que tinha. Acontece que ele estava se mundando com a sua família quando os ladrões atacaram. Ele implorou pra que eu salvasse também sua esposa, senhora velhinha como ele, daqueles bandidos. Engoli seco e aceitei a missão.

Eu estava nervoso mas Getúlio não. Ele decididamente era muito mais corajoso que eu e, se está lendo atentamente até aqui, já pode perceber que se tem um herói nessa história esse herói é Getúlio. Meus méritos até aqui foram ínfimos e era isso que me incomodava tanto naquela hora.

Galopávamos naquela velocidade que só ele conseguia chegar. Eu suava frio e já não fazia mais reflexões. Sentia que a hora do meu gatilho chegava e eu temia essa hora. Não que não soubesse estivesse negando tudo aquilo que Dick sem olho me ensinara mas é que àquela altura eu ainda não havia matado nenhum homem. No máximo uns animais e alguns furos em latas mas homens são diferentes. Todo mundo mundo tem uma mãe, um pai, uma história e pelo menos um motivo para estar do outro lado do revólver. Matar um homem é distruir tudo isso, é estabelecer um fim que não necessariamente deveria ser alí. Todos merecem uma segunda chance e as balas negam isso aos homens.

Avistei de longe o bando. Eram sete. Me escondia atrás de algumas árvores onde deixei Getúlio. A mulher estava presa à carroça que eles haviam roubado. Não vi Caballero, não vi Migiorinni mas eu tinha uma missão e podia conseguir mais pistas.

terça-feira, 29 de março de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo. (Parte 4)

O xerife me olhava perplexo. Não sei se abismado com a prisão que eu acabara de fazer ou pelo fato de ter saído vivo. Seja lá qual foi o motivo, ele estava perplexo. No momento em que apontei minha pistola para o rosto do bandido ouvi suspiros aliviados, comemorações contidas e juro que vi uma velha senhora dando um pequeno murro de comemoração no ar mas nada mais que isso. A alegria que eu achava trazer não era um consenso geral, pelo visto.

- Você sabe que as grades não o irão manter preso.

E só nessa hora eu pensei nisso. Obviamente a decisão mais sensata seria meter logo uma bala na cabeça do mequetrefe e resolver a situação, é duro ter um coração bondoso. Enfim, a prisão já estava feita. Não mataria o bandido sem nenhuma chance de defesa ou risco de real perigo. Não atiraria em um homem desarmado sem motivo aparente... Eu deveria ter feito uma excessão...

Alegando não mais aguentar as pressões do cargo, o xerife me entregou seu distintivo alí mesmo fazendo uma última ressalva:

- Este que você prendeu é José Caballero, braço direito do maior fora-da-lei que essas terras já viram.

Nem precisava perguntar quem era o tal vilão da história, eu já sabia seu nome. Era Signore Migiorinni.

Eu estava trabalhando de vaqueiro em um rancho ainda me recuperando dos ferimentos de raspão que eu ganhei fugindo da loucura e dos tiros do pai de Marluce quando ouvi pela primeira vez esse nome. Ele era o mandatário de uma série de assassinatos que andavam acontecendo na região. Basicamente todos por conta de dívidas e disputas por terras. Se Migiorinni queria, Migiorinni tinha. Todos que não cumpriam suas severas leis eram punidos exemplarmente. Corpos dilacerados, cabeças arrancadas, escalpos à moda indígena. De vez em quando aparecia esse tipo de aviso pelos lugarejos que circundavam suas zonas de atuação como se fossem um lembrete do que acontecia com quem desafiava sua autoridade.

Meu empregador tinha uma política diferente da de Valdim. Willie era pacifista convicto, odiava armas e fazia de tudo para que seus empregados ficassem longe de confusão. Nós ficávamos quietos e ele assegurava a paz. Passei dois anos em silêncio. Passei dois anos aperfeiçoando minha pontaria. Passei dois anos treinando minhas técnicas de cavalgada. Na noite, ensaiava com as minhas sombras e ninguém desconfiava.

Um belo dia acordei, selei Getúlio, pedi minhas contas à Willie e decidi voltar pra casa.

O prefeito em pessoa veio à delegacia. Procurou pelo antigo xerife e vendo o distintivo em minha mão, suspirou cabisbaixo:

- Já é o décimo em cinco anos. Ou fogem ou morrem. Pobres homens, espero que você tenha mais sorte.

Agradeceu pela prisão de Caballero com um ar cansado e desiludido se retirando logo após. Tudo estava acontecendo muito rápido. Eu tinha chegado na cidade, me apaixonado pela garçonete do bar, apanhado, prendido um homem altamente perigoso e virado xerife. Tudo em menos de 4 horas. A vida é mesmo uma coisa engraçada. Eu, que tinha saído fugido do lugar, agora era o responsável máximo pela sua segurança. Ironias da vida.

