sexta-feira, 12 de novembro de 2010
151 - Seu Basílio e a Lei da Gravidade.
Seu Basílio não gostava das pessoas, melhor, às achava idiotas. Se encontrava no topo de seus, como gostava de vociferar por aí, "cinquenta e sete bem-vividos anos".Porém, apesar de sua ranzizice, era dotado de um afiadíssimo senso de humor, o que o tornava uma figura muito complicada de se conviver. Seus dois filhos já haviam se mudado a algum tempo, ambos casados, com boa família e empregos, de modos que, Seu Basílio não tinha muito a quem apurrinhar. Bem, um dia, durante mais um de seus extensos monólogos à mesa que não era vazia apenas pela presença de sua (a essa altura) distraída esposa, teve uma ideia brilhante. Decidiu provar para todos o quanto realmente burros eram. Sim, faria uma gozação da sociedade e de quebra provaria a sua tese. Finalmente provaria que todas as pessoas são idiotas mesmo organizando um abaixo-assinado exigindo a revogação da Lei da Gravidade. Era sórdido, e, como se despunha de um caminhão de tempo livre visto que era aposentado, isso lhe ocuparia a mente e traria diversão para o resto da vida. E foi. Montou um estande alí perto da avenida principal da sua cidadezinha média. Começou a gritar e fazer comícios no meio da rua, exibindo suas ideias, vendo se algum daqueles transeuntes engolia sua ideia... E chocou-se. Chocou-se com a quantidade de gente que atraira. Talvez pelas suas grandes e reconhecidas capacidades de orador, como ele mesmo pensava e em grande parte também pela própria ignorância das pessoas, porque não? Estava certo. Todos da cidade assinaram, exceto alguns auto-intitulados intelectuais , os quais, vale dizer, rapidamente perceberam a intenção de Seu Basílio e ficavam a rir pelos cantos, dividindo com ele aquele orgulho de terem sido os poucos a entender a piada. Agora, dispondo de seu abaixo-assinado repleto da tinta de todos os otários possíveis, decidiu ir mais longe. Provaria que até os políticos da cidade eram completos imbecis. Marcou hora com o prefeito, foi a câmara dos vereadores, elaborou um detalhado estudo sobre como a ausência da gravidade ajudaria as pessoas deficientes e com problemas lombares. Ria, ria infinitamente e riu mais ainda quando o projeto foi aprovado e entraria em voga na segunda quinzena de maio. Organizou uma festa. Montou um palanque no qual saborearia sua vitória tirando sarro da cara de todos. Apontaria dedos e repetiria tudo aquilo que a sua esposa e filhos se cansaram de ouvir durante todos os anos à mesa de refeição. Ele finalmente seria justificado e finalmente poderia falar com razão sobre a idiotice das pessoas. Isso se naquela manhã do dia dezessei de maio, suas cuecas não estivessem no teto, ou se a sua cama não estivesse zanzando a esmo pelos cômodos da casa que também não estavam no chão. Para seu espanto e para felicidade geral da nação, a Lei da Gravidade tinha sido revogada e os problemas na coluna diminuiram em sessenta e três vírgula cinco por cento na região. Tudo graças a seu árduo empenho por essa causa. Talvez as pessoas não fossem tão idiotas assim.
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