quinta-feira, 23 de setembro de 2010

140

O gordinho no fundo da sala
O menino feio que aprendeu a tocar violão
Por causa de uma menininha
Que preferiu seu melhor amigo.
O João Ninguém pelo qual você passa na rua
E finge não conhecer
Ou talvez realmente não conheça.
Aquele cara parado no meio da rua
Trocando o pneu furado, na chuva.
O cabisbaixo alí andando
Temendo mostrar o choro
Depois de terminar com a namorada.
Aquele sentado no fim de tarde na beira da praia
Só refletindo sobre a vida.
Um feliz da vida porque finalmente passou no vestibular
E talvez ganhe um carro dos pais.
Aquele que ganhou um carro dos pais.
O que tem que aprender a sobreviver aos solavancos da vida.
O que tem que se segurar para resistir aos solavancos do ônibus
Que chacoalha.
O que mora perto
O que mora longe.
Um que sente saudade de tanta coisa e que irá
Com certeza
Sentir saudade de hoje,
Que foi o dia em que percebeu que já foi todos eles.
Não que isso faça diferença pra você
Mas pra mim faz.
Porque só refletindo sobre nós mesmo que a gente descobre
Quantas pessoas diferentes a gente já foi
E que talvez todas elas tenham nos trazido
A pessoa que somos hoje.
As derrotas e as vitórias
Tudo que aprendemos ou deixamos de aprender.

Você deve saber que eu sou um cara dado a clichês.
A minha falta de criatividade se demonstra nesse ponto
Mas em minha defesa eu posso dizer:
Geralmente os clichês estão certos.
Tão certos que viram clichês.
E novamente posso dizer que todo o aprendizado é válido
Toda experiência é válida
Com óbvias ressalvas, claro
Não vamos achando que delitos são experiências válidas, por favor.

Eu vivi muito pouco ainda pra saber das verdades da vida
Mas acho que já vivi o suficiente
Pra me alegrar, me arrepender
Pra amar, não amar mais
Ficar com raiva
Enfim, experimentar de um tanto.
Entretando, preciso aprender a ler nas entrelinhas.
Saber que quem já fui pode me dar visão
Saber que quem já fui pode me dar experiência
E vivência.
Aliás, essa última é uma coisa que meu pai me disse
Que só se tem
Vivendo.

Eu fui e ainda sou o gordinho.
Eu ainda sei tocar violão, e isso me proporcionou uma banda.
E olha só que maravilha
Dá pra ganhar um dinheiro com esse negócio.
Na verdade, eu agradeço aos céus por todas as situações pelas quais passei.

Ainda dá pra ser muito mais feliz
E deixar acontecer muito mais histórias.
Só vivi dezenove
Faltam três meses pra eu fazer vinte anos.
Não sei de nada.
Não quero saber.
Um dia, sei lá, vou sair pelo mundo
Vasto mundo
Não sou Raimundo
Mas no meu coração cabe tudo
E eu vou guardar em fotos a minha memória
Pra um dia quem sabe um neto do meu neto
Saber quem eu fui, quem eu serei
Quem eu sou.

Eu ainda sou o gordinho.

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