Respirei, pendurei a estrela com o dourado bem desgastado no peito e fui dar uma olhada no lado de fora da delegacia. Getúlio fazia o maior sucesso.

As crianças o cercavam querendo olhar suas patas, a marca em sua lateral, sua pelagem e ele, que não gostava nada de se mostrar, se empenava todo, estufava o peito, cavalo bobo que só ele. Nada mais engraçado que um pangaré metido à alasão orgulhoso. Sorri. Todos finalmente estavam reconhecendo aquilo que eu já sabia desde o seu nascimento, Getúlio era especial.

Alguma criança gritou:

- Ele só tem patas esquerdas!

Daí em diante já era. Getúlio Pé Esquerdo virou seu nome. Pegou fácil.

Enquanto olhava toda a situação, ela apareceu de novo. A moça do bar, de cabelos ruivos e agora com um sorriso de apagar o sol:

- Você foi muito corajoso lá no bar. Há tempos não via homens assim por aqui.

- Então hoje é seu dia de sorte madame, porque esse homem quer convidá-la a um passeio.

Ela se enrubeceu. Adoro quando as mulheres enrubecem, ficam parecidas com um botão de rosa. Envergonhadas e belas...Ah, eu amo as mulheres...

- A propósito, posso saber sua graça madame?

- Suzana.

- Prazer, xerife Gonzalez. Mas pode me chamar de Juan.

Assobiei para Getúlio que veio imediatamente, montamos e fomos passear.

Obviamente a delegacia não estava desguarnecida. Juntamente com o distintivo eu herdara o comando sobre quatro bons homens que trabalhavam com o antigo xerife e viram em mim um motivo para não abandonar o barco como o outro fizera. Enquanto eu estava fora três deles montavam guarda na delegacia tomando conta do preso esperando que o quarto enviasse a notícia para o destrito maior que possuía uma cadeia de porte suficiente para a periculosidade daquele prisioneiro. Demoraria mais ou menos uma semana para que ele pudesse ser transferido de maneira adequada.

Suzana tomou conta das minhas cinco tardes seguidas. Eu era quase uma celebridade local. Alguns diziam até que nunca houvera um xerife igual.Sem precedentes nos mais heróicos atos. Quando na verdade foi Getúlio o grande salvador do dia, se alguém devia usar o distintivo esse alguém era o meu cavalo. O povo às vezes fala de mais. Talvez fosse esse um dos meus maiores problemas.

Eu dormia em uma hospedaria em frente à delegacia sem muito conforto. Na verdade, era o lugar mais confortável que eu havia dormido nos últimos cinco anos. As coisas estavam relativamente tranquilas e já estava me acostumando à vida de xerife vida mansa.

Uma semana e dois dias já haviam passado da prisão de José Caballero quando a carroça para transpostá-lo chegou à cidade. Só tinha um problema: Não havia prisioneiro para ser transportado.

domingo, 27 de março de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo(Parte 3)

Já era quase de manhã e eu desvencilhava dos galhos secos. Não mais era levado por Getúlio, agora caminhava ao seu lado. Ambos calados e fitando o chão, dividíamos a mesma dor e o mesmo destino. Não nos restava nada no mundo a não ser o outro. É duro perder seus pais.

Minha mãe era um exemplo de candura. Talvez a minha lembrança mais marcante fosse o cheiro dos doces que ela fazia no finalzinho da tarde ou então as broncas que me dava quando eu subia na árvore mais alta da fazenda. Eu a amava.

Meu pai era mais sério, menos risonho, mas nem por isso carrancudo. Era até possível o encontrar contando piadas aos peões lá de casa. Apaixonado por animais, queria ter sido veterinário, mas acabou se tornando advogado. Comprou a fazenda quando eu nasci. Aliás, ele dizia que aquele foi o melhor dia da vida dele. Isso me fazia sentir especial.

Era filho único no entanto a casa estava sempre cheia. Criados e vizinhos entravam e saiam da casa com frequencia. Sábados à noite tinham jantares, bebidas e muita música. Alegria era o lema. Os dois tinham decidido que o bom da vida era viver.

Não. Agora não. Não era chuva que eu via molhar o chão em baixo dos meus pés. Lembrando disso tudo eu chorava. Um choro silencioso. Um choro revoltado.

Três meses e muita fome depois, consegui um emprego numa pequena fazenda cujo dono era a pessoa mais amável do mundo. Grande sujeito, grande coração mas um inegável pão duro. Nunca em toda minha vida trabalhei tanto por tão pouco. Eu tinha direito à água e pasto para Getúlio e tudo mais que fosse minimamente suficiente para me manter de pé trabalhando. Fazia de tudo, arava, plantava, colhia, cortava a (rala) grama do lugar, cuidava do galhinheiro, limpava latrinas enfim, tudo que fosse trabalho pesado e sujo de se fazer.

