quarta-feira, 30 de setembro de 2009

109

Sua banguela lhe apertava, era colo da sua mãe
E reclamava o seu pai: "você vai ter que se virar"
Era o último em tudo: "um dia isso vai mudar"
Ele apontava para o alto e caminhava para o mar

Faltavam-lhe alguns dentes, "beleza é o que não há"
"Minha beleza é coisa rara, mulher num vai faltar"
João Sortudo tinha pouco, melhor, quase nada
Só sua cara feia, a coragem e a canoa furada.

Canoa essa que seu pai lhe deu
"João meu filho, meu menino, você cresceu!"
Num último suspiro, ele desejou:
"Por favor, siga a família e seja pescador."

E o João Sortudo nem titubiou
Não tinha diploma, ele nunca estudou.
Era seu destino seguir aquela trilha
Só mais tarde ele descobriria...

Foi numa dessas que ele se deu bem
Saiu um dia sozinho, sem ninguém
E em alto-mar ele se aventurou
Jogado à própria sorte, aos berros exclamou:

"Finalmente encontrei o que meu pai não conseguiu!"
Quanto orgulho pra um só, um tesouro ele viu.
Desesperado e sem jeito, esse João tinha realmente sorte,
Jogou na sua canoa todo o dinheiro: "Ahá, eu vou encher o pote..."

Bebeu, dançou, pulou e foi além
Esbanjava toda sorte: "eu quero é mais, meu bem!"
Sacudia a cabeça e se recusava a parar
João Sortudo era o último a sair do bar.

Meteu a mão no bolso: "e agora? Vou pescar?"
Era o tesouro: "tesouro é o que não há!"
Jogado na sarjeta, mendigo se tornou:
"Era muito mais melhor quando eu era pescadô..."

"Quem mandou farrear meu joãozinho?", sua mãe lhe perguntou.
Já não tinha nada, seu dinheiro acabou
"Eu farreei foi sem querer,
Agora sou pobre, pobre de doer..."

João Sortudo tinha sorte mas acabou que se perdeu
E a principal coisa que ele se esqueceu
Foi que no dia em que tudo mudou
A sua sorte ainda era a de um pescador...

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