sábado, 6 de março de 2010

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Crônica nº1

"BAM"! A chuva me pegou pelo caminho. Já estava quase chegando na casa do meu avô que mora logo alí
na Moreira César, mas, como ainda faltavam alguns metros, fui indo meio que de charme pra sentir a chuva.
Verdade, meu amigo, que meu comboio de corda anda um tanto assim de charme também, logo, a chuva se fez bem
útil nessa minha dor de cutuvelo. Dor essa que fica pra depois, não vou discorrer sobre minhas dores na minha
primeira crônica, não cabe. Bom, o fato é que depois de cabisbaixar pela rua, cheguei ao meu destino. Exausto.
Alguma vez você já percebeu que a chuva acaba com todas as suas forças e somente um banho quente salva? Pois é,
um banho quente, fechei a porta pensando nisso. Fui falar com meu avô que se encontrava sozinho em casa. Situação,
devo dizer, muito estranha, porque a casa dele mais parece domingo todo dia, sempre cheia de gente da família,
os netos, os filhos, os ajuntados e afins. Meu avô, porém, estava deitado. Aliás, por motivos de saúde, é assim que ele
passaa maior parte do seu tempo. Triste. Bem triste pra alguém que já foi coronel da polícia, apaixonado por pintura,
um músico (frustrado) e fazia suas vezes de piadista também até a primeira vez em que sentiu a fraqueza nas pernas e a
tremedeira. Amo tanto meu avô que chega a doer só de pensar em como isso destruiu a sua vida, mas nunca abalou sua fé
ou vontade de viver. Um dia ainda vou escrever um livro sobre a vida do meu avô e todo mundo vai entender o porque da minha
infinita admiração por esse homem. "Oi, vô!"- "Oi, Gabriel." Relampejou lá fora e alguém tocou a campainha. Era Nelly,
a vizinha de apartamento. Vivia sozinha desde quando sua irmã morreu. Tinha medo dos relâmpagos, dizia, e logo
foi entrando como se compartilhasse comigo da mesma intimidade que compartilhava com a minha avó. Sentou-se, não quis o café.
"É só pra eu não ficar sozinha, já vou embora.".E me contou da sua vida, de como foi enfrentar um vestibular (o primeiro para todo
o Brasil) e depois uma faculdade já aos cinquenta anos, do seu neto estudioso que logo vai para São Paulo e de seu neto
relapso que não quer se formar e por fim, chorou. Aquela mulher de oitenta anos chorou de alegria, por poder conversar com alguém e de tristeza
pela irmã, "faz dois anos...", repetia. E foi embora. Naquele momento percebi que meu avô sentia a mesma coisa alí naquele apartamento
vazio, sozinho. Minha avó tinha saído com meu tio para fazer compras e talvez ele estivesse pensando em todas as suas lutas
e como tinha parado alí deitado. Era meu dever ficar ao lado do meu avô agora. Deitei na cama, sorri e ele me contou suas histórias
também. Sabe, essas pessoas não deviam morrer. Envelhecer é uma benção - foi vovô que falou e completou ainda - mas envelhecer
com sua família ao seu redor é uma honra. Fica pra sempre vovô, vai embora não.