Podia dormir junto à Getúlio em um velho celeiro que já não era usado a quase duas décadas. Contava Valdim que depois que sua esposa morreu a dois anos, perdera a vontade de viver mas a única coisa que o mantinha vivo era sua filha Marluce e o amor pelas armas de fogo.

Então Valdim era um senhor de cinquenta anos de idade que aparentava ter setenta, tinha aproximadamente trinta armas só em sua sala e uma filha feia. Feia não, horrenda. Se os poetas conhecessem Marluce talvez tivessem que inventar novas palavras para descrevê-la. Me dá náuseas só de lembrar da verruga que predominava na sua bochecha esquerda e atraía toda a atenção de modos que eu nunca nem soube a cor de seus olhos.

E Marluce me amava com todas as forças que ela tinha.

Até porque tinha poucas forças. Vivia doente do pulmão e quase nunca podia sair de casa. Quando saia, era pra me vigiar...

- Fazeno u quê?

Eu odiava o sotaque dela. E a minha resposta era sempre a mesma. Trabalho. Baixava a cabeça, continuava o que estava fazendo. Getúlio tinha até tremedeiras todas as vezes que ela se aproximava. Ele me entendia perfeitamente.

Comecei também a ter aulas de tiro com um dos meus companheiros de labuta. Dick Sem Olho. Na verdade, Valdim encorajava todos nós a ter aulas de tiro. Costumava dizer que "por essas banda os meu ôme mode sabê atirá". Engraçado, nele o sotaque não parecia estranho, parecia... Justo. Voltando ao Dick, ele ganhara esse apelido porque uma vez, ainda pequeno foi brincar com a faca do pai que era açougueiro e acabou furando o olho direito. Pobre Dick. Em compensação, ganhou uma mira afiadíssima e um gatilho mais ainda. Aquele era um homem que sabia o que fazer com uma arma na mão.

Passei três anos nesse lugar, até Marluce ter uma ideia genial: me conquistar pra sempre.

Acordei ainda meio baleado de sono. O galo já cantava e o dia convidava à mais uma jornada de calor infernal. Nada podia ser pior. Mentira, podia sim. Valdim entrou chutando com toda a força o porta do meu (já mais arrumadinho) celeiro velho. Bufava, estava vermelho, como se alguém tivesse roubado algo dele, ou melhor, da filha dele.

- Agoooora vai tê qui casá disgraça dum demonio véio!

É incrível como as mulheres podem ter ideias idiotas. Ela havia contado para o pai que na noite anterior, eu a tinha seduzido e roubado sua virtude de maneira cruel. Confesso que ri por dentro. Todo mundo sabia que ela vivia pelos cantos com Dick Sem Olho mas nessa hora eu percebi que talvez fosse um jeito dela fazer ciúmes em mim, não sei. Nunca entendi as mulheres. Satisfazia seus desejos carnais com o caolho, mas suspirava pelo órfão. Que bela vida essa ein, feinha.

Me recusei e fui expulso à balas. Só deu tempo de pegar a pistola que eu havia ganhado de presente do próprio Valdim ao vencê-lo numa competição de tiros em lata à 40 pés (descobri um grande talento) e montar em Getúlio para disparar de novo pela vida. Esse era o meu destino.

O homem da capa acizentada sorriu ao ver minha tentativa de movimento disfarçado. O problema de quando você está ferido é que nada que você faça vai parecer natural. Eu estava muito mal, não comia bem a semanas e tinha acabado de levar uma surra. Nunca iria conseguir fazer um movimento leve de mão.

- Você cresceu bastante mas continua um fraco.

Levantei um pouco mais a cabeça e só então pude ver seu rosto. Me pareceu assustadoramente familiar. Um fantasma que vem assombrar depois de muito tempo. Aquele homem iria me matar cinco anos atrás, não fosse por Getúlio. Congelei. Ele certamente tinha reconhecido o cavalo e entrado no bar na esperança de poder terminar o serviço. Até agora seu plano corria bem.

Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, já estava voando pela janela do bar e aterrizando na estrada de terra que dividia a cidade ao meio. Rapidamente todas as pessoas que estavam dentro de todas construções dalí sairam para ver o espetáculo.

Ele saiu do bar e me encontrou no chão ainda. Sadicamente se aproximou, falou uns palavrões, blasfemou e cuspiu pro lado esperando me levantar. À duras penas me ergui. Cerrei um pouco os olhos e comecei a ver melhor. Ele segurava sua pistola apontada pra mim.

- É agora garoto, chegou a sua hora.

Não era. Saquei minha pistola com a velocidade que só se consegue após anos de prática. Deus salve Dick Sem Olho. Ele não esperava isso. Eu estava entregue, estava sujo, estava ferido mas eu vi Getúlio e Getúlio tinha me visto. Meu cavalo ensinou àquele homem o que os franceses chamariam de deja vú. A multidão abriu espaço no mesmo milésimo de segundo em que ele lançou meu carrasco frustrado ao chão novamente.
Apenas sorri.

- Parece que é a sua hora dessa vez.