domingo, 27 de março de 2011

211 - Getúlio Pé Esquerdo(Parte 3)

Já era quase de manhã e eu desvencilhava dos galhos secos. Não mais era levado por Getúlio, agora caminhava ao seu lado. Ambos calados e fitando o chão, dividíamos a mesma dor e o mesmo destino. Não nos restava nada no mundo a não ser o outro. É duro perder seus pais.

Minha mãe era um exemplo de candura. Talvez a minha lembrança mais marcante fosse o cheiro dos doces que ela fazia no finalzinho da tarde ou então as broncas que me dava quando eu subia na árvore mais alta da fazenda. Eu a amava.

Meu pai era mais sério, menos risonho, mas nem por isso carrancudo. Era até possível o encontrar contando piadas aos peões lá de casa. Apaixonado por animais, queria ter sido veterinário, mas acabou se tornando advogado. Comprou a fazenda quando eu nasci. Aliás, ele dizia que aquele foi o melhor dia da vida dele. Isso me fazia sentir especial.

Era filho único no entanto a casa estava sempre cheia. Criados e vizinhos entravam e saiam da casa com frequencia. Sábados à noite tinham jantares, bebidas e muita música. Alegria era o lema. Os dois tinham decidido que o bom da vida era viver.

Não. Agora não. Não era chuva que eu via molhar o chão em baixo dos meus pés. Lembrando disso tudo eu chorava. Um choro silencioso. Um choro revoltado.

Três meses e muita fome depois, consegui um emprego numa pequena fazenda cujo dono era a pessoa mais amável do mundo. Grande sujeito, grande coração mas um inegável pão duro. Nunca em toda minha vida trabalhei tanto por tão pouco. Eu tinha direito à água e pasto para Getúlio e tudo mais que fosse minimamente suficiente para me manter de pé trabalhando. Fazia de tudo, arava, plantava, colhia, cortava a (rala) grama do lugar, cuidava do galhinheiro, limpava latrinas enfim, tudo que fosse trabalho pesado e sujo de se fazer.

Podia dormir junto à Getúlio em um velho celeiro que já não era usado a quase duas décadas. Contava Valdim que depois que sua esposa morreu a dois anos, perdera a vontade de viver mas a única coisa que o mantinha vivo era sua filha Marluce e o amor pelas armas de fogo.

Então Valdim era um senhor de cinquenta anos de idade que aparentava ter setenta, tinha aproximadamente trinta armas só em sua sala e uma filha feia. Feia não, horrenda. Se os poetas conhecessem Marluce talvez tivessem que inventar novas palavras para descrevê-la. Me dá náuseas só de lembrar da verruga que predominava na sua bochecha esquerda e atraía toda a atenção de modos que eu nunca nem soube a cor de seus olhos.

E Marluce me amava com todas as forças que ela tinha.

Até porque tinha poucas forças. Vivia doente do pulmão e quase nunca podia sair de casa. Quando saia, era pra me vigiar...

- Fazeno u quê?

Eu odiava o sotaque dela. E a minha resposta era sempre a mesma. Trabalho. Baixava a cabeça, continuava o que estava fazendo. Getúlio tinha até tremedeiras todas as vezes que ela se aproximava. Ele me entendia perfeitamente.

Comecei também a ter aulas de tiro com um dos meus companheiros de labuta. Dick Sem Olho. Na verdade, Valdim encorajava todos nós a ter aulas de tiro. Costumava dizer que "por essas banda os meu ôme mode sabê atirá". Engraçado, nele o sotaque não parecia estranho, parecia... Justo. Voltando ao Dick, ele ganhara esse apelido porque uma vez, ainda pequeno foi brincar com a faca do pai que era açougueiro e acabou furando o olho direito. Pobre Dick. Em compensação, ganhou uma mira afiadíssima e um gatilho mais ainda. Aquele era um homem que sabia o que fazer com uma arma na mão.

Passei três anos nesse lugar, até Marluce ter uma ideia genial: me conquistar pra sempre.

Acordei ainda meio baleado de sono. O galo já cantava e o dia convidava à mais uma jornada de calor infernal. Nada podia ser pior. Mentira, podia sim. Valdim entrou chutando com toda a força o porta do meu (já mais arrumadinho) celeiro velho. Bufava, estava vermelho, como se alguém tivesse roubado algo dele, ou melhor, da filha dele.

- Agoooora vai tê qui casá disgraça dum demonio véio!

É incrível como as mulheres podem ter ideias idiotas. Ela havia contado para o pai que na noite anterior, eu a tinha seduzido e roubado sua virtude de maneira cruel. Confesso que ri por dentro. Todo mundo sabia que ela vivia pelos cantos com Dick Sem Olho mas nessa hora eu percebi que talvez fosse um jeito dela fazer ciúmes em mim, não sei. Nunca entendi as mulheres. Satisfazia seus desejos carnais com o caolho, mas suspirava pelo órfão. Que bela vida essa ein, feinha.

Me recusei e fui expulso à balas. Só deu tempo de pegar a pistola que eu havia ganhado de presente do próprio Valdim ao vencê-lo numa competição de tiros em lata à 40 pés (descobri um grande talento) e montar em Getúlio para disparar de novo pela vida. Esse era o meu destino.

O homem da capa acizentada sorriu ao ver minha tentativa de movimento disfarçado. O problema de quando você está ferido é que nada que você faça vai parecer natural. Eu estava muito mal, não comia bem a semanas e tinha acabado de levar uma surra. Nunca iria conseguir fazer um movimento leve de mão.

- Você cresceu bastante mas continua um fraco.

Levantei um pouco mais a cabeça e só então pude ver seu rosto. Me pareceu assustadoramente familiar. Um fantasma que vem assombrar depois de muito tempo. Aquele homem iria me matar cinco anos atrás, não fosse por Getúlio. Congelei. Ele certamente tinha reconhecido o cavalo e entrado no bar na esperança de poder terminar o serviço. Até agora seu plano corria bem.

Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, já estava voando pela janela do bar e aterrizando na estrada de terra que dividia a cidade ao meio. Rapidamente todas as pessoas que estavam dentro de todas construções dalí sairam para ver o espetáculo.

Ele saiu do bar e me encontrou no chão ainda. Sadicamente se aproximou, falou uns palavrões, blasfemou e cuspiu pro lado esperando me levantar. À duras penas me ergui. Cerrei um pouco os olhos e comecei a ver melhor. Ele segurava sua pistola apontada pra mim.

- É agora garoto, chegou a sua hora.

Não era. Saquei minha pistola com a velocidade que só se consegue após anos de prática. Deus salve Dick Sem Olho. Ele não esperava isso. Eu estava entregue, estava sujo, estava ferido mas eu vi Getúlio e Getúlio tinha me visto. Meu cavalo ensinou àquele homem o que os franceses chamariam de deja vú. A multidão abriu espaço no mesmo milésimo de segundo em que ele lançou meu carrasco frustrado ao chão novamente.
Apenas sorri.

- Parece que é a sua hora dessa vez.

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