domingo, 11 de julho de 2010

129

Sobe a calçada trocando pé
Olha pra cima, "ah... o bem me quer"
Diz que não é bom viver assim pra sempre?
Girando o chapéu na mão
Cantarolando a música do rádio
Anos 60, 70
Perdido no tempo, meu avô contava as memórias
Tinha amado muito naquelas épocas
Sobretudo, a vida
Bem aventurados os que sabem viver de verdade
Levando os problemas de vagar, chorando e rindo
Sem pensar muito no que ainda não aconteceu
"Vai que não acontece?", conselho dele
E é verdade, vai que não acontece
Se a vida já o impõe dificuldades
Ele sabe que valeu tudo o que fez
Valeu o esforço e o sacrifício de se manter louco
Num mundo de sãos
Não é fácil ser policial e amante das belas artes
Depois de aposentado, pintou apaixonado fruteiras e casas e ruas
Se técnica lhe faltasse, ficava só no apio familiar mesmo
Me deu um quadro quando eu fiz quatorze anos
Me deu um abraço
E mais um monte de conselhos
Me deu um violão e mesmo sem saber tocar,
Me ensinou que música é só sentimento
(E que, realmente, Roberto Carlos é muito bom)
Me mostrou que a fala é melhor que a gritaria
Que eu devia saber me defender sem os punhos
Ele chorou quando eu não passei pra faculdade
Ele chorou quando eu passei pra faculdade
"Sabe vô, eu não fiz mais que a minha obrigação
Que é retribuir, em tudo que eu fizer,
Tudo o que você já fez."
Porém, eu tenho certeza
Se ficasse um milhão de anos tentando
Nunca retribuiria.
Nunca.
Vovô, obrigado.

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